Prólogo
Harry teve que se segurar para não cuspir o suco por sobre o pergaminho ao ler o nome do remetente. Era Remus Lupin. O mesmo Remus que desde a Grande Guerra, após a trágica morte de Tonks, havia desaparecido do mundo. Já fazia dois longos anos que não se ouvia falar dele nem de Teddy.
Harry havia recebido apenas uma outra carta, há mais ou menos três anos, vinda do Egito, pedindo ajuda para conseguir uma poção de cura rara. Teddy aparentemente pegara uma epidemia mágica do deserto, algo sobre ruínas e pirâmides. Depois dessa comunicação inusitada, Harry tentara ainda enviar algumas cartas para saber melhor sobre o paradeiro de Remus e Teddy. Porém, obtivera como resposta apenas uma nota simples, agradecendo o favor e avisando que Teddy passava bem.
Por isso mesmo ele sentiu certo temor e certa urgência em abrir logo o envelope. Remus não o procuraria se não fosse algo realmente importante. Será que o pequeno Teddy estava bem? Seria outra doença? Ou algum acidente... será que precisavam dele? Tenso, abriu a carta e se pôs a ler naquela letra clara e longa.
Caro Harry,
Sei que faz tempo que não mando notícias, nem respondo suas cartas, mas realmente precisei de um tempo. Não quis envolver ninguém na batalha contra meus próprios fantasmas. Acho que talvez você entenda essa atitude, visto tudo o que passou. Espero sinceramente que não guarde ressentimentos do meu silêncio.
Imagino, pelas suas cartas, que você se pergunta como Teddy está desde aquela epidemia no Egito, porém, não há motivos para preocupação. Ele está bem e saudável. Cresceu muito desde a última vez que você o viu, e agora está quase tão tagarela quanto a própria mãe foi.
Exatamente por estar tão crescido, acho que é hora de arranjar um lar definitivo, onde Teddy possa frequentar uma escolinha e ter uma vida minimamente normal. Estive pensando por muito tempo em voltar à Inglaterra, mas a decisão final veio somente com essa recente (e tão aguardada) lei contra o preconceito licantropo.
Sei que no começo não será fácil, o preconceito está há tempo demais enraizado nas pessoas, mas gostaria de voltar e tentar lutar pela igualdade racial no mundo bruxo.
Acho que poderia pedir estadia à Andrômeda, mas ainda não sei se ela me perdoa por ter levado para longe o único parente que sobrou de sua família dizimada pela Guerra. Só consigo pensar em você, Harry, para me dar asilo apenas enquanto me estabilizo novamente na Inglaterra.
Se não houvesse Teddy, não ousaria pertubá-lo com meus problemas, porém, enquanto não encontro um emprego e não acho uma casa própria, preciso contar com a ajuda dos amigos, que não são muitos desde a Grande Guerra. Prometo que será temporário e que assim que conseguir me arranjar, devolverei o sossego à sua casa.
Aguardo resposta,
Remus J. Lupin.
Ao final da carta, Harry estava boquiaberto. Passou a mão pelo cabelo e olhou em volta. Mal recebia visitas, o que diria hospedar duas pessoas. Precisaria arrumar o quarto ao lado do seu, que no momento servia como um guarda-entulho. Depois precisava dar um jeito em todos aqueles livros e pergaminhos espalhados pela casa. Sem contar as roupas, os sapatos, as meias e outra infinidade de objetos de treinamento auror que ocupavam o chão e o tornavam um caminho minado. Primeiro teria d...
- Ouch! - exclamou ao sentir seu dedo indicador ser quase arrancado fora. A coruja que entregara a carta encarava-o com um olhar arisco, preparando-se para a próxima bicada.
- Xô! Cai fora! - exclamou Harry, movendo-se de forma a ficar fora do alcance do bico curvado, e ao mesmo tempo ameaçando a coruja com a colher do café da manhã que estava tentando comer. Estava praticamente cutucando-a com o talher quando a ave atacou. Não a ele, mas ao próprio objeto, ciscou com ferocidade o cereal que estivera preso ali. Depois voltou a encarar Harry, inflando-se toda. Sem perder tempo, o rapaz empurrou o próprio prato de cereal para o bicho, que pareceu satisfeito em ignorá-lo e se concentrar na comida oferecida.
Harry voltou a atenção à carta, investigando-a melhor. Percebeu que havia algo escrito na parte de trás do pergaminho, um pequeno aviso:
P.S.: A coruja é meio temperamental, mas foi o melhor que pude arranjar aqui na Romênia. Achei que um dos dragões da reserva seria extravagante demais e possivelmente queimaria a carta antes de conseguir entregá-la.
Harry não pôde evitar sorrir com a segunda parte da mensagem, mas teria ficado grato se Remus houvesse avisado sobre a coruja antes dela ter tempo suficiente de quase arrancar um de seus dedos. Harry deu uma olhada desconfiado para a ave e, ao constatar que ela continuava distraída, invocou uma pena e um tinteiro. Fuçou rapidamente ao redor até encontrar um pedaço de pergaminho amassado, mas limpo, embaixo do encadernado em couro verde chamado As cinco técnicas de investigação auror que estivera lendo na noite anterior.
Rabiscou rapidamente no pergaminho, com medo do cereal acabar e a coruja voltar a atacá-lo:
Remus,
Não há problema algum em receber vocês aqui em casa. Quando chegam? Preciso saber para arrumar o outro quarto que irá hospedá-los.
Será um prazer enorme receber os dois pelo tempo que for, não precisam ter pressa para se mudarem, vai ser legal dividir a casa com alguém.
Abraços,
Harry P.
Após escrever, enrolou o pergaminho com a mesma fita que viera na carta de Remus e prendeu-o na perna da coruja, ainda entretida com o restinho do cereal. Harry esperou paciente que ela terminasse de comer e voltasse a encará-lo carrancuda.
- Volte lá e entregue a carta a Remus - disse no tom mais educado que conseguiu encontrar.
Por um momento pareceu que a ave não pretendia se mover. Encarava Harry com seus grandes olhos claros. O jovem sustentou o olhar, desafiando-a. Por fim, percebendo que provavelmente não venceria a disputa, a coruja soltou um pio agudo e alçou vôo, passando rasante pela cabeça de Harry, que xingou baixinho com o susto que levou.
O jovem se aprumou novamente na cadeira, olhando tristemente o prato de cereal vazio. Agora não tinha absolutamente nada para comer, aquele havia sido o último alimento da casa, nem leite tinha. Ia comer cereal puro se a coruja não tivesse devorado cada grão. Bom, sempre havia a padaria ali ao lado. Harry já era um cliente habitual.
Olhou em volta, atrás de uma roupa para vestir. Voltou a se deparar com a terrível bagunça que era sua casa e sentiu os ombros caindo. Precisava ao menos tornar o outro quarto habitável antes que Remus e Teddy chegassem. E como será que Teddy estava? Provavelmente bem grande. Será que ele se parecia mais com Tonks ou com Remus? Da última (e primeira) vez que o vira, ele ainda era um bebê pequeno, apenas com meses de vida e divertidos cabelos turquesa. Mas agora, de acordo com Remus, ele até já falava!
Harry sorriu sozinho em sua mesa de cozinha desarrumada, pensando no quanto seria divertido ter alguém habitando aquela casa tão vazia. Às vezes ele sentia um abismo dentro de si. Achou que morar sem os Dursleys diminuiria significativamente a falta que sentia de Hogwarts, e que finalmente teria um lugar para chamar de lar. Mas a verdade é que o vazio e a saudade não diminuíram. E agora ele nem ao menos tinha Hogwarts para voltar, era só o trabalho e a casa vazia. Por isso vivia no QG auror, se enchendo de serviço, pegando todos os casos que podia e ganhando paulatinamente a fama de faz-tudo. Até Hermione ousava acusá-lo de viciado no trabalho. Era uma doença, de acordo com ela. Mas e daí? O que Harry tinha em casa? Nada.
Quem sabe agora com Teddy e Remus isso não mudasse? Era o que ele internamente desejava.
Levantou-se e foi atrás de seu casaco, finalmente reencontrara-o. Uma ponta dele escapava por debaixo do sofá. Então estivera ali o tempo todo. Realmente, a casa precisava de uma arrumação.
Bom, pouco importava, agora ele precisava tomar o café e ir para o trabalho, ou se atrasaria.
N/A: Cá estou eu começando um empreendimento completamente novo. Então, se você nunca leu nada do ship, vamos juntos através dessa aventura. rsrsrsrs Espero que para começo esteja bom, mas lembre-se, é só o prólogo, a pontinha do iceberg. Deixe um review se ficou interessado!