Fic: Eleven
Autora do Capítulo: .net/~liihhelsing
Sirius Black - Alive
Lihhelsing
Sirius Black respirou profundamente, o coração batendo acelerado no peito, a adrenalina pulsando por todo seu corpo. Ele se sentia mais vivo do que nunca.
"Emoções fortes," ele pensou. Respirando e inspirando. Suspirando para dentro de si toda aquela vida que o envolvia, tomava conta dele, o dominava como nada havia feito antes. Sua mãe sempre cuspira em sua cara o quanto ele era um traidor, a imagem dela enfiada numa moldura velha adorava gritar com ele, apenas lembrá-lo do quanto relapso ele era, de como tinha largado tudo para apanhar o nada com as mãos suadas de um esforço que ele não precisaria ter feito se tivesse seguido o caminho certo.
Certo, ele riu, pensando em quantas interpretações erradas se podia fazer daquela palavra. Cinco letras que eram capazes de destruir anos de esforço.
E com as mãos pesadas, cansadas de tentar segurar o mundo, ele se apoiou na poltrona surrada e azul, sua velha companheira de infância. E jurou tê-la ouvido dizer que já bastava, ele tinha feito esforço o suficiente por uma vida inteira; que deveria ficar em casa.
Ele ri de uma forma debochada, as covas em seu rosto se acentuam e uma súbita necessidade de sentar-se o domina.
"Você não é mais o mesmo, não é Padfoot?" Ele se sobressai com a voz cansada e familiar de Remus, que vai em sua direção e se senta no braço da poltrona.
"Nenhum de nós é." Outro suspiro e ele tenta se lembrar quando foi que ficou tão cansado. Ultimamente não fazia nada. Corrigiu. Ele nunca fez nada.
"Você sente falta dele? Digo, de James." Remus descansa uma das mãos no topo de sua cabeça. Sirius também não se lembrava exatamente quando ele e o amigo se reaproximaram. Voltaram a se tocar como não tocavam ninguém mais e Lupin sabia que era o único que podia fazer isso sem acertar as cicatrizes dele.
"Todos os dias, o tempo todo." Ele confessou numa meia voz quase inaudível que tornava sua dor praticamente palpável. Remus enrolou os dedos em uma das mechas de cabelo sujo e ensebado e sorriu tristemente. Partia-lhe o coração ver uma das pessoas que ele mais amou – e ainda amava – naquele estado de semi-vida.
"Eu também." Confessou Moony e foi a vez de Sirius esboçar um sorriso; durou menos de alguns segundos, mas Remus sabia o quanto aquilo significava no mundo de Sirius pós-James. Talvez não fosse necessariamente – e nem somente – pós o amigo, era tudo aquilo. Tudo que a vida de Sirius tinha se tornado depois que se formou em Hogwarts.
Remus tinha se acostumado a não ter nada, mas era difícil para Black virar as costas para todos os luxos que ele tinha em uma família de sangue puro e segurar tudo nas próprias mãos. De certa forma ele nutria admiração pelo amigo, que tinha tido todas as oportunidades de simplesmente desistir, mas nunca o fez de fato. E lá estava Sirius, beirando a desistência mais uma vez.
Sirius viu todos os caminhos se desdobrarem em novos e caminhos, e novas oportunidades e uma chance de ter tudo de volta. Ele poderia, afinal, ter voltado com o rabo entre as pernas quando bem entendesse. Alguém, se não sua mãe, teria compaixão por ele e o acolheria como se ele nunca tivesse sido um traidor. Mas não. Sirius ficou até o fim. E ele estava lá, afinal, contemplando sua vida restrita a casa da qual ele sempre fugiu, esperando o pior, vendo a esperança escorrer-lhe pelos dedos esqueléticos.
Remus duvidou que algum dia ele fosse ter feito uma escolha por saber que ela faria dele um herói. Ele sempre teve em mente o que queria da vida e faria tudo que fosse necessário para alcançá-la. Afinal, ele abriu mão de tudo apenas para seguir o caminho que queria, e evitou olhar para trás; evitou a nostalgia que todas as outras opções lhe davam e seguiu forte.
Afinal, foi ele que segurou James quando este perdeu os pais. E ele se segurou sozinho, além de agüentar a solidão e a culpa, quando James morreu. Anos depois, sentados em poltronas fofas e tomando chocolate quente, Remus e Sirius trocaram breves palavras sobre isso. E foi quando ele descobriu a falta que Prongs fazia na vida de Padfoot.
"Ainda temos um ao outro," continuou Remus, sentindo Sirius apertar-lhe a mão solta, concordando e mostrando o quanto ele precisava daquele apoio. "E você ainda tem o Harry."
"Se depender do mundo não o terei por muito mais tempo, Moony." Sua voz soava amarga, era carregada de dor e medo, como se Harry fosse seu próprio filho.
"Ele vai sair dessa, Sirius." Remus afagou os cabelos dele e deu tapinhas em suas costas, como se o consolasse. Ele absorveu o silêncio entre os dois sem perceber a inquietude do amigo e, finalmente, se levantou, andando a passos pesados até a porta.
Sirius Black implorava com seu olhar cansado e já quase inexpressivo que o amigo ficasse mais um pouco. Eles tinham trocado meia dúzia de palavras e ele sentia que havia tanto mais a ser dito. A verdade é que Remus estava deixado aquela porta, caminhando lentamente de costas para Sirius, sem perceber o que estava óbvio.
Padfoot ouviu a porta de sua casa no Largo Grimmauld bater e os passos de Lupin desaparecerem para a fria e melancólica Londres. E ele ouviu seus pensamentos e todas as coisas que ele tinha preferido não fazer em todos os seus anos de vida.
Sua mãe tinha razão, afinal. Sirius era um relapso e nunca tinha feito nada porque ele simplesmente tinha medo do que o mundo reservava para ele. Mas ainda havia chances de mudar. Ele sempre seguiu aquele caminho com um dos olhos fechados, como se não estivesse preparado para encarar tudo que lhe estava reservado. Ele realmente não estava preparado para arriscar perder alguma coisa, mas ele não poderia perder nada se tudo que ele tinha estava indo diretamente em direção ao vazio – era como se tudo que ainda lhe restava estivesse realmente buscando o fim.
Ele se levantou, sentindo os ossos de seu corpo estalarem, e ele estava novamente pronto para receber o peso daquela decisão. A descarga de adrenalina era talvez, maior do que a inicial, porque ele tinha escolhido seu caminho e estava, de fato, preparado e determinado a segui-lo.
"Eu é que talvez não saia dessa, Moony." E em questão de segundos Sirius era um grande cachorro preto que corria a toda velocidade em direção ao Ministério da Magia, mais precisamente em direção ao Departamento de Mistérios – quem sabe se ele fosse rápido pudesse alcançar Harry antes de todo mundo.
E com o vento batendo em seu corpo, a adrenalina, – o medo, a insegurança e uma pontinha de esperança – o faziam sentir-se mais vivo do que nunca. Talvez ele realmente pudesse compensar alguma coisa.
continua...
