Capítulo 08
- Ele é lindo. - Hermione afirmou, sorrindo, e ganhou um olhar duro de Draco, como se a hipótese de ainda haver dúvidas quanto a isso fosse uma ofensa.
Harry sorriu de longe, observando o loiro sentado na cama com o bebê nos braços e Ron e Hermione o entregando presentes e perguntando sobre a saúde da criança.
Apesar de ser prematuro e fruto de um incesto em primeiro grau, William era saudável. Ele era pequeno e precisou tomar algumas poções logo após seu nascimento, principalmente para os pulmões, e precisaria de acompanhamento constante por algum tempo, mas estava bem.
Harry acompanhou Ron e Hermione até a saída e, na volta, passou na cozinha pegando uma mamadeira, estava na hora de William comer e Draco não tinha autorização para sair da cama ainda.
Quando chegou no quarto, parou à porta, olhando a cena. Draco brincava com o bebê. Ele tocava suas mãozinhas, como se tentando entender a diferença de tamanho de seus pequenos dedos com relação aos dedos do pai, beijou o peito do bebê, aspirando seu cheiro, seu nariz roçando os pequenos lábios rosados e as faces redondas. Os olhos cinzentos e enormes o encaravam, curiosos, sabendo que era a pessoa mais importante de sua vida ali, a sua frente, e Draco ainda acariciou a cabeça coberta pela pelugem loira que prometia o mesmo dourado dos fios que caiam pelos seus ombros.
- Eu não sei como pude pensar em abandoná-lo. - Draco disse, baixo, acomodando o filho melhor em seu colo - Ele é perfeito.
Harry se aproximou, lhe entregando a mamadeira e, sentando-se à beira da cama, depositou um beijo leve na cabeça do bebê. Ele observou Draco amamentar William em silêncio. O loiro não pareceu se incomodar com sua proximidade, assim como não se incomodava com ele próximo ao bebê. Ele parecia mais... sereno. E isso alegrava Harry.
- O medibruxo disse que você pode se levantar amanhã e fazer pequenas caminhadas. Logo você vai estar bem. - Harry comentou, sorrindo, e recebeu um pequeno sorriso de Draco como resposta - Como se sente?
- Bem. Eu só senti dores das contrações, depois mais nada.
- Você perdeu muito peso nos últimos dias. - Harry notou.
As faces de Draco estavam fundas e seu corpo parecia drasticamente menor. Perder peso logo após o parto era normal, a própria barriga, antes tão volumosa, era quase imperceptível agora, mas o loiro parecia estar emagrecendo continuamente desde que deixara o hospital, e Harry suspeitava que isso poderia ser devido a alguma tensão que ele estava escondendo.
- Eu estou bem, Potter. - ele respondeu, irritado.
- Eu só estou preocupado. - Harry deu de ombros.
Draco o olhou por um longo tempo e Harry sustentou seu olhar, tentando compreender o que ele tentava lhe dizer com isso, mas por fim o loiro se voltou para o bebê mais uma vez. William era o centro da casa agora e ele exigia mais atenção do que tudo.
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Draco se balançava devagar, o bebê seguro em seu colo enquanto um feitiço fazia com que o balanço seguisse seu fluxo suave. William parecia gostar da brisa leve, dos sons dos sinos e da luz do sol brincando entre as folhas tanto quanto seu pai. Ele ficava calmo e atento em seu colo quando estavam ali, muitas vezes dormindo por longas horas ao som da voz baixa de Draco ritmada com os sinos.
Ele não cantava as músicas de sua infância, não queria que nada de sua infância tocasse em William. Ele cantarolava palavras e sons sem sentido, mas que traziam paz para ele e para seu filho.
Ele estava em paz. William não tinha nada de Lucius. Não tinha seus olhos, não tinha seus cabelos, não tinha sua arrogância, não tinha sua força ou sua ferocidade. William era seu, totalmente seu, puramente seu. Seus lábios e seus olhos e seus cabelos refletidos naquela criaturinha indefesa que tinha seu cheiro.
E Draco o amou desde o primeiro toque, desde a primeira vez que o viu, desde o desespero de tê-lo perdido àquela paz de tê-lo em seus braços. Era seu filho, e de mais ninguém, e nada poderia roubá-lo dele.
Draco ficou tenso no balanço ao ouvir os passos próximos, mas logo os reconheceu como os de Harry e voltou a respirar, relaxando o aperto do bebê em seus braços.
- Desculpe, eu não quis te assustar. - Harry disse em um sussurro, percebendo que o bebê dormia. Ele sorriu e se recostou ao tronco da árvore, observando os dois.
Os olhos verdes o seguiam agora talvez com mais ênfase do que antes, ainda preocupados demais, como se esperando a qualquer segundo que Draco atirasse o bebê no chão ou tivesse uma crise de pânico ou algo parecido. O loiro entendia essa tensão e sabia que somente o tempo provaria para Harry que ele estava bem de verdade.
Mesmo que ele não estivesse.
Ele estava bem com relação a William e Harry, mas certamente não estava bem com alguma coisa. Ele estava o tempo todo tenso e mais assustado que o normal, e Harry percebia isso. Era como se o fato de ele aceitar e amar William o fizesse mais frágil. Há algumas semanas, quando Harry escolhera seu nome, ele lhe dissera que William seria seu protetor, mas isso não era verdade. Draco deveria protegê-lo, deveria zelar por ele, deveria guiá-lo e sustentá-lo. E ele não fazia ideia de como fazer isso quando ele havia perdido tudo, quando ele não tinha futuro, quando ele não havia conseguido se proteger.
- Draco, você está chorando. - Harry constatou, a preocupação de volta à sua voz.
O loiro secou rapidamente as lágrimas. Odiava quando elas caiam sem que ele percebesse, perdido em seus pensamentos. E era irritante como Harry parecia estar mais atento justamente nesses momentos.
Mas, para sua surpresa, o moreno não se moveu. Somente continuou observando-o, encostado à árvore.
- Quando você vai me contar o que está acontecendo? - ele perguntou, por fim, depois de um longo silêncio.
- Quando eu souber... - Draco resmungou, sentando-se mais confortável no balanço para que a paz daquele lugar o envolvesse novamente.
Harry se aproximou, o loiro acompanhando com os olhos atentos e, em um gesto simples, pousou um beijo em sua testa, correndo os dedos entre os fios loiros longos.
- Eu ainda estou aqui para vocês. - ele disse, acariciando William, e Draco sorriu, percebendo que, afinal, ele tinha um protetor.
- Harry, você não tem saído. O que aconteceu?
- As coisas estão entrando em seu lugar. A poeira da guerra está abaixando, não precisam mais de mim.
- E quais são seus planos? - Draco perguntou, tentando se interessar por qualquer outra coisa que não suas próprias inseguranças.
- Viver. - Harry deu de ombros - Ajudar você no que eu puder, convencer a Mione e o Ron a se casarem, cuidar do William. Preciso arrumar alguém que entenda de investimentos para dar um direcionamento no meu dinheiro. A herança do meu padrinho foi liberada e não é pouco, está parada no meu cofre, mas quero alguém de confiança para fazer isso.
- Eu posso ver isso para você, se quiser. Eu ajudava meu pai a administrar nossa fortuna ainda no colégio, entendo um pouco disso. - ele sorriu para Harry - E espero que você confie em mim. Podíamos até trabalhar juntos, se você quiser.
- Como assim?
- Eu não quero sair de casa por enquanto. Quero ficar com o William e não me sinto... seguro. Então eu cuidaria da papelada e do planejamento e você da burocracia nos bancos e com os investidores.
- Me parece perfeito. - Harry sorriu, acariciando seu rosto e Draco baixou o olhar, parecendo incomodado - Desculpe. - o moreno se afastou.
- Não. Eu só... - e se calou.
- Eu te deixei desconfortável. Tudo bem. - Harry sorriu, sem graça - Eu voltei a te tocar por hábito, desculpe, vou tentar me conter.
Draco baixou os olhos, sentindo William relaxar em seus braços, adormecendo. Estava tudo bem, afinal, menos ele mesmo. Ele, que precisava de Harry para protegê-lo e ajudá-lo a criar seu filho. Harry, de quem ele aprendera a gostar. De quem não pretendia se afastar tão cedo.
Devagar, o loiro tocou os dedos do moreno que se apoiava no arco do balanço, chamando a atenção dos olhos verdes para ele mais uma vez. Deu um pequeno beijo em sua mão e o encarou, vendo-o surpreso.
- Somente não desista de mim, ok? - disse, baixinho, tentando sorrir, mas sentindo que talvez fosse demais.
Harry sorriu por ele, voltando a tocar seus lábios com os dedos, claramente se contendo para não se debruçar sobre ele e beijá-lo. E, em um gesto silencioso, concordou, emocionado.
Um dia, talvez, ele poderia voltar a ser feliz, no lar que ele construiu, naquela família inusitada.
FIM
NA: Olá, meus queridos.
Acabou ._.
Espero que tenham gostado! Muito obrigada por lerem e comentarem.
Essa fic era para ser oneshot, mas transformar ela em long, ainda que uma long suave, foi bom.
Beijos e até a próxima!
