The Empty Children
Ele era bonito. Não do tipo clássico, sorrisos brilhantes, músculos, mas bonito porque era frágil, como se nunca tivesse realmente crescido. Sempre o achara bonito, mas com tanto interesse quanto alguém admira uma bela casa ou um cão de raça, sem nada de romântico naquilo. Nunca tinha dado grandes atenções, era apenas um fato da vida. Ele era bonito, de uma forma pouco óbvia, de uma forma que não o fazia ser perseguido ou desejado. Para a maioria, estaria apenas um pouco acima do normal - mas algo em Ginny achava aquela necessidade de proteção muito atraente.
(Talvez isso fosse porque não conseguia lidar com garotos muito certos de si, eles a assustavam e a lembravam de coisas que não queria lembrar)
Harry tinha o mesmo charme, e talvez fosse até por isso que conseguisse achar beleza nos detalhes que se repetiam no loiro, o ar de um menino grande com olhos de velho e muita solidão. Mas nunca antes Draco Malfoy tinha tido aqueles olhos, e foi o que lhe chamou a atenção realmente. Havia algo de errado naquele olhar de quem quer esconder o que sabe, de quem não quer admitir o que ouve, ou o que faz.
E esta era uma sensação que ela conhecia bem demais. Sua pele se arrepiava só de ver aquele olhar esquivo, a tentativa de parecer que tudo continuava perfeitamente bem. Ninguém parecia notar, mas cada palavra em sua boca parecia forçada e dolorida, um teatro inacabável que jamais enganaria ninguém - embora, aparentemente, enganasse a todos.
Ele tinha um segredo, e não era preciso ser nenhum gênio para imaginar qual era. Os detalhes eram irrelevantes, o evidente é que fazia diferença. Fosse qual fosse a tarefa impossível, Ginny Weasley não tinha qualquer dúvida de quem a exigira. Ela vira, por anos, nos olhos dele a mesma admiração tola e inocente que ela um dia sentira, a confiança em algo que poderia mantê-lo, segurá-lo. Ela conhecia aquela sensação bem demais, e mesmo que não gostasse nem um pouco dele, seu coração se apertava, simpatizando com a inevitável decepção que não tardaria tanto à chegar.
Mas, afinal, era de se esperar. Depois que Lucius Malfoy fora preso, tudo tinha se complicado demais para eles, alvos fáceis e desejáveis de um homem incapaz de entender o que era família. Sabia que eles tinham escolhido seu lado, mas tinha uma capacidade de compreensão muito maior do que a maioria de seus irmãos. Antes de pensar na escolha errada, nos pensamentos preconceituosos, lembrava da capacidade de sedução que Tom Riddle tivera ainda aos 16 - e só podia imaginar o quanto mais teria adulto. Lembrava de como ele conseguia justificar qualquer coisa - de um sorriso até sua própria morte - e envolver, conquistar e aniquilar aqueles à sua volta.
Por mais que acreditassem em coisas completamente diferentes, ela conseguia sentir pena, conseguia antecipar a dor, observar o desenvolvimento da coisa ainda que não soubesse exatamente quais seus propósitos.
Não importava. Qualquer propósito que Lord Voldemort pudesse ter, só poderia ser dos piores possíveis. E a fascinação e medo de Draco Malfoy poderia muito bem ser a causa da queda de todos eles.
Ela conseguia entender, das poucas coisas que entreouvia, que Harry acreditava que Malfoy era o responsável pelo acidente de Katie. Em segredo, só podia concordar. Fosse qual fosse a finalidade (certamente Katie não era exatamente o alvo, mas um meio), era inegável que seu destino fora alterado pelos planos de Draco.
Queria impedi-lo, ao mesmo tempo, conseguia entendê-lo. Tom soubera brincar com seus piores medos e a levara a atacar seus amigos por jogar com sua insegurança, colocando-a contra Penélope, contra Hermione, mulheres que tinham sido boas com ela, mas eram uma competição indesejada. Duvidava seriamente que tivesse tido sequer a mesma gentileza com o rapaz. Agora, as ameaças podiam ser diretas, e a manipulação era desnecessária. Viver era uma permissão que ele recebera, e não por muito tempo.
Preocupava-se, pois detestava ver alguém passar pelas torturas mentais que ela mesma passara. Mas não haviam brechas, momentos ou formas. Só podia esperar pelo momento certo, se é que ele viria, torcendo para que nada desse errado até lá.
Mas sabia, também, que quando se tratava de Tom Riddle, esperar que algo não desse terrívelmente errado era uma esperança tola.
Aquilo não saia de sua cabeça, embora parecesse nem mesmo pensar no assunto. Ela brincava, ria, fazia piadas e, no geral, parecia bastante feliz. Ninguém poderia sequer imaginar que ela pensava em nada além disto, aprendera a fingir muito bem, há muitos anos. Sabia esconder o medo e fingir despreocupação. Sabia disfarçar seus olhares e controlar seus gestos. Ginerva Weasley era uma garota que não se poderia conhecer.
O jogo de quadribol da Corvinal contra a Lufa-Lufa foi a primeira ocasião em que falou com o rapaz em todo o ano. O castelo já tinha se dirigido ao campo, e ela voltara à Torre para buscar seu cachecol. Draco Malfoy estava sozinho, próximo a tapeçaria que escondia a entrada da Sala Precisa. Os dois se encararam por um segundo hostil, sem se mover. Lentamente, ela seguiu na direção dele - e da escada. O rapaz cruzou os braços, olhando feio. Uma menina do primeiro ano surgiu e deu um gritinho ao vê-la, o que o fez ficar ainda mais enfezado.
Não falou nada até que estivesse bem perto dele. Não diminuiu o passo, apenas parou, sem olhar para ele.
"Ele não vai parar até conseguir te matar."
Sua voz era baixa, mas ele sem dúvida ouviu. Não olhou para ela. Era como se um deles estivesse usando uma capa da invisibilidade. Não se moviam, apenas respiravam, o coração batendo forte.
"Acha que eu não sei disso?"
A resposta era ao mesmo tempo arrogante e desesperada. A ruiva balançou a cabeça negativamente, antes de responder.
"Seja lá o que ele te pediu, não vai parar por ai. Não adianta nem mesmo conseguir. Ele não vai parar de te ameaçar se você tiver sucesso."
"Você não sabe disso."
A voz dele estava claramente trêmula. Era óbvio que ele tinha considerado essa possibilidade e achado-a muito pouco atraente.
"Eu sei disso" falou, a voz baixa e calma. "Porque eu o conheço muito bem."
O loiro finalmente olhou-a, surpreso além das palavras.
"Se alguém resolve ser inimigo do herdeiro, deve ter cuidado" completou, antes de continuar andando como se aquela conversa jamais tivesse existido. Pode sentir o olhar dele a acompanhando, e soube que ele entendera a referência perfeitamente bem.
Continuaram não se falando, mas seus olhares se cruzavam. Ele parecia suplicar mudamente, mas se ela fizesse qualquer gesto para reconhecer o momento, eles imediatamente morriam. Draco precisava de ajuda, ambos sabiam, mas não poderia realmente pedir ajuda. Ele estaria correndo um perigo terrível se alguém sequer desconfiasse de que ela sabia.
Novembro se escoou para dezembro. A neve caia, pálida como o rosto quase doentio dele. Ginny ria e brincava, mas seu coração se apertava a qualquer vislumbre de cabelos platinados. Sempre fora firme, sempre julgara todos, mas conhecia tão bem a situação que não poderia deixar de mudar de comportamento. Ele trincava os dentes, tentando ter força, e ambos sabiam que ele estava condenado.
Naquele tempo, todos estavam condenados.
A volta para casa para os feriados de Natal parecia animada. As pessoas estavam aliviadas de terem para onde ir, de terem pais ainda. Alguns não tinham esta sorte e voltavam para a dor e a perda. Dean estava tenso, e ela sem paciência para aturá-lo. Hermione mantinha-se amuada e se comunicando em monossílabas. Ginny sabia que seus cabelos vermelhos a lembravam de coisas que preferia esquecer.
O ano seguinte não mostrou grandes melhoras - se é que era possível, piorou tudo ainda mais. O mundo parecia desgastado e sem cor conforme ela andava, o frio daquele inverno entranhava-se por cada pedaço de seu corpo, tomando-a.
Andava, ansiosa por achar um lugar onde pudesse estar confortável, sem ter que aturar agarramentos, choramingações ou especulações tolas que serviam mais ao propósito de espalhar o pânico do que ajudavam a se preparar para o golpe que inevitavelmente viria. Uma mão segurou seu braço e puxou-a para um compartimento vazio. Só ficou parcialmente surpresa ao ver Draco Malfoy.
"Eu sou um idiota" ele anunciou, e ela sorriu involuntariamente.
"Concordo."
"Por que você desconfia de mim?"
Ela franziu a testa, respondendo sem nem mesmo tomar fôlego.
"Eu não desconfio. Eu sei."
Ele desviou o olhar e não falaram nada por alguns segundos.
"Eu não falei nada para ninguém" acrescentou depois que o silêncio tinha se estendido por tempo demais.
"Por que não?"
A ruiva deu os ombros, e ambos sabiam que ele tinha tocado em um ponto desconfortável. Ela tinha orgulho o suficiente para não admitir que não a ouviriam, ou não a levariam a sério. Ele tinha percepção o suficiente para saber destas coisas sem que ela precisasse verbalizá-las.
"Obrigado."
A garota meneou a cabeça, descomprometidamente.
"Mas não quer dizer que eu não ache que você deve pedir ajuda."
"Como você pediu?" Draco contra-atacou, tirando o foco de si.
"Não teria sido melhor se tivesse pedido?"
"E teriam acreditado em você?"
Os dois se encararam, sem palavras. Conheciam muito bem todas as respostas. Sozinhos, tinham se perguntado as mesmas coisas várias vezes, sem achar nenhuma saída. A escuridão que o cercava parecia envolvê-la lentamente, fazendo com que o tempo andasse para trás e fosse novamente apenas uma menininha.
Ginny teve medo. Sentiu fortemente as dores que tentava esquecer, as culpas que tentava enterrar, as certezas que preferia calar. Quem era aquele garoto, que conseguia tocá-la tão profundamente que suas barreiras caíam, uma a uma, deixando-a completamente vulnerável? Como Draco Malfoy poderia saber tão bem o que ela tinha passado, e seu desespero atual refletir tudo que ela já sentira?
Claro, eram iguais em alguns aspectos. Ela sabia muito bem tudo que ele estava passando, e caso não admitisse a dificuldade da situação, significaria que ela era egoísta demais para compreender os outros - mesma coisa pela qual ela chamara atenção de Harry um ano antes. E, em alguns momentos, Ginny conseguira lutar contra aquilo, conseguira se livrar do diário, ainda que tivesse decidido recuperá-lo (e não se arrependia, seus motivos eram justos). Já Draco, jamais tivera a chance. Ele não poderia se livrar de Lord Voldemort como ela se livrara de Tom, não era tão simples. Se bem o conhecia - e infelizmente, acreditava que era verdade - ele teria garantido que tinha mais do que a vida dele em jogo.
A angústia de saber que não havia nada, absolutamente nada que pudesse fazer sobre ele, nem que ele pudesse fazer por si mesmo, tomou conta dela. Estava absolutamente preso naquela situação, sem nenhuma saída e ela sabia o quanto aquilo doía, incomodava e dominava sua vida. Viver muitos anos com Fred e George tinha dado a ela a certeza de que qualquer coisa era possível, se você tivesse coragem o suficiente. Um ano com Tom tinha mostrado que certas coisas estão além do seu controle - elas te controlam. Draco Malfoy estava em uma posição que não tinha como combater. Ele estava derrotado antes mesmo de entrar nela e ninguém poderia evitar que fosse assim, não haveria ombros amigos ou palavras confortadoras que mudassem a dura realidade.
Não foi consciente que jogou os braços em torno dele, abraçando-o firme. Ela precisava de segurança, de calor, mas Draco estava procurando as mesmas coisas, e não poderia dá-las à ela. Os braços dele eram finos e sua respiração gelada. Naquele momento, seus corpos demonstravam a proximidade entre suas almas. Nada além de um abraço, mas tão completamente envolvente que poderiam ter-se desmanchado, parando de ser dois opostos para tornarem-se uma única pessoa sem nem mesmo notar.
Ginny sentiu as lágrimas frias dele tocando seu pescoço, as mesmas que ardiam conforme desciam em seu rosto e, com toda a determinação que tinha, mordendo o lábio deu um passo para trás, falando a única coisa que poderia pensar naquele momento, a voz macia e gentil.
"Fique longe de mim, Malfoy. Pelo bem de nós dois."
Havia culpa nela quando apoiou a atitude de Harry em amaldiçoar Malfoy. Nos olhos verdes dele, ela se repetia, mostrando que preferia ter ajudado, ou certamente não planejava que fosse tão longe. Uma voz insistente em sua cabeça dizia que a cena seria muito pior se tivesse o visto chorando com ela ao invés de com Myrtle. E, risadas sem humor ecoavam em sua mente enquanto imaginava o tipo de comentário disparatado que isso geraria, transformando a inimizade de anos em uma disputa por seu amor.
(Nem para si mesma admitiria que parte de si desejava que fosse de fato, mas a vida não era tão simples).
Sabia que o caminho dele era sem volta e que nada que ela fizesse seria capaz de salvá-lo. Sequer havia salvação dos deveres impostos por seu Lord. Falariam, muito, em uma salvação pessoal, mas as lágrimas e seus olhos desesperados deixavam claro que a mudança por dentro tinha acontecido ainda que seus atos depusessem contra ele. Estava além de seu controle, simplesmente parar.
Ginny sabia disso muito bem, mas preferia tentar esquecer. Não queria pensar ou se preocupar com os problemas dele, problemas que ela já tinha superado, e com a firmeza que caracterizava seu triunfo sobre o passado, lançou os braços em torno de Harry e beijou-o, deixando todo resto de lado.
Tardes ensolaradas ao lado do lago eram como um obliviate. Nada mais estava em sua mente, e seus esforços seguiram na direção de ajudar Harry a esquecer também o quão diferente ele era. O passado já fora, era hora de seguir em frente para o futuro e pintá-lo em cores radiantes que, no fundo, sabia que não teria.
Quando uma Hermione cética e um Ron preocupado disseram a ela que Harry tinha certeza que Draco aprontaria naquela noite, seu coração gelou. Era o momento. Aquele momento. A Sala Precisa seria a Câmara Secreta dele. Tomou um pequeno gole da poção que lhe daria sorte, mas não houve nenhuma euforia: apenas o desejo infeliz de que ele tivesse tido a mesma graça muitos meses atrás.
Qual seria a tarefa? Qual era o plano? Aquelas perguntas que tinham rodado em sua mente sem resposta logo seriam resolvidas. A qualquer minuto agora, o mundo mudaria de lugar para Draco Malfoy. Será que ele se descobriria forte? Ou será que sua covardia escondia algo melhor? A varinha em punho recusava-se a importar com qualquer uma das questões.
A escuridão tomou conta do corredor, e ela reconheceu na mesma hora o produto. Pobre Fred e George! Não era isso que eles imaginavam quando compraram o pó peruano. Passos, e eles fugindo, em direção a algum lugar dentro da escola. Os membros da Ordem da Fênix gritavam feitiços, os comensais respondiam, mas Draco não estava em lugar nenhum. Mas, claro, ele tinha um foco maior do que apenas infiltrar meia dúzia de comensais em uma Hogwarts cheia de proteções. Eles eram apenas uma distração - ainda que mortal.
A batalha era como um espetáculo de fogos de artifício, gritos, risadas, terror e luzes. Era como dançar a melodia de uma sinfonia fúnebre, mas a morte a errava por milímetros, toda vez. Não pensou nem hesitou por momento nenhum até ver o rosto pálido de Draco aparecer logo em frente a Snape na descida da Torre de Astronomia. Os olhos se cruzaram por apenas um instante, cheios de medo, desespero e algo mais que ela sabia ser um adeus.
Não teria atacado-o mesmo que soubesse da traição de Snape. Não importava. A vida dele estava perdida, e as feridas eram profundas demais, de uma forma ou de outra. Ela sabia disso, ele sabia disso. E os cabelos loiros desapareceram no fim do corredor, perseguidos por um Harry desesperado e raivoso.
Ginny Weasley parou de lutar. Nada mais poderia ser feito.
"Você precisa vir" Ginny tinha a voz doce, mas sua mente estava longe. A dor parecia tomar conta dela, cada pequeno pedaço. As palavras iam e vinham sem real significado. Todo o conforto lhe era roubado pela cruel realidade. Dumbledore estava morto e, ainda assim, Draco Malfoy falhara. O mundo mágico estava perdido, e o garoto também estava.
Quando todos já dormiam ou tinham ido embora, ela continuava acordada, sozinha, olhando através da janela e imaginando se haveria, um dia, o futuro com o qual tinha sonhado para si.
(Do outro lado do país, um garoto loiro via o sol raiar imaginando se voltaria a ver aquelas cores repetidas em fios flamejantes.)