53
Antes de partir, Relena procurou a janela da biblioteca de The Wing. Era sua vista favorita que a casa oferecia do mar. Ficou olhando para as ondas com saudade, feito as tivesse perdido para sempre. Nova York ficava no litoral, ela morava em uma ilha, mas lá o oceano se escondia atrás dos arranha-céus, do trânsito, da rotina. O mar virava apenas um pano de fundo, perdia a personalidade e a voz que usava com ela sempre que pisava em Newport.
Uma inesperada lufada de brisa brincou com seus cabelos deixados soltos e ela sorriu agradecida por ser reconhecida. Debruçou no parapeito e deixou-se hipnotizar pelo ritmo distante da água, absorvendo o quanto podia daquele mistério inspirador.
_Você está pronta? –Heero surpreendeu-se com o modo que sua voz se expandiu no ambiente. Deu poucos passos no interior da biblioteca e enfiou as mãos nos bolsos.
Relena tomou um profundo fôlego e demorou-se em virar-se.
_Gostaria de estar aqui em um dia de tempestade. –e saiu em encontro dele.
_Por quê?
_Deve ser assombroso… queria ver.
E passaram a caminhar lentamente, um testando o ritmo dos passos do outro.
Heero, particularmente, estava cansado de tempestades. Tinha vivido dentro delas todo o tempo. Não queria que a calmaria cessasse. Mas não recriminava Relena por desejar emoções. Estavam entrando em contato com facetas novas deles mesmos. Novas ou secretas, ele não saberia decidir.
Tinha deixado o carro na frente da entrada principal. Alaric os esperava na porta para despedir-se formalmente, confirmando que estava sempre às ordens.
_Obrigada, Alaric. –e Relena mencionou, embora o rapaz estivesse ali exatamente para aquelas funções.
Ele mesurou com a cabeça, jovial mas educado, e abriu a porta para os dois.
Em maioria, a viagem fora bastante silenciosa. Relena não sentia necessidade de falar e não pressionou Heero a qualquer conversa, acostumada já a predileção que ele tinha pela reclusão do silêncio. Não se preocupava mais com o que ele estava pensando e nem se sentia desconfortável em sua presença. Pelo contrário, era com ele que ela gostaria de ficar todo tempo, se pudesse, perdida em seus olhos, até saber adivinhar cada mínima expressão, cada nuance de temperamento, estudando-o de preferência de muito perto.
_Você não trouxe nenhum livro? –e duas horas depois, quando o trânsito parecia um pouco intenso, Heero desviou momentaneamente a vista para ela, intrigado com sua ociosidade. Sabia que ela gostava de admirar a paisagem e cochilava com facilidade, mas ali ela estava apenas bem recostada no banco, olhando para frente, imbuída em pensamentos que pareciam carregá-la para longe.
Ela suspirou, despertando suavemente dos devaneios com o som da voz dele, bem-vinda, e sorriu:
_Acho que sim… –pegou a bolsa que acabou escorregando para seu pé. –"O sol é para todos". –e mostrou a capa também. Heero virou-se para conferir e encontrou um livro desgastado pelo manuseio. Aquilo o intrigou. –Depois que anunciaram o lançamento de uma continuação, resolvi reler. –ela disse ensimesmada, apreciando a capa por sua vez. Depois, voltou ao conteúdo da bolsa: –Ah, e tem alguns biscoitos aqui… você quer?
Ele assentiu.
Ela abriu o pacote e tirou um biscoito para ele.
_E a história está sendo como se lembrava?
_Mais triste. Mais clara, imagino. –e demorou-se folheando o livro.
_Você pode ler para mim?
_Hã? –e sorriu divertida com a pergunta. Estranhamente, havia algo divertido no olhar dele também. –Está bem. Não lembro bem onde parei, então vou ler desde o começo.
Assentindo de novo, Heero pegou outro biscoito com ela e prosseguiu com seu foco na direção, ao som das palavras que ela lia, às vezes interrompidas por uma mordida dada em seu biscoito.
A partir de então, os minutos correram rápidos. A voz dela embalava e se arraigava no coração dele, que ia armazenando cada som como um tesouro para a hora da necessidade. Não prestava tanta atenção à mensagem na verdade, embora até o fim da viagem ficasse interessado em reler também aquele título com que tinha se esbarrado na escola. O que o prendia além da voz dela era a ideia de tê-la ali, de nunca mais estar sozinho e estar contente com isso.
Quando estavam para cruzar a ponte para Manhattan, Relena interrompeu sua leitura e considerou:
_Vou ligar para Manon.
Ele aprovou e concedeu, com um gesto. Ouviu a conversa que não durou nem dois minutos. Estavam preocupadas com o jantar. Porém eram tão diligentes que antes de ele se intrometer e sugerir pedir uma pizza, elas já tinham achado a solução. Manon sempre mantinha um bom estoque de macarrão para emergências.
Foram recebidos por ela com um sorriso bondoso, aconchegante, que fez Heero se lembrar do primeiro dia em que pisou no apartamento. Contudo, o olhar de interesse que Manon dirigia a si não era mais tão expectante e vazio. Mostrava alguma certeza, talvez uma confiança – ele tentava interpretar, mas não conseguia – como se ela soubesse de algo que ele não, tal qual desse a entender que tinha cumprido o seu dever, fosse qual fosse. Não dispensaria Manon nunca, porém.
_O molho está quase pronto. Já estão com fome?
_Sim… foi só você falar em nhoque que meu estômago se fez lembrar. –Relena respondeu, embaraçada por achar que soava gulosa.
Manon gargalhou, divertida. Preferia-a muito mais assim, desinibida e disposta.
Depois de jantarem, foram desarrumar a mala e Relena percebeu que tinha que organizar a bagunça enorme e completamente desnecessária que aprontara na suíte da Primavera. Analisando friamente, suspirava com a falta de sentido de seu impulso, mas não se reprovava ou se arrependia. Desordenar aquele quarto de algum modo a tinha ajudado a espairecer e alinhar os pensamentos.
Sentando no sofá, enquanto Heero via um programa de esportes, ela conferiu a correspondência. Pegou a cesta que ficava perto da porta e encontrou lá dentro um envelope grande – o manuscrito para ler – e dois pequenos, coloridos. O primeiro que abriu era de Lori, que pedia para que se reservasse a data para o desfile da sua coleção de Primavera/Verão dali alguns meses. Seria seu primeiro desfile e Relena se admirou em ter sido tomada de surpresa pela notícia. O segundo envelope não vinha endereçado ou tinha um remetente. Relena até ficou em dúvida se descolava ou não a aba selada por uma fina camada de cola. A cartinha era breve:
"Quero te ver assim que voltar. Conte-me tudo."
A assinatura era de Akane.
A curiosidade dela não causava nenhum estranhamento. O que intrigava era a forma de comunicação que ela escolheu usar. Com certeza tinha um motivo.
Devolveu tudo para a cesta e a colocou na mesa de centro. Aproximou-se mais de Heero e conquistou um espaço para encostar-se a ele, praticamente deitando a cabeça no seu peito. Distraidamente, ele a deixou colar-se nele e envolveu seus ombros com um braço, mudando a TV de canal.
Naquele momento, eram apenas eles dois, como que ainda desaparecidos, escondidos, e não havia nada que pudesse perturbá-los. Amanhã, eles enfrentariam o mundo. Estariam bem armados.
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Relena acordou cedo, antes de Heero, e foi para sua suíte decidir por onde começar a arrumação. Antes, mandou uma mensagem para Akane, dizendo para ela decidir o lugar e o horário para se encontrarem. Tomou uma xícara de café com Heero, despediram-se, e direcionou toda sua energia para criar de novo um lugar onde pudesse trabalhar. Nunca antes tinha precisado tanto de um espaço inspirador e confortável porque nunca antes tinha expectativa de tanto trabalho. O fim do Verão trazia a época da ceifa, muito mais laboriosa que qualquer outra estação.
Fazer arrumação não era uma tarefa que a aborrecia porque era gostoso lidar com coisas bonitas. Arrumou as roupas que tinha espalhado na cama, aproveitou para ver se tinha algo que queria mandar lavar. Estudou também a possibilidade de descartar algumas peças. Depois, devolveu os sapatos a seus lugares, e contou os pares, planejando ocasiões para usá-los mais. Colocou os livros nas prateleiras, por ordem de tamanho, depois mudou de ideia e ordenou tudo por cor. Ficou mais despojado.
Quando deu por si, Manon a estava chamando para o almoço.
_Pronto! A suíte da Primavera está habitável de novo. –sentou-se, risonha.
_Vai mantê-la como está?
_Por enquanto sim. Preciso de um espaço para mim, de qualquer forma. –podia renomear o cômodo para boudoir. –Talvez eu me desfaça da cama, não sei. Vou pensar com calma. –e divagava consigo mesma, tomando de volta para si o controle e a responsabilidade, ambos serenos, que lhe eram característicos.
Manon assentiu, reconhecendo a sensatez da moça, e mantinha olhos interessados e simpáticos.
Depois de algumas garfadas, Relena suspirou para voltar a falar:
_Não parece estranho, Manon?
_O quê? –incentivou-a falar.
_Eu e Heero… nós… –e atrapalhou-se em definir o que tinham feito.
_Ah, não, é claro que não. Por que pareceria?
Relena deu de ombros, tentando responder.
_É tudo tão confuso quando se olha de perto. No fundo, eu sempre quis me dar bem com ele. –e elaborou, sem se dar conta de que saía na voz um espanto, uma intriga.
Manon preferia não opinar. Permitia que sua presença bastasse a Relena e suas reflexões. A moça se abria sem dificuldades e com naturalidade contava com ela, deixando tênues as linhas que as ligavam como patroa e empregada. Manon já enxergava nas suas competências a função de suprir a Relena o apoio de mãe do qual ela fora privada. Fazia isso com o maior prazer. Sentia até que tinha visto Relena crescer. Era um pouco verdade.
_Você está à vontade com sua decisão? –e Manon se certificou, sem perceber incentivando Relena a chegar a uma conclusão.
Relena pousou os talheres para ouvir em pensamentos a resposta que ia dar. Satisfeita, falou:
_Sim, muito. Sinto que aos poucos estou me reconhecendo. E vou voltar a ser feliz. –e algo de sublime pintou o rosto dela em seguida.
Manon mostrou uma expressão comovida, ficando privada de palavras. Aproveitando-se de sua experiência, concluía que só mesmo Relena, por ser tão singular, poderia ser capaz de sobreviver àquela situação, só ela sabia como tirar o máximo de proveito até mesmo do mais desfavorável relacionamento. E como sabia encantar sem perceber, sem colocar esforço, ela tinha ganhado o sucesso não só da conquista do rapaz, mas de sua própria vida. Porque era sensata, sincera, e, sobretudo, teimosa. Manon sorriu com essa conclusão.
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As tarefas do dia para Heero eram ir ao escritório, cuidar dos assuntos pendentes, consultar a agenda para organizar a semana, conferir documentos, orientar a equipe, fazer ligações e antes de voltar para casa, ir até a Mansão buscar seus pertences que levara lá quando achou que o Paterno não era mais seu lugar.
A última tarefa era a que demandaria mais, ciente de que teria que enfrentar a mãe. Quanto a Dante, não achava que ele teria algo a dizer.
Estava tudo bem no escritório. Hibbert seguia impassível, ela já tinha se preparado de qualquer modo para imprevistos, e a segunda-feira foi normal, como todas as outras antes daquela. Ninguém mencionou sua estranha ausência, acostumados demais com a indiferença do rapaz, soberbo demais para explicar sua vida. Sim, também se tornaram indiferentes.
Saiu do trabalho perto das cinco horas – o mais cedo em toda sua vida ali – e jogou o paletó no banco de trás do carro. O Verão estava atroz. Em Newport fazia muito sentido aquele calor, mas ali, na superpopulosa Nova York, era inconveniente.
Yacob não ia aprovar sua aparência, sem gravata, colarinho aberto, mangas arregaçadas, mas ele precisava fazer algo para ganhar algum conforto. Era uma forma de armar-se também, de distrair a si e aos demais, do verdadeiro motivo de seu retorno à mansão.
Dessa vez ele ia embora. Ia despedir-se da casa materna para sempre. Ia desatar aquele nó que antes ele considerava cego, mas que agora via existir apenas para impedi-lo de cair do barco. Tinha chegado à terra firme, tinha vencido a borrasca, podia se soltar. Desejara tanto isso e agora se assombrava em receber o que exigira com toda sua rebeldia – uma vida só para si, de que gostava, e que podia levar conforme suas próprias decisões.
Suspirou fundo e saiu do carro. As chaves podiam ficar no contato. Venceu os poucos degraus com as pernas longas e testou a maçaneta. Mal tinha aberto a porta, viu Yacob surgir na passagem para a sala, inexpressivo, inafetado.
_Boa-noite, mestre. –e sua voz não oscilava apesar da idade.
Heero assentiu em insignificante resposta, hesitando olhando ao redor antes de falar:
_Minha mãe…?
_No boudoir. Devo chamá-la? –Yacob prontificou-se, algo de bondoso iluminou seu olhar.
_Sim. –e recuperando sua voz, sua autoridade, nessa simples palavra ele soou como se tivesse total controle de si. Esperava mesmo ter.
Errou pela sala até afundar no sofá. Apoiou o pescoço e olhou para cima. A luz do sol poente tentava alcançá-lo ali, rasgando o carpete, partindo a enorme mesa de centro em dois. Ele não fazia caso, concentrado demais em suas ansiedades. Elas eram uma forma nova do vazio, mas ofereciam mais impulso, não gastavam tanto de suas energias à toa.
_Filho? –a voz de Athina viajou desde as escadas, procurando o rapaz.
Heero sentiu o coração revirar-se com aquela simples palavra e como ela foi pronunciada. Antes não prestava atenção a esse tipo de coisa, não valorizava nenhum tipo de gesto de carinho. Então, só de saber-se reconhecido como tanto se fazia sobrecarregado. Reconhecer o amor concedia outra ótica da vida. Endireitou-se e acabou levantando-se, indo buscá-la. Ela já ia tomando o caminho da biblioteca quando ele aproximou-se.
Athina sorriu ao colocar os olhos nele. Suas sobrancelhas se elevaram, dando-lhe um ar de menina, festivo, caloroso.
_Olá, querido.
_Boa-noite, mãe.
Ela respirou fundo com o som da voz dele. Assistia todos seus mínimos movimentos. Ele baixou os olhos, pensativo, não abnegado, e enterrou as mãos nos bolsos, estacando firme em seu lugar. Ele a fazia lembrar-se de tantas pessoas enquanto parado ali, exibindo estirpe herdada das duas famílias.
_Você quer conversar? –ela convidou, achegando-se, quase o tocando no ombro.
_Sim. –e despertando-se, hesitou a direção a tomar, e acabou preferindo a discrição da biblioteca. Tomou a frente e abriu a porta para a mãe passar.
A biblioteca sempre tinha sido o cômodo mais aconchegante da casa. Talvez porque o café da manhã fosse tomado ali, talvez porque a solenidade das estantes de mogno fosse o cenário perfeito para tudo. Athina escolheu uma cadeira que tinha ficado afastada da mesa desde manhã e sentou, deixando as mãos caírem no colo. Heero não sabia onde parar.
_Como você está?
_Tudo bem. –ele murmurou, retraído.
_Não foi essa minha pergunta. Venha, sente aqui. –e risonha, mostrou a cadeira a seu lado.
Seu movimento foi o único sinal de que concordava. Depois que se acomodou, viu a mãe voltar-se para si.
_Eu perguntei sobre você. –ela explicou, sem se incomodar com a forma vazia que ele olhava para frente e não para ela.
Ele suspirou com esforço e tomou coragem de encará-la.
_Estou bem. Muito bem. –e teve dificuldade em conter a ansiedade, por pouco falando rápido demais, atropelado, ininteligível.
_Que bom. Fico contente. –e suave, ela comentou, curiosa sobre onde aquela conversa ia chegar.
Não ia revelar que sabia bem a origem de tanto bem-estar no filho. Queria saber que abordagem ele usaria para compartilhar com ela a primeira decisão que ela viu ele tomar que realmente lhe dava orgulho. Ele não tomou aquela decisão sozinho, mas de qualquer modo, assumira um risco que o fazia digno de respeito. Não tinha nada a ver com o casamento. Tinha a ver com a determinação de ele finalmente baixar a guarda em dez anos. Tinha a ver com permitir-se expor-se e ter coragem de enfrentar o mundo do lado de fora das suas barreiras.
O sorriso da mãe, sereno e reconfortante, o incentivava. Quando foi que ela não estivera disposta a ouvi-lo? Fora ele que tivera indisposição em falar, em incluí-la. Isso ia terminar.
_Eu estava muito errado. –e entregou as palavras sem criar para si um papel trágico. –Mas eu não conseguia ver. Queria saber explicar, mas não sei. Mas a senhora me entende, não é?
Athina assentiu.
_A verdade é que eu não queria ver. Eu tinha medo demais.
_Do quê, filho?
Ele encolheu-se um pouco. Não tinha se preparado para essa pergunta.
_Você não quer responder? –ela murmurou sua pergunta e logo deu a réplica –Não precisa…
_Não. –a declaração veio estéril e cansada. –Eu fiquei com tanto medo de nunca ser suficiente que acabei desistindo de viver. –e explicou devagar, embora quando pronunciou a primeira palavra, as demais seguiram sem esforço.
Athina exibiu uma expressão triste, porém um resto de sorriso persistiu por força do hábito.
_Ah, querido. –e murmurou, escolhendo algo mais para dizer. E por mais que tentasse, a percepção de que não havia nada a admirou.
Ele confessara tão centrado, tão certeiro, que se eximira de qualquer consolo. A única piedade que ele admitia era aquela que usava consigo mesmo. Nem essa servia mais, entretanto. Precisava aprender a livrar-se dela. Tinha visto no fulgor ardente dos olhos de Relena o quanto aquela tendência dele a revoltava.
_Está tudo bem, mãe. –ele resmungou, de repente parecendo bem-humorado. –Não gosto de me prender a essas sentimentalidades. –a voz séria fazia a frase dele mais cômica.
Athina não acreditava que enxergava um brilho maroto no olhar dele. O rosto da mulher contorceu-se levemente, divertido. Não decidia se o filho imitava Dante ou se satirizava a si próprio, revelando um novo charme em sua atitude mudada.
_O que eu realmente quero comunicar é que estou voltando para o Paterno. –ele tentou soar despreocupado sobre a informação, mas precisava praticar mais a naturalidade. Seus olhos hesitaram voltar para a mãe, empertigando-se, debruçando o corpo sobre a mesa, entrelaçando e premendo seus próprios dedos.
_Está certo. Faz muito bem. –ela não fez caso da articulação dele, deixando seu sorriso ampliar em bondade e em orgulho.
Era bom pela primeira vez em anos ver aquela expressão em sua mãe. Era bom sentir-se digno desta. Ele realmente tinha se privado de muito. Sabia que também tinha privado os outros também, principalmente sua mãe, a quem devia muita gratidão e respeito. Tinha tanto a compensar. Melhor não pensar nisso, não ver as coisas assim, decidiu.
Com um suspiro expectante, ele passou o olhar pelas estantes e Athina o ficou assistindo, pensativa, pronta para ouvi-lo continuar. E apesar de que intenção dele em falar mais fosse clara, ele só deu de ombros e baixou os olhos. Um sorriso misterioso se esboçou em seu rosto, de repente aliviado das feições carregadas que o marcaram por tanto tempo.
_Estou muito feliz por você. Espero que você também esteja. –e a mãe comentou.
Ele limitou-se a assentir.
_Cuide bem de Relena, está bem?
_Vou cuidar. –e ao ouvir-se prometer, percebeu o quanto aquilo lhe dava prazer. Seu sorriso começou a ficar mais óbvio.
_Vai ficar para o jantar?
_Não, só vim buscar minhas coisas.
_Muito bem. Então vá, se não vai ficar muito tarde. –ela incentivou, sua voz tinha cor, calor e poder. Heero levantou-se e saiu quase imediatamente, obedecendo-a.
As malas que levara para a Flórida já tinham sido desfeitas. Os empregados da mansão eram competentes demais. Ele abriu as malas sobre a cama bem arrumada e começou a tirar do armário tudo o que restava ali.
Viane apareceu minutos depois, com mais duas malas.
_A senhora Yuy me pediu para ajudá-lo, mestre.
Ele olhou a mulher sobre o ombro. Ela não estava passiva como sempre, exibindo algo no olhar profundo que parecia elogiá-lo. Ele meneou a cabeça e murmurou:
_Organize os sapatos, Viane. –e mostrou algumas caixas que ele já tinha tirado do closet.
_Posso descartar as caixas?
_Sim.
E os dois trabalharam silenciosamente por algum tempo. A maioria das roupas e pertences de Heero tinha sido levada ao Paterno, tudo o que ele usava mais, mas ainda restaram camisetas, gravatas, roupas de inverno e conjuntos de terno esquecidos no armário. Havia itens ali que ele certamente iria doar, mas no momento, sua prioridade era esvaziar aquele armário de uma vez por todas. Também vasculhou as gavetas das cômodas por qualquer objeto que tivesse despercebido ali. Era sua vez de revirar tudo e fazer sua mudança.
Já havia sido gasto meia hora com aquele trabalho quando soaram batidas na porta aberta. Heero ergueu os olhos e encontrou Akane parada no centro do vão com um enorme sorriso de gato no rosto.
Ele se ergueu e colocou as mãos nos bolsos. Viane continuou dobrando as roupas, alheia, paciente.
_Mas o que é isso? –a moça provocou, brincando e entrando no aposento fingindo uma cara de espanto.
_O que você acha?
_Outra viagem a trabalho? Para onde desta vez? Vejamos… –e correndo os olhos pelas malas abertas e as roupas que iam sendo acomodadas, tentou deduzir. Era tudo encenação da parte dela, mas Heero não conseguia ter certeza disso. Ele estava se divertindo, porém, e não a interrompia.
E depois de satisfeita com a observação, ergueu os olhos para ele, sorrindo mais suave, mais ingênua, e sacudiu a cabeça.
_Então? –ele a provocou, se encabulando com o que enxergava nela. Ela estava comovida, parecia ter lágrimas nos olhos. Heero voltou a mexer com um par de cintos que encontrara, tentando enrolá-los juntos.
_Para casa… –e ela quase suspirou. De repente doía imaginar que aquela mansão onde eles cresceram juntos não era mais o que ele chamava de lar. Aquele era um sentimento que ela devia ter sentido há dois anos, mas só então se mostrava real para si.
Heero notou no timbre dela aquela aflição do abrir mão combinada com a felicidade de sabê-lo contente. Só ela mesmo para misturar elementos tão distintos e ainda seguir coerente. Ele deixou-se intrigar, comovendo-se por sua vez, embora não transparecesse. Desistiu de enrolar os dois cintos juntos, ocupando-se com um de cada vez e depois os colocou dentro de um par de sapatos.
Assistindo-o, Akane ia aproximando-se mais. Por distração notou Viane dobrando uma das várias camisetas acumuladas na cama.
_Eu posso fazer isso, Viane? –e pediu, surpreendendo a mulher. Ela parou o que fazia imediatamente e olhou a moça com uma sábia expressão de entendimento:
_Claro, senhorita. –aprendera que a menina Yuy tinha os mesmos jeitos sutis da senhora. Deixou o serviço interminado e saiu, sua presença sempre invisível não fez falta.
Heero relanceou a irmã de soslaio mais uma vez.
_O que foi isso? Parece que não quer que eu vá embora. –e murmurou, monótono, guardando os sapatos embrulhados novamente na mala.
_Não quero. –ela confessou baixo, mostrando um sorriso limitado e culposo.
Ele franziu as sobrancelhas e interrompeu suas atividades em um intervalo que parecia indeterminado. Ela seguiu dobrando meticulosamente as camisetas e as ajeitando dentro da mala em rolos bem feitos, aguardando-o reagir.
_E por quê? Afinal de contas, é você que fica a maior parte do tempo lá na Califórnia. –sem tom de censura, ele expressou sua confusão, tentando criar um bom-humor para acolchoar suas palavras. –E depois que se formar, não vai ficar por aqui muito mais tempo. –ia ser a vez dele de vê-la se casar.
Ela deu de ombros, arrumando devagar as roupas na mala. Suspirou e mostrou seu rosto:
_É… parece que estamos ficando adultos. –e mordeu o lábio inferior, prendendo o riso.
Heero meneou a cabeça, sentando na cama, achando a observação dela tão descabida quanto inquietante. Que jeito de pôr as coisas…
E enfim ela se rendeu a risada, marota, descartando a cortina de melancolia temerária. Sentou-se também na cama e com expectativa na voz, deleite até, indagou:
_O que te fez mudar de ideia?
Bufando, ele desviou o olhar, mas terminou por espiá-la de esgueira.
_Eu não tenho que dizer aquilo que você já sabe. –e resmungou, áspero mas generoso de repente.
A silhueta dela se agitou por uma risadinha tola.
_É só uma curiosidade. –e explicou, melindrosa, embora os olhos faiscassem regozijantes.
Ele revirou os olhos, aborrecido, impaciente com as criancices dela.
_Oras, Heero, não fique bravo. –ela demandou, acusando-o por sua vez de criancices.
_Você é insuportável.
_Mentira… –rebateu, chocando-se.
Ele pasmou-se, divertidamente ofendido.
_Eu só gosto de sentir o sabor da vitória. Existe sensação melhor? –e ela acabou admitindo, a voz encrespada de presunção. Uma Yuy, por certo.
_Definitivamente insuportável. –ele ampliou sua observação.
Mas o efeito que causava nela era deliciosas gargalhadas.
_Eu estou tão feliz por você. De verdade. –e descartou a troca de brincadeiras para confessar.
_Por que você se preocupa tanto com minha felicidade?
O sorriso da moça voltou a ficar melancólico e puro, revelando quanta inocência ela ainda mantinha bem guardada:
_Porque você merece ser feliz, Heero. Você merece ser muito feliz. –e não o julgava ingrato por ter perguntado. Sabia que ele estava aprendendo a permitir-se ser querido.
E talvez por isso ele se espantou, encabulando-se, sem saber o que fazer com o apoio que recebia.
Descartando malícias, frivolidades ou infantilidades, ela riu leda e afetuosa. Sabia que ele ainda tinha dúvidas, mas não se incomodava com as inseguranças dele, acostumada.
_Eu sempre vou querer o melhor para você. E para Lena também. Vocês são minhas pessoas favoritas no mundo todo. –e reafirmou, intensa como gostava de ser.
_Que exagero. –ele rejeitou, sem desdém, somente sentindo-se humilde demais para concordar.
_Sabe que não. –e com ênfase em cada palavra, ela treplicou, constante, os olhos fixos nele carregando o significado da sua declaração.
Depois de um minuto vazio, ele suspirou e ela assentiu, mordendo o lábio outra vez.
_Pare de me contrariar. –ele reclamou por fim, relaxado.
_Ué, foi pra isso que eu nasci. –e Akane não resistiu em apontar e contrariá-lo uma vez mais.
Gastaram pouco menos que vinte minutos para terminarem com as bagagens. Akane fez cena, sentando em uma das malas para fechá-la. Heero meneou a cabeça, reprovando-a, mas disfarçadamente sorriu. Os sons dos zíperes cortavam o ar, momentosos, arautos da mudança de situação que Heero não podia mais negar. O chiado era áspero e exasperante, fazia subir um arrepio. Não admitia desistência.
Ele não queria desistir.
Pegou uma mala em cada mão e Akane levou a terceira, menor, poupando-o de duas viagens. Gostava de participar e fazia questão de estar presente e atuante naquele momento tão especial que transcorria sem a pompa que parecia merecer. O cabelo caía no rosto dela, e ela soprava, descendo as escadas, falando qualquer coisa sobre levar Relena para um passeio no dia seguinte e torcer para não chover.
Ele ouvia a voz dela sem se incomodar e ao mesmo tempo sem dar tanta atenção. Voltara a lidar com a ideia de sair dali em bons termos, algo que nunca havia lhe passado pela cabeça. Talvez ele tivesse perdoado seu passado. Certamente tinha amadurecido. Ainda assim, era estranho.
Quando descia os últimos degraus, da passagem do hall surgiu o juiz. Faltava meia hora para o jantar ser servido e ele trazia no cenho uma expressão carregada, talvez ainda preso a alguma questão de seu trabalho. A verdade que, despindo o pai de toda a aura de prepotência, o que Heero via era um homem cujos anos estavam cobrando seus tributos e que gostava de recorrer à solidão e a introspecção por motivos que ainda não haviam sido explorados.
Qual era a carga que Dante arrastava?
_Boa-noite, papai. –Akane cumprimentou, suave e sorridente.
Yacob vinha pela outra passagem.
_Senhor juiz. –ele murmurou e adiantou-se até a mala que Akane colocou no chão.
Só Heero não disse nada.
Enquanto dava passagem para o mordomo sair com a bagagem, pai e filho trocaram um olhar intenso, embora não estivessem medindo forças mais.
Sim, havia algo de muito cansado e envelhecido no olhar do juiz, algo que ele não tentou esconder, que não o embaraçou ou aborreceu, derramando no filho com sabedoria e dureza. Heero ficou estudando a face de Dante, procurando um sinal de desaprovação, um franzido sequer que o delatasse desgostoso, mas só o viu suspirar, assentir com a cabeça levemente, sinalizando seu entendimento, concedendo talvez seu livre consentimento.
Heero seguiu pela porta, os pensamentos nublados por perplexidade. Akane o seguiu e ouviu o pai exigir:
_Não se atrase para o jantar, senhorita Yuy.
Ela riu e meneou a cabeça. Depois, cruzou os braços na frente do corpo e assistiu Heero abrir o porta-malas para guardar a bagagem. Yacob ficou ao lado dela, passivo e abnegativo.
Ele olhou sobre o ombro sem ter nada a dizer. Sorriu com os olhos e foi sentar a direção. Antes de entrar no carro, respondeu o aceno da irmã. Ela e Yacob ficaram no mesmo lugar até ele sair pelo portão.
O porteiro do Paterno o ajudou com a terceira mala até no elevador. Não estava em posição de conhecer todo o drama do casal Yuy, mas havia algo de diligente na ação dele, como se soubesse que algo tinha dado certo, que aquela bagagem era bom sinal. Heero se exasperava um pouco com isso, embora tivesse aprendido que as pessoas tinham direito de se sentirem como quisessem sem que pudesse controlá-las.
Relena estava no sofá, sentada sobre as pernas, folheando uma revista, quando ele entrou. Um sorriso cômico retorceu seus lábios e ela saiu do lugar para ajudá-lo.
_Então é por isso que demorou. –murmurou, divertida, fechando a porta para ele.
_Agora não há mais nada para trazer aqui. –explicou, sem soltar uma das malas.
_Vamos levar para seu quarto. Manon já vai servir o jantar. –e foi puxando a mala maior, ao passo que ele carregou as outras. Ladearam as três perto da poltrona e enquanto Heero foi se lavar, Relena ficou encostada no batente da entrada do banheiro dele:
_Foi tudo bem hoje?
_Sim.
_Consegui arrumar meu quarto e já estou trabalhando no manuscrito.
_Está gostando?
_Não muito. –e se enrubesceu com a própria opinião. Deveria estar acima disso. –Não é algo que eu escolheria ler, mas trabalho é trabalho…
Ele achou o jeito dela engraçado, mas concordou com um gesto de cabeça.
_Você vai se sair bem. –e usando sua voz circunspecta e rouca, incentivou, falando com tanta certeza que era como se já tivesse acontecido. Ela mordeu o lábio inferior, tocada pelo charme que só ele sabia lançar, e assentiu.
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Relena releu a mensagem de Akane quando acordou. A senhorita Yuy marcara para encontrá-la na esquina da avenida às nove e meia sem atrasos. Exigia que ela usasse sapatos confortáveis e não aceitava questionamentos, teatral como sempre. Tinha prometido um café da manhã especial, talvez a Ferrara estivesse fazendo algum evento.
Relena saiu junto com Heero e trocaram um modesto beijo de despedida em frente a entrada. Ainda estavam um pouco desajeitados, mas não davam importância para isso. O que valia era a sinceridade do sentimento. Ele foi para o outro lado, procurar o carro, e ela, hesitando um instante ali, assistindo-o se afastar, deixou-se aproveitar do ventinho fresco vindo da direção de Riverside Park. O céu estava nublado e outra vez ela não carregava guarda-chuva. Não ia se preocupar com isso.
O trânsito escoava livre o suficiente para permitir um táxi parar em fila dupla bem a sua frente. A porta abriu e foi fácil identificar a cabeça laranja que se esticou para fora:
_Lena, aqui! Vem rápido! –a voz transmitia riso e calor, pura juventude.
Relena riu e se apressou pela estreita passagem entre os automóveis enfileirados junto à calçada. Akane deu um segundo para ela se refazer depois que fechou a porta e o táxi reintegrou a corrente de carros.
_O que está aprontando, mocinha? –e ao sentir-se à vontade, virou-se para Akane e indagou.
_Hoje nós vamos dar uma volta como verdadeiras nova-iorquinas. –e piscou um dos olhos, sentindo-se muito esperta.
Relena divertia-se muito e não tinha nada contra, mas era preciso muita paciência para conviver com Akane. E pela pista que recebeu, não estranhou serem deixadas na frente de uma estação de metrô.
_Pelo menos posso saber para onde vamos? –Relena resmungou, risonha, depois de comprarem os bilhetes.
Akane fez careta, pensando se condescendia a responder, e Relena lhe deu uma cotovelada, gargalhando:
_Chega de suspense…
_Oras, está bem… –e careteou, amolada, feito Relena estivesse tirando toda a graça da aventura. –Nós vamos até Flushing. A Jade me levou em uma casa de chá maravilhosa lá.
_Ah bom! Já estava pensando que ia ser raptada… –e provocou, tolinha. Akane revirou os olhos, mas acabou rindo. –E por que temos de ir de metrô?
_Ah, é conveniente, rápido e… aposto que você nunca andou de metrô aqui. –o Flushing ficava a uma boa distância dali e não compensava usar o carro. A verdade é que quase nunca se compensava usar o carro em Nova York.
Relena ouvia Akane com bondosa atenção, desviando-se das pessoas para continuarem juntas:
_É verdade…
O trem que chegou fez o cabelo das duas voar.
_Precisa aprender para tornar-se uma legítima nova-iorquina. –Akane comentou, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta, atenta ao movimento da porta do vagão.
Relena se surpreendeu com a resposta, e ajeitando o cabelo no lugar, provocou:
_O que é isso, um rito de passagem?
_Quase. –deu de ombros, pisando dentro do transporte.
Aquele horário os metrôs não estavam exatamente vazios, e elas fizeram a primeira viagem em pé. Depois que saíram de Manhattan, encontraram a próxima linha menos lotada. A maioria das pessoas estava indo no caminho contrário delas.
Durante o trajeto, os assuntos foram leves e Akane foi explicando um pouco sobre o percurso, comentando algo sobre as estações e as integrações que podiam ser feitas, dando alguma consistência a gigante malha metroviária que permeava a cidade. Relena, enquanto ouvia, se entretinha em estudar e assistir as pessoas ao seu redor, roubar aqui e ali fragmentos do dia delas, atenta as suas conversas.
Estava chuviscando em Flushing, mas a casa de chá era há uma curta caminhada da estação. Elas percorreram as calçadas tentando se manter o maior tempo possível debaixo dos beirais, conservando-se apresentáveis para adentrar o palacete que era a Jasmine House. Apesar de simples, a fachada guardava um salão decorado com móveis em rococó inglês que contava como ponto focal um ostentoso lustre de cristal romântico.
Escolheram uma mesa e fizeram seus pedidos de waffles, bolinhos e chás. Relena não disfarçava seu encantamento, que só aumentou quando a louça foi posta. Tudo era mimosamente estampado com flores e decorado com bordas douradas. Os guardanapos eram rendados e os chás salpicados de pétalas.
_Sabia que ia gostar. –Akane murmurou, contemplando as pequenas estantes com as guloseimas belamente expostas entre flores frescas e cheirosas.
_Tudo é muito lindo aqui. –Relena suspirou, olhando a waffle no prato, hipnotizada, e finalmente cortou-a em dois.
_Agora, me conte tudo.
Relena ficou ocupada em mastigar por alguns segundos. Por onde ia começar?
_Vocês foram para The Wing, não foram? –mas Akane tinha pressa.
Relena assentiu.
_Como sabe? –e investigou depois.
_Bem… na quinta-feira eu fui até o Paterno ver você. Quando cheguei no apartamento, a Manon contou que Heero esteve lá e que vocês tinham sumido. –e deixou um sorriso maroto pintar seus lábios.
_Oh não. –Relena corou até a raiz dos cabelos.
Akane riu, generosa:
_Para quê ficar assim? Foi tão romântico… –e murmurou sonhadora. –Continuando: para mim, The Wing seria o primeiro lugar aonde vocês iriam. Eu sei como você gosta de lá.
_Sim, você tem razão. –e teve de admitir, agradada.
_Eu liguei para o Alaric também. –e confessou falando atropeladamente. Antes de Relena reclamar, emendou: –Mamãe insistiu porque ainda estava preocupada.
_Oras… mas tudo bem, pela Athina eu perdoo sua bisbilhotice. –encrespou a voz em um tom de reprimenda forçado, brincalhão. Akane chegou a corar um pouco, cobrindo os olhos com uma mão. –Mas me explique porque você mandou aquela cartinha?
_Ah, para combinar com a ideia de "fugir para casar" de vocês. –explicou, tirando um pedaço da sua waffle e passando no chantili.
_Era para ser uma piada? –Relena ficou pasma.
_Hm, talvez…? –e começou a mastigar. De repente, não achava mais a própria lógica em sua ação.
Relena riu, ainda mais perplexa com a sinceridade da cunhada. Meneou a cabeça, divertida.
_Fomos para Castle Hill. Fizemos piquenique no enclave e passamos uma noite no hotel. –e depois mencionou, pensativa, algumas imagens aparecendo em sua mente enquanto falava. Sorriu sem perceber.
_Muito romântico… –soou mais sonhadora ainda. –A praia da Grace é maravilhosa.
Relena concordou em silêncio, lembrando.
_E o que mais? –Akane bebeu um gole do chá, mantendo os olhos de gato sobre a moça.
_O que mais…? Bem… nós conversamos bastante. Falamos tudo o que precisávamos para nos entender.
Akane assentiu, encantada, parecendo compreender tudo. Relena sorriu, confusa sobre o que ela achava tão lindo.
_É tão bom saber que vocês se acertaram… eu sempre soube que minha torcida por vocês não seria em vão.
_É, você sabia mesmo. E me ajudou bastante a não desistir. Muito obrigada por seu apoio.
_Não tem o quê agradecer. Afinal, o serviço pesado foi você quem fez. O Heero se tornou alguém muito melhor depois de te conhecer. Você causou uma mudança essencial na vida dele.
Relena não estava pronta para aceitar aquela verdade. Tinha meditado tanto naquele assunto que não se sentia a única responsável pela melhora do rapaz. Entretanto, ouvir aquele reconhecimento lhe deu uma ótima sensação de realização.
_Eu estava muito preocupada com ele. Quando foi para a Europa, era claro que ele estava muito mal. Só que ele não aceitava e não escutava ninguém, você sabe bem como é. Se algo como o casamento de vocês não tivesse acontecido, não sei o que seria dele, de verdade. –e a aflição de Akane contorceu suas feições. Suspirou profundamente, bebendo de novo.
_Não foi fácil para ele também. –Relena observou.
_Não alivia as coisas para ele não. –Akane reclamou, franzindo as sobrancelhas.
_Ane, não seja dura com ele… você também sabe bem como é.
Akane estalou a língua. Ficou com a borda da xícara encostada nos lábios muito tempo, escondendo seu bico desagradado, derretendo seu batom.
_É, eu sei sim, mas me enerva pensar em como ele foi difícil com você. –e por fim admitiu. –Desnecessário…
Relena soltou um riso baixo com a demonstração de zelo, e sabia que aquele era o lado prático da menina se evidenciando. Não podia tirar a razão dela, entretanto.
_Mas eu desejei e vou continuar desejando a felicidade de vocês dois. Vocês precisam e merecem muito serem felizes. –e emergiu da sua bronca com o irmão suspirante outra vez, toda deslumbrada.
_Obrigada. Eu quero mesmo ser muito feliz. Vou lutar por isso.
_Não duvido. E não se preocupe, agora Heero também vai lutar.
Relena mordeu o lábio, absorvendo aquela informação. Era uma ideia reconfortante.
Um instante se passou preenchido do burburinho suave do salão e do elegante chocar de louças. Akane observava Relena distante em algum recordo ou devaneio.
_Eu vou embora sexta-feira. –e decidiu avisar, entre melancólica e sensata. Partir de Nova York sempre consistia em um processo doloroso. Mas não se delongava muito nesse sofrimento, porque era o que tinha escolhido e tampouco se via abrindo mão do que conquistara na Califórnia.
_Já? –Relena retornou suavemente de suas ponderações, cobrando chateada. De repente sentiu que o Verão tinha passado rápido demais.
_É, preciso começar a organizar as coisas pra esse semestre. Vai estar super corrido, do jeito que eu gosto. Esse ano eu estou responsável pela feira de Outono e vou ter de estender meu tempo aqui em Novembro.
_Como assim responsável?
_A senhora Van der Ven me nomeou promotora chefe do evento, não sabia?
_Não… uau! Parabéns!
_Obrigada. Vou cuidar de quase tudo à distância… vejamos como vai ser a experiência. –e apesar da dificuldade que mostrava haver, não evidenciava um pingo de ansiedade. Parecia animada, como sempre. Escolheu um dos bolinhos que parecia ser de chocolate e tirou tempo para degustá-lo. Relena ficou inspirada a imitá-la e não se arrependeu. Tudo na Jasmine House era muito gostoso.
_Então, eu queria reunir o pessoal quinta-feira à noite para um jantar. Você e o Heero estão convocados, está entendendo?
_Sim, senhora. –Relena mofou da intimidação, quase batendo continência.
Akane apertou os olhinhos, imitando Athina quando ficava desgostosa:
_Afinal, esse Verão você não foi a nenhuma das minhas festas. Está me devendo. –e fazia tudo soar como se fosse sobre ela, saturando o melindre. Sua intenção era distrair Relena para longe de lembrar os cruéis momentos que atravessara aquelas últimas semanas. Nem ela mesma queria pensar naquela tarde no parque quando vira a cunhada tão abatida e derrotada.
_Está bem. –confirmou, imitando uma adolescente irritada com as exigências da mãe.
_Aqui está o convite. –e tirou da bolsa um envelope idêntico ao outro que deixara no Paterno, esmeradamente artesanal. –Quero você vestida para matar. –depois gargalhou, buliçosa e arrogante. –Vamos mostrar para todo mundo quem somos nós.
Relena achou a intensidade dela uma sobrecarga:
_E quem somos? –e arriscou perguntar, intrigada, lendo o convite escrito a mão. Iam se encontrar no Oroitz. Relena havia lido sobre a inauguração daquele restaurante no dia anterior. A novidade prometia a autêntica culinária basca e estava causando furor na cidade, suas mesas tornando-se as mais cobiçadas de Manhattan. Pelo visto, Akane tinha reservado no mínimo sete lugares. A influência Yuy não tinha limites?
_Nós mesmas, oras. –e quando respondeu, Akane riu, inocente, deixando o significado daquilo sujeito a interpretações.
Enquanto mexia uma nova porção de chá em sua xícara, Relena comentou:
_Vou ter de comprar um vestido novo. Não posso correr o risco de alguém reconhecer minha roupa em um lugar desses.
Akane pareceu pensativa sobre o fato levantado. Era um tanto contraditório ao que tinha acabado de propor, mas naquele mundo de aparências, muito sensato. Sugeriu logo:
_Quer sair para fazer compras? A gente pode ir lá para a 5ª avenida e depois comer no McDonald's.
_Hoje não vai dar. Combinei de almoçar com meu irmão.
_Bem, se quiser, também dá para ir amanhã. Posso ver se Lori tem algo para você.
_Será que ela me empresta?
_Desde que não tenha que fazer modificações, acredito que sim.
Sem pressa, ficaram mais meia hora conversando à toa, secretamente se desafiando a terminar todos os bolinhos que pediram. Mas era inútil e Akane acabou perguntando se eles embrulhavam as sobras para viagem. Deram uma volta e passearam em um shopping na mesma quadra e se despediram na estação, de volta a Manhattan, quando Relena tomou um táxi para Gramercy Park.
O tempo tinha melhorado, as nuvens brancas voando como fiapos de algodão doce. Ela prestou atenção em como o mormaço diminuíra, acumulando-se em algum lugar para retornar assim que a chuva terminasse sua visita. O Outono estava fazendo falta. Depois de uma volta pelo parque, aproveitando a discrição do lugar para preparar-se mentalmente para o encontro, dirigiu-se para o Maialino, dentro do Gramercy Park Hotel.
Ao pedir sua mesa na entrada, ficou surpresa ao saber que já estava sendo aguardada. Escolheu esconder-se um pouco atrás da recepcionista ao segui-la até seu lugar, hesitante ante a ideia de reencontrar o olhar intrigado e exigente do irmão.
O último encontro que tiveram parecia tão distante. Ela estivera em péssimas condições emocionais e tudo o que Zechs fizera fora perturbá-la mais. Ele não tentara nenhum contato desde então, embora a tivesse atendido muito bem ao telefone no dia anterior. Será que ele tinha seguido a sugestão dela e conversado com seu pai? Se ele já soubesse de tudo talvez fosse mais fácil, talvez não. A incerteza a estava esmagando.
Naquele curto trajeto, tanto passou pela cabeça dela que parecia até loucura. E parando em frente à mesa enfim, suspirou, desenhando um sorriso singelo com os lábios rosados. O que ouvira de Akane horas atrás ganhou um novo valor. Ela ia mostrar quem era – ela mesma.
Zechs poderia não entendê-la ou talvez não aceitasse tudo o que fez, mas o passado nunca seria alterado, nem mesmo pelo capricho de uma inconformidade. Ele irresistivelmente chegaria à conclusão de que perdoar também era o melhor desfecho para si.
Distraído, Zechs aguardava Relena junto de uma garrafa de água com gás. Ele tinha se entretido com o cardápio, embora lesse na descrição dos pratos muitas de suas perguntas. Tratara o convite da irmã com casualidade, desinteressado em pôr expectativas na ocasião. Não que tivesse de deixado de preocupar-se com ela.
Ficou tão intrigado com a reação depressiva dela quando se viram da última vez que acabou não seguindo suas instruções e não conversou com o pai. Aquela situação era tão atípica, como tudo que envolvia o casamento de Relena. O melhor ainda era ouvir o que ela tinha dizer; só ela deveria ser capaz de explicar o que havia consigo.
E então ela estava ali diante da mesa. A umidade do dia tinha deixado os cabelos dela mais escuros e murchos, caindo junto ao rosto como uma moldura de bronze em torno de um espelho que exibia a face de um anjo. O sorrisinho sereno e as bochechas coradas que adornavam seu rosto tinham voltado.
Zechs sorriu, intenso, e se levantou para cumprimentá-la. Não desejava fingir, ao mesmo tempo achava que surgia estupefato demais diante da mudança que ela apresentava. Porém, como não ficar admirado? Tinha certeza que nunca mais a veria com aquela leveza, com aquele vigor, com o reluzir de inocência que então a revestia, renovado e mais absorvente.
_Olá, Zechs. –e puxou a cadeira mais próxima, arrumando a saia para sentar. Não sabia o quanto da sua tensão interior estava vazando. –O que está olhando? –e ela investigou, a voz sorrindo também, desconfiada com a expressão que ele trazia.
Todos os movimentos dela pareciam ter cadência e um significado escondido. Seus olhos expressavam uma nova alegria, esperança e nervosismo. Tudo isso interessava Zechs, mas ele não ia mencionar, fazê-la ciente e quebrar o encanto:
_Ah, nada, nada. –soou desimportante e bondoso. –Quer ver o cardápio?
Ela murmurou afirmativa e ele lhe passou a pasta.
_E então, como você está? –e Zechs deu sequência com as banalidades necessárias, insistindo em estudá-la com um olhar capcioso.
_Estou bem. –ela falou, sem prestar atenção nele, virando as folhas do menu e relanceando-as vagarosamente. Era como se ela se sentisse sozinha, em um mundo particular. Respirou fundo, concentrada.
Ele resolveu provocar:
_Sentiu minha falta?
_É claro. –ela imediatamente baixou o cardápio e respondeu, franzindo as sobrancelhas de forma afetuosa. Zechs meneou a cabeça. Não tirava crédito do carinho que ela lhe demonstrou, entretanto, o sentiu superficial:
_Mentirosa, até parece… Essa sua cara não é a de alguém que está sentindo falta de alguma coisa.
Ela riu, embaraçada. Do que ele estava falando? Apesar de confusa, sentia-se flagrada.
_Oras! –e decidiu manifestar uma atitude insultada. Os olhos vazavam luz, acetinados.
_Pensa que não te conheço, dona Relena Darlian?
_Yuy. Relena Yuy. –e o corrigiu jovialmente.
Ele assentiu, um sorriso astuto se destacando no rosto:
_E é sobre isso que vamos falar… –aludiu, recompondo-se um pouco.
_Sim. –ela se ouviu respondendo suavemente. Sentia-se inexplicavelmente tranquila de repente. Zechs tinha a acolhido tão bem, aquilo a estava fortalecendo. Como podia ter se esquecido de quão compassivo ele era? –Vamos pedir? Eu já escolhi.
Depois que o garçom saiu, os olhares deles se reencontraram e Relena respirou fundo, retomando:
_Por que não falou com papai?
_Eu pensei muito no que conversamos naquela noite e decidi que ia continuar confiando em você.
_Ah, Zechs. –e a seriedade do assunto se abateu sobre ela, que falou suspirado, preocupada.
_E se você preferir, nem precisa mais falar nada. –ele assegurou, a voz charmosa e cálida sendo um conforto em si. Ela bem que desejava aceitar aquela proposta, mas tal fuga não lhe faria bem:
_Mas, Zechs, você merece saber… Não fui nada justa com você mantendo esse segredo.
_Não queria te fazer se sentir culpada. –ele confessou, monótono.
_Não fez, eu mesma cuidei disso. –explicou, um tanto espirituosa.
Ele aprovou o comentário com um riso curto e fanho.
Relena continuou:
_Me desculpa, mas eu fiquei envergonhada demais para participar você. Isso não fez bem para nenhum de nós. –e tomou a outra metade da água que Zechs tinha deixado na garrafa. Olhou dentro dos olhos transparente do irmão. Não sabia se iria quebrar o coração dele, e era isso que a torturava. –Muito obrigada por sempre ter me respeitado, Zechs, mesmo quando você não aceitou a decisão que eu tomei de me casar.
Ele assentiu, carinhoso.
_Você deve ter desconfiado que havia algo incomum em tudo, não é? –e começou a falar mais baixo, de repente em dúvida sobre ter escolhido bem o local para aquela conversa.
_Sim, mas como eu parecia o único surpreso, acabei me contentando com suas explicações.
Ela riu e mordeu o lábio inferior.
_Deve ter sido muito difícil para você. Eu sei que abusei da sua confiança, mas não fiz por mal.
_Não tem que ficar se cobrando, Lena.
_Zechs, eu só me casei porque papai me pediu para fazer isso.
_Não sei se entendi…
_Papai aceitou uma proposta do juiz Yuy.
Zechs franziu as sobrancelhas, parecendo ouvir algo que se passava dentro de sua mente. Ele estava completando as lacunas:
_Papai tinha negócios com o juiz, apesar de eu não saber bem quais eram…
_O juiz ajudou papai com os investimentos na Noruega. Isso faz muitos anos, acho que você ainda estava na faculdade. Papai nunca conseguiu pagar. O juiz perdoou a dívida integralmente em troca do casamento. –e Zechs não precisava forçar os ouvidos para captar o que ela dizia em meros sussurros porque a mente dele adivinhava tudo.
Enchendo o peito de ar e jogando o corpo para trás, ele fez o melhor para conter sua indignação.
Relena estava preparada para aquilo. Para não permiti-lo jazer no desgosto, seguiu murmurando suavemente:
_Parece horrível, foi horrível, mas eu aceitei obedecer a papai, Zechs, pelo bem da nossa família. Sem a dívida, a empresa conseguiu se reerguer. Eu corri o risco, fiz o que pude… Valeu a pena.
_Relena, que loucura.
_Eu sei. –ela disse grave, mas o que espantou Zechs foi que ela não pareceu abatida. O conceito que ela tinha de sua própria decisão então era resoluto, como se ela nunca tivesse lamentado o que escolheu, feito ela não tivesse passado por um segundo de arrependimento ou vergonha. Ele perguntou-se o que dava força para ela agir assim.
_Como você conseguiu se sujeitar? Se você me tivesse contado antes, eu tinha dado um jeito de impedir. –refreou-se sim, mas não soou menos enérgico.
_Eu sei. Por isso não contei. Cada vez que eu penso em tudo isso, vejo mais inconsequência no que decidi, mas naquele momento eu juro que me senti sem escapatória. Acho que não havia mesmo escolhas.
Ele meneou a cabeça, insatisfeito. O garçom chegou com as entradas e o vinho. Usando aquele intervalo para absorver as informações, Zechs suspirou cansado. Ela tinha razão. A situação da empresa dois anos atrás estava crítica. O ressurgimento foi um milagre que então não lhe parecia mais misterioso.
_Eu sinto muito por tudo ter sobrado para você. –e ele acabou expressando, o semblante descaído. Era amarga para ele a percepção de que não podia ter feito nada para impedir.
Com aquele mesmo franzido afetuoso de antes, ela sorriu, negando com a cabeça:
_Não há nada para você lamentar, Zechs. Eu fiz questão de te deixar fora disso. Eu não quero que você se sinta culpado.
_Mas eu queria ter estado ao seu lado. Você enfrentou tudo isso sozinha. Não imagino que o pai tenha te dado algum consolo.
Sobre tudo isso ela permaneceu calada.
_É difícil de acreditar que ele teve a coragem de aceitar essa ideia absurda do juiz. É difícil demais pensar em tudo isso, Lena. –e voltou à indignação, sem saber o que fazer com ela.
_Eu sei. –ela repetiu, monótona. Aquilo também lhe fazia mal. –Papai estava desesperado, Zechs. Ele tomou medidas desesperadas.
_Por que você está conformada?
Então seu sorriso foi agridoce. Lembrou-se do que disse a Heero, repetiu:
_Eu não tenho como culpar papai, Zechs. Eu sou cúmplice dele. Não acredito que tenho de me explicar mais do que isso. E também, eu superei toda a mágoa.
_E Heero?
_Ele não sabia nada disso. Ele estava na mesma posição que eu – saldando uma dívida, mas a dele era mais cruel, mais antiga.
_Relena, tudo isso soa absurdo.
Ela assentiu, suspirou e apanhou seus talheres.
_Mas ainda tem mais.
Zechs prendeu-se em uma imobilidade momentânea antes de pedir:
_Ok, manda ver. –nada poderia ser mais chocante do que tinha descoberto até então.
Ela riu, tomou uma garfada e prosseguiu:
_O plano era eu e Heero nos divorciarmos ano que vem. Estava tudo acordado. E no começo, era tudo que nós mais queríamos.
_Vocês… mudaram de ideia… –ele a interrompeu, encurtando a história.
_Sim. –e então ela corou e Zechs ficou ainda mais espantado. Ele não tinha se enganado. Aquele sorriso tranquilo, aquele frescor e aquela luminosidade eram sinais de bem-estar, provas de que ela se sentia querida. Relena estava mesmo apaixonada por Heero. Tudo o que ele observara entre os dois no início do Verão fora legítimo.
Ela ficou esperando que ele reagisse, falasse algo, criticasse ou se revoltasse. Ele só ficou encarando-a de volta, pensativo, recordando-se do cuidado que ouviu na voz de Heero na única conversa significativa que tiveram. Ele não conhecia nada daquele rapaz, ao mesmo tempo não se viu em posição de duvidar do que ele lhe dissera. E ficou impressionado em como Heero não mentira em nenhum momento. Seu cunhado era mesmo muito mais do que uma pessoa complicada.
_Inacreditável. –e ele simplesmente observou, pasmado. Abriu a boca sem saber se sorria e procurou na taça de vinho alguma inspiração, tomando um gole.
Relena sorriu, embaraçada:
_Exagerei com as revelações?
_Com certeza. Eu teria preferido receber todas essas informações em doses mais homeopáticas. –assistiu-a dar um sorrisinho apologético, sem graça. –Agora, eu vou te perguntar uma coisa e você tem que ser cem por cento sincera, está bem? Chega de meias verdades.
_Certo. –curiosa, baixou as mãos e decidiu preparar-se bebendo um pouco do vinho.
_Você está feliz?
Aquele assunto de novo. E de repente tinha plena certeza do que dizer. Sorriu intensamente e seus olhos se encheram de lágrimas:
_Sim. –e simplesmente pronunciou aquela palavra tão pequena, tão precisa, tão capaz de abarcar tudo.
_É só isso que interessa agora.
_Obrigada, Zechs.
_Enquanto você estiver feliz, vai ter meu total apoio.
_Eu tive muita sorte. –e ela pensou alto, secando as lágrimas, antes de elas escorrerem.
_É verdade.
E trocaram sorrisos cúmplices, embora o de Relena fosse claramente bastante aliviado.
Transcorreram minutos pensativamente, cada um tomando porções do seu prato. O gesto de Relena usando a faca dava a Zechs a visão clara de sua aliança e seu anel de noivado, agora para sempre em seu lugar devido. Ele demorou-se um pouco pensando no significado do que via, no atestado inegável da decisão dela e assentiu para si mesmo.
_Como a Noin foi sua madrinha, imagino que ela já sabia de tudo isso… –e depois ele quis confirmar, mesmo que reconhecesse que era desnecessário.
_Sabia. Eu tive que contar para alguém.
_Eu não acredito que fui enganado de uma vez só pelas duas mulheres da minha vida. –e embora soasse jocoso, Relena notou que havia alguma frustração no fundo de sua voz.
_Ela era a única em quem eu podia confiar. Você precisa entender. –Relena implorou, franzindo o rosto todo, o nariz enrugando graciosamente.
_Sinceramente, eu nem vou tentar. Vou deixar isso para lá. –e confessou, exausto, rindo e gesticulando com pouco caso. –Chega de complicar a vida.
Relena ficou assustada com o modo de ele pensar.
_Tem razão. –e por fim apenas admitiu que ele fazia sentido. Zechs era uma pessoa muito sensata e, diferente dela, não era dado a ficar pensando demais. Gostava de tratar tudo com praticidade. –Eu estou aliviada de finalmente ter de explicado tudo.
_Imagino. E quais são os planos a partir de agora? –e essa pergunta deu início a uma nova conversa.
Relena não escondeu dele mais nada a partir de então.
Entretiveram-se tanto que o garçom teve de ir avisá-los que iriam fechar em quinze minutos.
_Quer que eu te deixe em algum lugar? –ele se ofereceu quando pararam junto ao carro dele.
Relena olhou em redor, a luz do sol filtrada pela densa camada de nuvens cinzentas, uma leve sensação de mormaço abraçando seu corpo.
_Não, hoje eu sou uma verdadeira nova-iorquina. Vou pegar o metrô.
Zechs achou-a engraçada e meneou a cabeça:
_Está certo, só cuidado para não ser roubada.
_Se isso faz parte da experiência…
Ele gargalhou, perplexo, e depois deu um beijo na testa dela:
_Precisamos nos ver mais. Vamos combinar alguma coisa para o fim de semana. –e foi dizendo enquanto dava a volta para entrar no automóvel.
_Ótima ideia. A gente se fala! –e animada, despediu-se, acenando para ele. Esperou o carro desaparecer no fim visível da avenida antes de rumar à estação. Para Relena era um privilégio ter um relacionamento tão próximo com o irmão e saiu daquele encontro revigorada e risonha.
Cada passo dado trazia alguma imagem a sua mente, pequenezas encantadoras. Aquele dia tinha sido mais um sucesso em tomar sua vida e sua identidade de volta. Sua expressão bem-humorada, deslocada a agitação doentia da metrópole, atestava que jamais seria uma verdadeira nova-iorquina. Sua aura de perfume e claridade seguia intocada pelo seu ambiente, só atraindo atenção dos dispostos a observar.
No guichê eletrônico dos bilhetes, inafetada pela pressão da fila atrás de si ou pelo frenesi incansável dos que circulavam a estação, ela sorriu entregando as moedas e curtindo aquela grande sensação de paz. Foi com a linha verde até a integração com a linha amarela para poupar a caminhada, decidindo passar o resto da tarde nas lojas de departamento próximas ao Central Park.
Ficou presa dentro da Bergdorf Goodman por causa da forte pancada de chuva que surpreendeu todo mundo e durou duas horas. A cidade virou um caos lá fora, mas ela usou bem o tempo vendo todas as novidades e se inspirando quanto a que usar no jantar de quinta-feira. Quando cansou de caminhar e já tinha feito suas compras, sentou para tomar um café.
E notando que a chuva cessara e considerando as horas que eram, mordeu o lábio inferior instigada com a inspiração inventada. Pagou a bebida e saiu cheia de estirpe carregando suas sacolinhas, mesmo que seu caminhar fosse moldado por uma módica sapatilha dourada. Quem não a conhecesse a tomaria por uma nobre europeia em uma temporada descontraída na América.
Hibbert estava concentrada em algumas anotações quando sentiu a sombra que acabara de debruçar sobre si. Umedecendo os lábios e ajeitando os óculos no rosto, levantou a vista exibindo a expressão severa reservada para os inconvenientes.
_Boa-tarde. Eu gostaria de falar com Heero Yuy. –a moça de aparência levemente encalorada sorria com candura, sem notar a acidez do olhar da secretária se desfazendo junto da percepção de quem estava diante de si.
Desmanchando a tensão que travava seus dentes, Hibbert ousou olhar em redor e sentiu que o andar inteiro estava imóvel e silencioso diante da aparição de Relena. Não poderia explicar o porquê, entretanto.
_Se ele estiver ocupado eu posso esperar. –a moça prosseguiu, pensativa. Talvez não devesse aparecer sem avisar. Por outro lado, não seria tão especial se fosse assim.
_Só um momento.
_Está bem. –e com isso, ela se afastou da mesa e andou em um círculo lento pela pequena sala de espera reservada aos clientes de Heero.
A recepcionista na entrada do andar esticava o pescoço para tentar capturar um relance da jovem madame passeando diante dos dois quadros de arte moderna sob o sofá de couro branco. Um dos assistentes do doutor Maasen ficou tomando café debruçado no balcão da recepção, vidrado. Se pudesse, até o ascensorista tinha ido com Relena até a mesa de Hibbert, só para poder apreciar o fato mais de perto. Era uma situação esdrúxula. Depois do choque inicial, Hibbert começou a achar o fato divertido. Não demonstrou nada, porém.
_A senhora Yuy. –ela disse ao telefone com sua irrefletida voz trivial, quase desdenhosa. Ainda que fosse o próprio Obama ali, ela ainda o anunciaria com aquele mesmo enfado objetivo.
Heero segurou o telefone durante um segundo inteiro processando a informação. Franziu as sobrancelhas e seu assistente, que tinha interrompido sua frase sobre a programação de uma audiência, não sabia o que derivar sobre o que acontecia. Ele era apenas um estagiário, mas já sabia que a ação mais sensata ali sempre seria juntar seus papéis e escusar-se. Poderiam resolver as demais questões pela manhã.
_Pode mandá-la entrar. –e depois se levantou e saiu de trás da mesa, enfiando as mãos nos bolsos.
Relena tinha acabado de sentar ao lado das suas sacolas quando viu a porta abrir e um rapaz alto sair com uma pasta e alguns papéis.
_Pode entrar. –Hibbert esclareceu, voltando as suas anotações.
Assentindo, Relena saiu de seu lugar e se encaminhou cuidadosamente até a passagem.
Com os olhos presos na porta, Heero assistiu os movimentos delicados de Relena ao adentrar a sala. Ele empertigou-se, tirando as mãos dos bolsos, cruzando os braços na frente do peito.
_Relena…? –não era aquela senhora Yuy que ele esperava, mas era muito mais lógica.
_Eu atrapalhei? Estava aqui por perto e pensei… –e não soava muito pesarosa, na verdade. Parou longe dele e o viu menear a cabeça de olhos acesos com um sorriso tímido.
_Não se preocupe. –e avançou até ela para fechar a porta.
Ela o assistiu, curiosa. Será que sabia como todo mundo estava intrigado com a presença dela e preferia manter a privacidade? Mas aquele gesto poderia causar ainda mais motivos para fofoca. Riu, sem se conter. Ela estava até gostando de causar toda aquela sensação boba.
Ele mostrou uma expressão intrigada, franzindo as sobrancelhas escuras, tentando desmistificar aquela risada. Deixou de lado:
_Eu só estava repassando a agenda para amanhã. Já encerrei por hoje. –e depois comentou, observando o rosto dela mais de perto.
Relena percorreu o escritório com os olhos, conhecendo mais aquele esconderijo do rapaz. A janela atrás da mesa oferecia uma linda vista e ela demorou-se mais apreciando a paisagem.
_Que bom. Eu vim te buscar. –e finalmente ela murmurou alguma coisa, amável.
_Ah é? –estranhou, mas não estava incomodado. Se fosse um ano atrás, consideraria a presença dela uma intrusão inadmissível. Então, era um imprevisto interessante.
_Ah é. –e houve qualquer coisa felina nos olhos dela quando confirmou.
Ele soltou um riso baixo, rouco, e colocou um pouco do cabelo dela atrás da orelha. Ela deitou a cabeça para um dos lados e permitiu os dedos dele se afundarem mais em seu cabelo. Ele percorreu toda a extensão dos fios, sentindo-os macios. Sua mão ainda se lembrava do comprimento anterior dos cabelos dela e os dedos ficaram contraindo-se ociosos até irem pousar nas costas delas. Tinha fechado-a em um abraço sem perceber e permitiu-se pousar um beijo nos lábios dela, dando-se conta de que a visita dela era tudo o que ele tinha desejado a tarde toda.
Os lábios dela se curvaram levemente em um sorriso quando beijados. Sua garganta fez um ruído de prazer e ela terminou de prender-se a ele, enlaçando-o pelo pescoço. Dedicaram-se ao beijo sem pressa, sem prazos. Relena escapou de repente e olhou-o nos olhos:
_Como foi hoje?
_Nenhuma novidade. –e desvencilhou-se dela para ir arrumar sua maleta. Enquanto desligava o computador e arrumava os cabos, relanceou-a e quis saber: –Deu tudo certo?
_Sim, Ane me levou para Flushing. Tomamos café em um lugar maravilhoso.
Ele assentiu, guardando uns documentos dentro da bolsa.
_Ela nos alistou para um jantar na quinta. –e avisou, imaginando que ele não ia gostar muito da ideia.
_Ok.
_Eu te disse que ia almoçar hoje com Zechs?
Ele fechou o zíper da mala e a encarou antes de começar a vestir o paletó:
_Não… e como foi?
_Foi tudo bem. Eu conversei com ele sobre o que houve com a gente.
Ele moveu a cabeça, apreensivo.
_Eu estava devendo uma explicação para ele sobre nosso casamento… mas ele não ficou muito chocado.
_Não?
_Pois é, eu também estranhei. Provavelmente, mais para frente, ele acabe vindo falar com você.
_Por quê?
_Ah, não sei… talvez para ameaçá-lo a cuidar bem de mim? –e provocou.
_Eu não preciso disso. –ele franziu a testa, ultrajando-se.
Ela revirou os olhos e se enganchou nele só para ter que soltá-lo ao sair da sala.
_Até amanhã, Hibbert.
_Boa-noite, senhor Yuy, senhora Yuy.
Relena buscou suas bolsas sobre o sofá e respondeu a despedida da secretária.
_Enfim, ele vai precisar de um tempo para absorver tudo, mas deu para ver que ele conseguiu entender. –e ela retomou, diante do elevador.
Heero suspirou:
_Não devemos mais pensar nisso. É cansativo.
Ele não estava à vontade ainda em pensar no absurdo da circunstância que os juntou, na quantidade de segredos que aquilo gerou. Olhou para baixo, ignorando o olhar imaculado dela.
Relena entristeceu-se um pouco, dando-se conta de que Heero também não tinha conseguido absorver ainda. Como repreendê-lo?
_Tudo bem. –e murmurou.
O ascensorista mantinha-se neutro, ouvindo-os. Relena o encarou e abstraiu-se um pouco. Quantas frações de vida aquele homem tinha testemunhado? O que ele fazia com conversas como aquela que ela travava com Heero? Será que ele tentava situar, tentava decodificar? Ela mordeu os lábios, imaginando situações, criando cenários. Aquela distração serviu para encurtar o tempo e quando ela deu por si, estava junto à porta do BMW.
_Comprei uma gravata para você. E um lenço maravilhoso. –ela confidenciou, procurando a sacola da Tom Ford, mas notou que os itens estavam embrulhados cuidadosamente em papel de seda e resolveu mostrar depois.
_Obrigado. –ele murmurou, contido, olhando-a de soslaio, mais preocupado em guiar o carro no trânsito atolado da avenida.
-8-8-8-8-
_Para quê tudo isso? –Heero reclamou enquanto Relena tentava deixar o nó da gravata nova mais simétrico na camisa dele. Era um esforço desperdiçado, pois estava perfeito. Heero esperava pacientemente Relena perceber isso, aproveitando para olhá-la no peignoir de seda cor-de-rosa pálido, sentindo de perto sua calidez e fragrância doce e estonteante.
_É um jantar formal. –e ela replicou, feito ele não tivesse prestado atenção a tão óbvio detalhe.
Como única reação, ele bufou. Finalmente Relena ficou satisfeita com a posição da gravata e saiu para terminar de vestir-se.
Como sempre, Heero não queria ir, mas dessa vez não manifestou sua opinião. Seus amigos estavam animados com a ocasião, Relena também, então faria aquele sacrifício de reprimir sua indisposição. Ficou se olhando no espelho depois que vestiu o blazer, admoestando a si próprio que estava preso em um ciclo inescapável de compromissos sociais para a vida toda e que era melhor aprender a tolerá-los.
O vestido que Lori emprestara para Relena caía-lhe tão perfeitamente bem que parecia ter sido feito sob medida. Normalmente, Relena não se sentiria muito confortável em usar aquele modelo, mas era a extravagância dele que mais a atraía então. Não sabia se tinha se habituado à ousadia ou se era seu estado de espírito que pedia aqueles excessos.
Heero teve dificuldades de decidir sua opinião sobre a roupa dela quando a viu aparecer na sala, pronta. Ele queria poder dizer outra coisa, mas ela estava de fato vestida para matar. Outra vez, todas as curvas dela estavam bem construídas pelo tecido de um cor-de-rosa intenso, quente e aveludado. O busto era modelado pelo decote tomara-que-caia e a coxa esquerda surgia no vai e vem do caminhar dela graças a um racho longo e provocante.
Ele cruzou um braço para apoiar o cotovelo do outro, cobrindo a boca com a mão, analisando se deveria ou não deixá-la sair assim. Ao mesmo tempo, seus olhos se enchiam com a visão, toda aquela pele saudável e perolada exposta mesmerizando sua mente e seu coração.
E era o comportamento refinado dela que equilibrava o arrojo do traje, servindo de acessório principal, mais atraente que os cristais Swarovski que ela escolhera, e algo de brioso nele resolveu que não faria mal esnobá-la um pouco.
Adulada pela expressão que via nele, ela respirou fundo, curtindo o poder. Sorriu elegante e estendeu uma mão para ele, correndo os olhos pelo porte esguio e perfeitamente definido pelo terno negro e bem cortado. A gravata cinza combinando com o lenço ajudavam os olhos dele a se destacarem enquanto a vigiavam friamente. Aquele fito tão intenso, reluzindo prateado com apreço e desejo, causavam deliciosos arrepios e secreta palpitação. Sentiu a mão dele quente sobre a sua e respirou fundo outra vez, certa de que corava.
Chuviscava dramaticamente quando saíram do táxi frente ao longo toldo do restaurante. O porteiro veio prontamente cobri-los com um gigante guarda-chuva. Relena preocupou-se um pouco com seu penteado, mas só o que podia fazer por ele era apressar-se ao interior do Oroitz. Heero a seguia como um guarda-costas, altivo e garboso, chamando sua parcela de atenção.
O maître os conduziu pelo ambiente datado dos anos 40 até uma grande mesa redonda. Ali já se sentavam Duo, Quatre e Wu Fei, acompanhado de Jade. Houve vários cumprimentos entre todos e depois que o jovem casal Yuy se acomodou, Dolf apareceu junto de Trowa e Catherine.
Bem próximo a eles, um pianista e um violoncelista preenchiam o ar com sua música que reforçava o clima inesperadamente clássico e hollywoodiano do restaurante basco. O pianista cantava "As time goes by" de forma sentida e hipnótica, carregando mais a penumbra intimista que envolvia o lugar.
Akane finalmente chegou junto de Astuce. Os vestidos delas, vaporosos, estrelados de brilhantes, faiscavam sutilmente na luz pouco intensa. Ninguém se interessou sobre o que elas tinham ido fazer, com certeza algo a ver com as reservas. Sentando as duas, todos começaram a discutir o menu e escolher o que estavam dispostos a experimentar. Tudo parecia muito rico em sabor e decidiram optar pelo serviço de degustação. Junto do espumante, despretensiosamente falaram sobre as tarefas do dia, as poucas novidades, planos e ideias.
A atenção que aquela gente jovem aglomerada ali atraía era descabida. Eles comportavam-se com requinte, mas transbordavam em argúcia e em perfume e beleza, em prestígio e dinheiro. A festa particular deles a vista de todos era um tributo ao momento em que estavam, ao sentimento de supremacia que curtiam, como uma espécie de debute, quase como uma formatura, como uma asseveração de que eles tinham total domínio de quem eram.
Fotógrafos colunistas sociais fizeram questão de capturar momentos com seus cliques expertos assim como Relena previra e, embora incomodasse um pouco a todos, também fazia parte de quem eram exporem-se assim, o que terminava só por fortalecer sua influência.
_Hoje é uma noite memorável. –Quatre murmurou, ébrio de encantamento. –Quanto tempo fazia que não nos encontrávamos todos assim?
_Em tão bons termos, pelo menos, uns cinco anos. –Trowa pilheriou, a voz indecisa entre buliçosa e entediada. Catherine puxou a risada no grupo, mas Quatre se desapontou com a resposta.
_Não importa. Pelo menos temos muito que comemorar. –obviamente, foi Duo quem adicionou.
_Comemorar o quê? –Wu Fei não estava convencido. Jade revirou os olhos ao lado dele e comunicou sua impaciência com Akane, que riu traquina.
_A longevidade da nossa amizade. –Quatre propôs, francamente romântico.
_Ótimo, Quatre. –Astuce sorriu, emocionada. Era como que cortada da mesma peça dele. Quatre mesurou a cabeça na direção dela, apreciativo.
Dolf apenas assistia, os olhos confusos, um tanto deslocado na companhia, bebendo sua champanha.
_Sim, e também a nossa audácia. –Akane prosseguiu, personificando a própria audácia. Olhou direto nos olhos de Heero e sorriu, sabida. Ele não recuou, sustentando o fito dela com sua linda obstinação, de repente cáustica e flamejante.
_E o amor. Não podemos nos esquecer. –e Relena contribuiu, embevecida.
_Vejam só! –Akane provocou-a jovialmente, satisfeita, e Quatre riu, encabulado.
_Sim! –Astuce levantou sua taça, mais e mais comovida.
Relena ria, um tanto sem jeito, e a luz fraca não deixava os outros notarem seu rubor. Trocou um olhar com Heero, que parecia confortável e despreocupado. Ele não se afligia mais com a menção dos sentimentos que repartia com ela.
_Ah, isso definitivamente pede um beijo… –Duo ousou convocar, e em torno da mesa alguns convidados o apoiaram. Astuce soltou um risinho levado e inocente, trocando olhares com Dolf, diante do que ouviu.
Com o corado intensificado, Relena escondeu sua risada com a mão, procurando a reação de Heero. Ele revirou os olhos, meneando a cabeça, e depois olhou para ela, tentando do melhor modo mascarar seu constrangimento.
Wu Fei careteava, desgastado de tanta tolice. Jade apenas assistia, empolgada com o desfecho.
_Deixe-os em paz… –mas Quatre achou-se em posição de defendê-los.
_Não concordo, eles nos devem isso. –e Trowa o combateu prontamente, astuto, sendo também apoiado por outros.
_Oras… –Heero rosnou, cada vez mais acuado.
Relena conseguiu controlar a crise de riso e o fitou, mordendo o lábio com força. O magnetismo que ela emanava isolava o ruído branco que se criou na mente de Heero, e foi fácil de repente atender a multidão, debruçando o rosto sobre o dela e sorvendo um beijo generoso para não dar margem para maiores cobranças. Embora nenhum dos dois se importasse se tivessem de dar um bis.
Pareciam todos adolescente, vibrando com a cena, tentando dominar a empolgação para não perturbar os demais clientes do Oroitz. Incomodaram do mesmo jeito.
Enquanto isso, com o polegar, Relena limpava delicadamente o pouco do batom que sujou o lábio de Heero, mergulhada de toda nos olhos dele que a estudavam cheios de almejo.
_Aproveitando, o que vocês acham, quem vai ser o próximo a se amarrar: Trowa ou Wu Fei?
_O quê? –Wu Fei revoltou-se com a discussão que Duo lançou. –Por que isso agora?
_Que terreno perigoso você decidiu desbravar. –Trowa observou, sempre beirando o chiste. Catherine franziu as sobrancelhas:
_O que quer dizer com isso?
_Hm, Cathy, acho que o Trowa tá te enrolando… –Akane atentou, sem medo.
_Ane, querida, não fale assim. –Quatre a repreendeu, afligido, mas Trowa somente riu roucamente.
_Se é que temos que escolher, eu aposto no Trowa. –Heero demonstrou seu apoio pela perspectiva mais óbvia, aproveitando para elegantemente retribuir a vilania do dito amigo.
_Que bobagem. –Wu Fei reclamou. Mas já estava começando a ver aquilo como uma competição, e poderia ser tentado a ganhá-la.
_Eu também considero Trowa a melhor aposta. Wu Fei nem conhece minha família ainda. –Jade adicionou, mostrando-se um tanto decepcionada.
_Que feio, Wu Fei, fugindo da responsabilidade. –Duo foi ágil em censurá-lo, sua risada sinistra pontuando a importunação.
Se pudesse escolher ter qualquer poder, naquele momento Wu Fei desejaria lançar chamas pelos olhos. A seu lado, Jade assentiu, conformada, deixando-o ainda mais irritado. Bufou, ofendendo-se com o fato de tudo acabar se virando contra ele, porém ninguém deu muita atenção a sua rabugice pois outro assunto já surgira.
E entretendo-se com risadas e comentários, os jovens faziam as horas avançarem rápidas. Ninguém estava preocupado com as responsabilidades do dia seguinte, dispostos a continuarem com a reunião até o fim da madrugada. Entrosados como estavam, não percebiam quão calados Heero e Relena se encontravam então e quão imersos um no outro estavam desde o beijo. Tampouco notaram quando os dois desapareceram e fecharam sua conta no balcão do caixa.
O tempo passado com os amigos foi muito agradável. Os dois tiveram conversas interessantes com os demais e recordaram-se de como era bom estarem com aquelas pessoas. Contudo, encontravam-se em um momento em que a presença um do outro era só o que mais desejavam.
_Estou enjoado de champanhe. –Heero resmungou, guiando-a pela calçada até um bar que costumava frequentar, descendo a rua.
_Acho que você deve ser a única pessoa no mundo com essa opinião. –ela o importunou, encostando-se ao braço em que se enganchava, seguindo as passadas largas dele.
_Talvez. –e ele a deixou passar primeiro pela entrada do estabelecimento.
Era um lugar muito mais simples que o Oroitz, uma mudança de cenário expressiva, mas com tanta personalidade quanto o comentado restaurante. Havia outros casais sentados em mesinhas redondas espalhadas parcamente pelo salão, mas a maioria dos frequentadores eram grupos barulhentos de amigos, rapazes e moças, ajuntados nos longos balcões, aventurando-se por um par. Como não podia deixar de ser, a entrada deles causou certa comoção, principalmente pelo modo como se vestiam.
Heero cumprimentou o barman quando se aproximou de um dos balcões e instruiu Relena:
_Fique aqui. –e a fez sentar-se em uma banqueta. Ela cruzou as pernas, conseguindo surgir ainda mais irresistível; ele estava quase se arrependendo de ter de se afastar.
_Posso servir a moça? –o barman indagou, prático.
Relena fez seus olhos passearem entre o marido e o atendente, e entendendo que Heero planejava algo, escolheu:
_Uma água, por enquanto.
Heero assentiu e a deixou ali, avançando para um canto meio escuro, confundindo Relena. E quando percebeu ele desaparecer debaixo de uma escadaria, ela franziu as sobrancelhas, aguardando um segundo.
O barman serviu a água do mesmo modo que faria com uma dose de uísque, abrindo uma garrafa de Evian e enchendo sua taça, fazendo parecer que ela tomava uma vodca. Relena sorriu admirada com o tratamento e agradeceu antes do primeiro gole.
A ausência de Heero foi de uns dez minutos. Ela intrigava-se com a demora, relanceando a todo o momento o lugar improvável onde o viu pela última vez, tentando entender o que ele tinha ido fazer, e sua inquietação a impediu de notar a aproximação de um rapaz.
_Boa-noite. –ele olhou-a com gentileza, tentando não deixar óbvio demais o quanto a considerava atraente vestida daquele jeito. Sentando-se a seu lado, notou a taça vazia. –Posso te oferecer outra bebida? –e usou a aproximação mais comum.
Relena ergueu as sobrancelhas, exageradamente surpreendida, e esboçou um sorriso:
_Não, obrigada. É só água. –e mostrou a garrafa que estava ali. Despejou o restante no copo. Lembrou-se de repente de voltar-se para frente e percebeu as muitas garrafas que decoravam o fundo do balcão, formando um vitral abstrato, mas místico do mesmo jeito.
O rapaz a assistiu sem reação, sem saber bem o que pensar dela.
_Eu nunca te vi por aqui antes. –e tentou captar o interesse dela outra vez.
_Não poderia… é a primeira vez que venho. –ela decidiu responder, não vendo nada de arriscado no comportamento dele. Bebeu um longo gole; não tinha se dado conta da sede que sentia. Deliberou se ia pedir outra garrafa.
_Entendo. –ele a percorreu com os olhos, analisando a postura principesca, depois procurou rapidamente seu grupo de amigos. Eles estavam assistindo. Que vergonha. –Você… está acompanhada, não está? –admitiu a derrota, notando o quão distante ela estava ao falar com ele.
_Estou, sinto muito. –e quando olhou para o lado pela enésima vez, encontrou Heero. Espontânea, seu primeiro reflexo foi abrir um sorriso segredeiro que contagiou também seus olhos. –Com licença. –e olhando descuidadamente o seu interlocutor, saltou do alto do banco com toda a graça e desfilou até Heero, deixando a vida daquele rapaz desconhecido ainda mais vazia.
Dentro daquele bar, havia outro, escondido, mais exclusivo e renomado que o primeiro. Estivera ali desde a Proibição e para muitos não passava de uma lenda. O acesso só era permitido com reservas bastante adiantadas e a permanência acontecia por um período limitado. Heero, entretanto, estava acima de tudo isso e, ao retornar de suas negociações com o segurança, se deparou com Relena conversando com um estranho. Parou a certa distância e ficou observando.
Ela olhava para o outro com educação, sem interesse, sempre o relanceando e devolvendo a atenção para as garrafas coloridas nas prateleiras atrás do balcão. Ela mexeu com uma mecha que escapou do coque, respondendo o moço, até virar-se em sua direção, localizando-o.
O modo que ela iluminou-se ao pôr os olhos nele o fez pasmado. Ela caminhou com facilidade para ele, feito tivesse sentido saudade. Heero perguntou-se se talvez não estivesse exagerando a própria visão. De qualquer modo, a ansiedade que experimentou era bem real ao assisti-la deslizar, expertamente se equilibrando sobre os saltos, e aproximar-se, dedicando-lhe aquele sorriso tão sedutor.
Ele encheu o peito de ar e retribuiu o sorriso com discrição:
_Está tudo bem?
_Sim. –e Relena fabricou uma atitude impaciente e acusatória: –Você sabia que isso ia acabar acontecendo…
Ele ergueu as sobrancelhas, impressionado com a atuação dela. Assentiu depois, um tanto ofendido, tirando os olhos dela e estendendo a vista pelo salão, como que em procura de algo:
_Vou deixar passar dessa vez… dava para ver que era um ingênuo… pensar que tinha alguma chance com você…
Ela perdeu a pose esnobe e deixou o rosto franzir em uma risada, sem saber se estava sendo elogiada ou se ele estava se gabando as suas custas. Contudo, algo no jeito de ele devolver sua mirada explicava que era o primeiro caso e aquilo a deixou lisonjeada. Baixou os olhos, eclipsando seu rubor até ouvir:
_Vamos…
_Claro, mas para onde?
_Você vai ver. –e havia tanta manha na voz rouca dele que, por um instante, Relena hesitou preocupada.
Ele a colocou em sua frente e a incentivou a caminhar empurrando-a gentilmente com a mão na base de suas costas. Relena encolheu-se um pouco para passar por debaixo da escada e alguns passos adiante se deparou com uma portinha iluminada por um facho fraco de luz. Tentou virar para trás para questioná-lo com o olhar, mas não houve tempo. A portinha abriu, admitindo-os a qualquer que fosse seu interior.
_Um speakeasy…? –ela murmurou, divertida. Não demorava nem um minuto para os olhos absorverem a extensão do espaço. À esquerda, um balcão similar ao que havia lá fora, com uma decoração ainda mais bonita de garrafas, iluminadas. À direita, mesinhas para dois, alternadas entre altas e baixas.
Sem deixar de tocá-la, Heero a fez notar a mesa reservada a eles. Ele seguia em um silêncio felino, curtindo a surpresa que havia causado nela, arrogante, mostrando como sorriso uma simples linha.
_Que lugar é esse? –ela indagou, baixo, inclinando-se sobre a mesinha apoiada pelas duas mãos no tampo de madeira negra e lustrosa.
_Nada demais… um lugar pretensioso… –e porque será que não parecia que ele falava mal do lugar? Ela riu da esquisitice dele. Heero não se importou. –Eu costumava vir muito aqui antes.
_Entendi. –e ficou atenta ao modo como os olhos dele estavam opacos e turvos. Mais lembranças.
_Eles têm drinques bastante diferentes. – voltou a comentar, distraído.
_Eu não gosto muito de beber… –ela franziu um pouco o rosto antes de suspirar. Heero fixou seus olhos nela e assentiu:
_Eu sei… –falou com se tivesse de esquecido de considerar o fato. –Mas vai encontrar alguma coisa que goste aqui.
_Ah, não sei… escolhe para mim.
Ele assentiu marcial e obedeceu, levantando-se para fazer os pedidos no balcão. Enquanto aguardava a preparação dos coquetéis, restou a Relena vigiá-lo. Ela sustentou o rosto com a mão, talvez cansada, e percorreu as linhas tesas dos ombros dele, da cintura, dos quadris e das pernas, tudo bem arrojado e exibindo uma postura de excessiva decisão. Ela sabia bem que ele se portava assim não só por instinto, mas também por sobrevivência.
Não podia ver seu rosto, mas adivinhava o olhar de aço e o ângulo altivo do queixo. Ele trazia os braços cruzados na frente do corpo, mas depois acabou soltando-os. Perdeu muito da imponência, virando em meio perfil, relanceando-a, as mãos tomando a direção conhecida dos bolsos do paletó aberto.
Alargando um sorriso que ignorava trazer no rosto, ela usou a outra mão para apoiar o queixo também. Fê-lo constrangido com a insistência de sua admiração. Os olhos que ela usava ele julgava como os de uma menina, apaixonados mas inocentes, recatados mas curiosos. Para ele.
Suspirou, aprumando o corpo, e virou-se de frente para ela, dando as costas para o barman. Sustentou o olhar dela, sentindo o coração acelerado, achando que devia sorrir, mas ainda sem jeito. Banhou-se na atenção dela, que piscava demoradamente, divertida, pensando sabe lá o que. Tudo estava tão diferente, ele estava gostando.
_Posso te fazer uma pergunta chata? –Relena nunca desconectou seus olhares e virou o rosto para o alto quando ele chegou perto da mesa, pousando os copos com cuidado preciso.
_Por que perguntou? Sabe que posso falar não… –e sentou do lado dela, surpreendendo-a. Ela riu baixinho e encostou a cabeça no ombro dele, torcendo o pescoço, tentando seguir olhando-o daquele ângulo improvável.
_Mas qual sua resposta? –resmungou.
_Tudo bem, pergunte. –monótono, concedeu. Não pôde resistir.
Ela se separou dele e suspirou:
_Por que estamos aqui?
_Não gostou? –Sua maior fraqueza era ter seus motivos questionados. Não aceitava ser contestado e muito menos conseguia tolerar aquelas investigações.
_Não é isso. –Relena percebeu a inquietação do sangue Yuy nele. Explicou suave, pacificadora. –Mas é só um bar… só é interessante por que é secreto? –e arriscou a atuar ingênua.
Ele bufou, liberando um pouco de irritação. Era só uma conversa.
_Não. Talvez. Eu sempre vinha aqui quando queria ficar sozinho, escondido.
_E como descobriu esse lugar?
_Eu fui convidado. –e bebeu.
Relena ficou pensativa. Por que estavam ali de verdade? Será que a resposta era simplesmente ele querer ficar sozinho com ela? Ou será que ele queria mostrar algo, participá-la de algo? Não conseguiu decidir. Por fim, bebeu também. Pausou um instante para saborear, encontrando a agradável presença de baunilha. Notou que Heero estava observando suas reações, sério.
_O que achou?
_Nada mal. Diferente.–e sorriu, ainda atenta aos sabores variados dançando em seu paladar. O drinque era como uma deliciosa sobremesa. –Gostei.
Ele sorriu de canto e assentiu. Concentrou-se em sua mistura reforçada de vermute, gin e vodca.
_Só entramos porque eu sempre fui um bom cliente. –depois ele comentou, prosseguindo com o assunto.
Desde sua permissão de entrada, ele lembrava-se bem de terminar encolhido em um dos cantos dali, acompanhado com o drinque mais forte em dose dupla, nas noites em que queria ficar sozinho, a maioria delas. Desligava o celular e enfunava-se, sentindo de certa forma que havia morrido e curtia um tipo melancólico de paz. Alimentava ainda mais seu vazio e seu descontentamento.
_Não tem medo de um dia ser cobrado por todos esses privilégios? –Relena questionou, fazendo-o regressar de suas visões passadas. Ele tomou um pouco de ar com dificuldade e sacudiu a cabeça negativamente:
_Para eles é suficiente poder dizer que venho aqui. Eles me conhecem bem. Não ousariam cobrar troca de favores. –e falava de um modo desdenhoso e agressivo e Relena não tinha como rebater. –Não notou ainda que eu comando essa cidade? –e bebeu de novo. O que fora aquilo? Riu sozinho do próprio gracejo exagerado, divertindo-se mais ainda com o modo que os olhos azuis dela se arregalaram surpresos.
Ela engasgou-se levemente com o que não esperava ouvir:
_Hm, o quê? Que presunçoso… –e o importunou, apoiando o rosto nas mãos outra vez.
Ele deu de ombros, colocando o copo meio vazio de volta na mesa. Seus olhos faiscavam, alegres.
_Eu quero uma prova de toda essa influência então. –ela propôs, vulpina, mostrando uma faceta desconhecida para ele, de repente espevitada. Não ia deixar a afirmação dele passar em branco.
_Hã? –e genuinamente se espantou, mas gostou do que viu. Não demonstrou, porém, para ver o que mais ela revelava.
_O que houve? Um segundo atrás você estava todo confiante, acha que não consegue realizar um pequeno desafio, Heero Yuy? –ela seguiu, sinuosa, mordendo o lábio com alguma provocação.
_Diga. –ele estreitou os olhos, lupino, interessado.
_Me dê um tempo para pensar. –e de repente se esquivou, desviando o olhar.
_Não sabia que podia ser tão caprichosa. –Heero observou alisando o rosto dela com o polegar.
Ela expandiu o sorriso vermelho e não disse nada para se defender. Ele sorriu malicioso para acompanhá-la.
Gastaram um tempo se fitando.
_Do que procurava se esconder aqui? –e ela voltou a seu humor usual, como que em um clique de interruptor, recuperando o tema por sua vez.
Aquela pergunta dela era ainda menos bem-vinda e no passado teria sido suficiente para trancá-lo dentro de si, contrariá-lo. Naquele instante eterno em que ficou calado, aceitando a pergunta dela como quem entra em uma piscina gelada, encarou-a inexpressivo. Lia no rosto outra vez brando dela paciência e indulgência que encorajavam.
A forma de Relena mostrar compaixão não o fazia sentir-se fraco ou inadequado. Pelo contrário, preenchia nele a necessidade de ser compreendido, concedia-lhe forças para ser quem era por meio da sinceridade. Só ela tinha inspirado aquela confiança nele. E por isso se provava digna de tudo.
Era mais que uma conversa.
E explicou:
_De tudo e todos. Parecia que não me era permitido um momento de liberdade quando eu estava na cidade. A agitação, a futilidade, a hipocrisia me afrontavam.
_Fugia até de seus amigos? –ela indagou indecisa, risonha.
_Não sabe como eles podem ser irritantes. –ele confessou, resmungando, olhando seu copo e debatendo sobre um novo gole.
Relena franziu a testa, analisando o rosto dele de perto. Heero percebeu que a deixou receosa. Não queria dar a entender que era tão insensível assim, embora, de fato, ele fosse, ele tivera sido… quer dizer, nem ele sabia mais. Respirou fundo e estalou a língua.
_Eu os entendo melhor agora. –e se retratou inquieto, sem olhá-la.
Calada, ela assentiu, atenta.
_Mas isso é porque eu me entendo melhor. –e ele ousou adicionar, baixo e sóbrio, sempre estudando a luz atravessando seu copo.
_Fico contente. –ela deixou passar um segundo para comentar, sem censura.
_Sim.
_Seus amigos também devem te achar bem irritante. –e recuperou-se, propondo, ajudando a inocentá-lo.
_Provável. –ele aceitou a ideia, finalmente bebendo outra vez. Era a mais pura verdade.
Sua boa disposição em concordar fê-la rir. Ela bebeu também por sua vez enquanto o escutava prosseguir:
_A verdade é que eu não queria nem a minha própria companhia. Me sentia uma máquina vazia a serviço das expectativas de todo o mundo, mas especialmente do meu pai. Sempre que podia frustrá-las e me comportar mal, eu o fazia.
_Não havia nada que gostasse de fazer?
_Não sei dizer. Eu só passava o tempo. –falando assim então, percebia como tinha sido horrível sua vida antes. Era assustador pensar em como ele cavava aquela cova cada vez mais fundo, ele mesmo, sem saber lidar com seus problemas, suas frustrações, seus sentimentos.
Relena não disse nada, mas não precisava para fazer-se entender que o que ouvia era incompreensível e lamentável. Heero não se aborrecia com ela. Como ela poderia se sentir diferente? A juventude que vivera não fora condicionada a tantas complicações. Heero respirou fundo. Talvez tivesse um pouco de inveja. Não que isso fosse resolver algo. Tampouco lhe faria bem. Mas era melhor admitir. Ele tinha direito de se sentir como quisesse. Aquilo sim era liberdade.
_Hm, talvez houvesse uma coisa que eu gostava de fazer. –e meio escarninho, mas consigo mesmo, levantou.
_O quê? –e ela achou os modos dele bem suspeitos.
_Beber. Bebia toda noite. Champanhe nas festas maçantes, uísque e vodca para curar o tédio e tequila ao final da noite se por acaso eu me sentisse inspirado.
_A que? –e a escolha de palavra dele soou-lhe inusitada, preocupante.
_A um porre mais forte. –ele respondeu pronto e seco.
_Heero… –ela reclamou, abismada.
_Até parece que não sabia.
_Não. Eu não sabia nada de você antes de nos casarmos.
Ele deu de ombros e terminou seu coquetel – o único aquela noite.
Não gostava nada de falar do passado, ainda mais o seu, aquele cheio de descontrole e destruição, mas com ela ali era capaz.
_O que você ouviu falar de mim então? –e decidiu investigar.
_Quase nada… quando as meninas falavam de você, fingiam que eu não existia, não imaginavam quem eu ia me tornar. –e seu sorriso variou entre atrevido e abstrato. Ele apenas a assistia. –Os fragmentos que roubei não serviram para me preparar para o rapaz intratável que encontrei na minha noite de núpcias. –parecia que ela ser referia a outra pessoa ao passo que vigiava os olhos dele, parados no rosto dela. Heero franziu a sobrancelha, desaprovando-a:
_Violento. Seja franca. –e adicionou rouco e áspero, prendendo-a firme pelo olhar. De todas as suas lembranças odiáveis, era aquela que odiava mais. Por ela, ele voltaria no tempo.
_Sim. –e foi a vez de ela beber. E não pronunciou sua anuência com receio nem amargura. Por sua vez, aquela lembrança não a estocava mais. Tinha para si que o que houve naquele quarto do Plaza a levou tão perto da loucura que nada pareceu tão difícil depois. De certa fora a encouraçou.
Relena realmente sabia perdoar. Ele ficava perturbado. Mal sabia ele que a tática que a moça usava era não ficar remoendo tanto o passado, por mais sensível que ela fosse. Sim, essa sensibilidade a ajudava a escolher a que se apegar e o que desprezar.
_O que aprendi de você não é nada que você não saiba… o sucesso com as garotas, o mau gênio, a imprudência. –e enumerando a seguir, Relena tentou não soar catedrática, porém com pouco sucesso. Suspirou depois, perdendo-se um instante naqueles pensamentos. Era a primeira vez que via rumores e falatórios cumprirem-se tão bem. Talvez até empalidecerem diante da realidade.
Sem entender por que, ele teve vontade de rir ao ouvi-la. Notou que nada daquilo era ou seria de alguma consequência para Relena. Quando enfim a permitira adentrar no seu secreto, retratou-se de toda a má fama, mostrando unicamente para ela do que era feito. Diante dela, ele era totalmente vulnerável. Ninguém mais o conhecia como ela – nem para o bem, nem para o mal.
_Eu pensei em me alistar. Nunca conte isso para minha mãe. Ela não aguentaria nem imaginar… foi só por ela mesmo que não entreguei os papéis. –e comentou em um tom austero, prático, vendo a própria insensatez dos impulsos antigos.
Relena não evitou pensar que ele daria um excelente soldado. Tão excelente que de repente percebeu que teria sido um desperdício ele se dedicar ao exército assim. E sentiu medo pelo que podia ter sido. Ela nunca o teria conhecido se ele tivesse levado sua intenção adiante, e mesmo assim preocupou-se, imaginando-o eficiente e inconsequente demais.
_Também não gosto de imaginar. –e ela não resistiu em murmurar, baixando o rosto, fazendo cintilar os cristais robustos e coloridos do brinco comprido que usava.
Ele a ficou assistindo em uma mudez ao mesmo tempo perplexa e misteriosa. Com a delonga, ela acabou devolvendo seu olhar para ele, encontrando-o concentrado em delinear com a vista sua feição levemente aflita.
_Não precisa. –seu tom de censura esmoreceu sua intenção de consolo.
Ela deu de ombros, em nada abalada pela rispidez autoritária dele. Heero respirou fundo e ela bebericou seu copo, desejando que ele falasse mais.
_Acho que por não querer nada da vida, eu acabava cedendo mais fácil as pressões. Eu respondia tudo com "tanto faz". Eu só respeitava mesmo minha mãe, mesmo que fosse de um jeito distorcido, fazendo ela se preocupar do mesmo jeito. E por ela também eu mantinha minhas notas altas, para não matar de vez todas suas esperanças. Do contrário, não teria conseguido entrar no programa para frequentar Oxford. A Inglaterra foi minha grande chance de ter a liberdade que eu tanto queria. O juiz ficou incerto sobre permitir que eu fosse, mas acho que até ele ficou lisonjeado com a ideia de eu estudar lá.
O olhar cristalino dela prendia-se a cada palavra dele. A atenção que ela dava não o fazia sentir-se exposto demais. Fazia-o desejar falar. Com sua suavidade afiada Relena lapidava todo o gelo, erodia toda a rocha que um dia o escondeu. Sim, com ela era fácil se abrir, sua própria voz não mais parecia desnatural ao seus ouvidos, suas palavras não eram mais desimportantes.
_Foram dois anos, mas eu poderia ter me formado lá… como sempre, eu estraguei tudo. –e pela primeira vez, soou frustrado. Deu pena. Relena cuidadosamente incentivou:
_O que houve exatamente? –talvez se ele terminasse aquela história finalmente ficaria sem motivos para se cobrar tanto.
_Quando cheguei, não demorou muito para eu encontrar as pessoas que compartilhavam dos meus interesses…
_Entendo… –e ela meneou a cabeça desapontada, apesar de sorrir. –Era inevitável.
Ele não se incomodou com a decepção demonstrada por ela, praticamente partilhando dele. Entretanto, seguiu explicando, com indiferença:
_Não sei onde eu arranjava tempo para estudar… lá, eu agia ainda pior do que aqui, sem pensar em nada. Saíamos todas as noites, passávamos fins de semana em Brighton, em Amsterdã, em Paris…
_Você se tornou um típico herdeiro de romance… –Relena se ouviu concluindo, brincando com seu copo, seu sorriso boiando em melancolia.
Heero estreitou os olhos ao captar o timbre jocoso que ela usou.
_Como assim? –cobrou.
_O rapaz de boa família que vai estudar na Europa e se deslumbra e se perde moralmente lá. Um tema comum da literatura.
Ele seguiu irritado com o modo que ela o transformou em um clichê meio patético. Mas por fim, bufou. Os clichês são o que são porque retratam uma verdade. Contudo, não tinha certeza que definiria o que viveu como deslumbre. Só sabia que na Europa aprendeu a odiar-se ainda mais. Observou:
_Então você já sabe bem como foi, não preciso detalhar.
_O que seu pai falava quando via as contas a pagar?
_Ele me repreendia como sempre, mas pelo telefone não tem o mesmo efeito… logo que eu desligava, a inconformidade que ele tinha atiçado em mim se transformava em mais energia para transgredir. E eu ia e gastava o dobro, bebia o dobro… todo dia. Acordava em camas estranhas… arranjava brigas e adquiria rixas. Também me envolvi com rachas. Tinha comprado um Maybach e gostava de testar seu motor. A adrenalina foi tudo o que restou para esquecer como eu estava insatisfeito. Nada mais surtia efeito.
Relena se endireitou na cadeira, se prontificando, sabendo que o clímax tinha chegado.
_Naquela noite, porém, eu estava bêbado demais e Hector se ofereceu para pilotar para mim. Eu estava tão confiante de que ele ia vencer que paguei para ele o valor da aposta para poder me representar. Para ele foi o melhor negócio, com certeza pensava que eu não ia lembrar de nada no dia seguinte… mesmo que perdesse, ainda sairia rico. A polícia acabou localizando a corrida. Estava chovendo muito forte e, durante a perseguição, Hector perdeu a direção, acertando em cheio um poste. Foi uma colisão muito forte, o carro poderia ter explodido. Não deu para salvar nada.
"Eu não fugi como todo mundo. Não estava preocupado por já ter passagem… O carro estava em meu nome, mas eu não tinha culpa sobre o acidente. Demorou um pouco para encontrarem testemunhas dispostas a falar que o Hector entrou na corrida por vontade própria. Enquanto isso, eu fiquei detido. A única coisa que meu pai fez foi pagar minha passagem de volta.
_E Hector?
_Passou um tempo na UTI, não consegui visitá-lo. Não sei se ia querer vê-lo, de qualquer modo. Assim que minha situação com a polícia foi resolvida, eu tive de ir embora. Ele estava de cinto de segurança, não ficou com sequelas. Se ele tivesse morrido, não sei o que ia acontecer.
Ela respirou fundo, tensa, pálida. Tinha enxergado tudo com os olhos da imaginação. O tom de Heero era impenitente e impudente. Era como se contasse uma história amortecida.
_Saiu em todos os jornais. –ele destacou e sacudiu o seu copo vazio, de repente sentindo falta de molhar a garganta. Respirou fundo, cansado, vazio, e olhou para baixo.
_Aqui também? –e as sobrancelhas dela estavam franzidas.
_Acho que só alguma nota na imprensa marrom. Mas lá foi um grande acontecimento.
_E você contou para mais alguém?
Ele sacudiu a cabeça negativamente. Akane deveria saber, mas sempre fingiu ignorar tudo. Também ela não deve ter falado nada para ninguém e apagado os boatos que a alcançavam. Era boa com isso, seu jeito de comandar. Duo com certeza sabia, amava ler as fofocas, e devia ter espalhado para os demais amigos. De todo o jeito, nenhum deles se achava na necessidade ou no direito de abordar o fato. Não era nada chocante demais também. Tinham seus próprios históricos de mau-comportamento. Seu pai sabia de tudo, a polícia mesmo explicou, sua mãe não devia saber totalmente. Os outros só sabiam mesmo falar do que ele tinha feito antes, nunca entendeu que prazer derivavam em espantar-se ou glorificar seus desvios de conduta.
Relena sorriu retraída, banhando-o com a luz lunar de seus olhos. Não o julgava, não produzia opinião. Considerava que nada que falasse faria diferença. Suspirou. Só estava contente em saber que ele desejara contar para ela, que quisera incluí-la até em algo que ele preferia sepultar. Estava satisfeita de estar ali onde ele nunca trouxera ninguém, onde gostava de se esconder. Ela bastava para ele e isso era tudo para ela.
Naquela noite de Verão quando seus olhares se cruzaram pela primeira vez, quando o nome dele estava na boca de todos, ela soube que não haveria ninguém mais interessante no mundo. Ele era toxicamente intrigante, ele demandava atenção de um jeito escuro e perigoso. Era como se ele, de seu jeito distorcido e depreciativo, estivesse pedindo ajuda para se purificar. Só agora ela entendia porque ficara tão presa àquele enigma. Ele guardava muitos segredos, mas para ela fora transparente desde o primeiro dia. A paciência e resiliência que foi exigido dela era o que ele tanto temia não poder saldar. Contanto que ele a amasse daquele jeito então, contanto que ele a considerasse como fazia então, não lhe devia nada. Era o que ela queria.
_Tudo isso já passou. –e ela disse o óbvio, mas no timbre dela soava como o melhor alento.
_Sim, mas você precisava saber. –só que ele não sabia explicar o porquê. Ou tinha que tirar aquilo do peito ou devia a ela a explicação do que precisamente tinha sido a motivação de seu castigo.
_Obrigada. –e seu sorriso ficou mais sereno. Ele ficou olhando-a com tímida veneração, indagando-se com que olhos ela o veria então. Aguardou um instante, mas não notou mudança. Respirou fundo outra vez. Nada melhor do que falar de alguém que já não existia em um lugar que não existia. Era como se tivesse apagado aquele trecho de seu passado, limpado seu histórico, possibilitando novas entradas.
Relena desviou os olhos para o balcão do bar. Depois voltou a atenção para sua bebida.
_Eu não quero mais… –e mexeu levemente em seu copo, pela borda, em direção dele. –Mas já pensei no meu desafio para você. –e já que estavam falando de feitos ousados, mencionou.
Ele aceitou os últimos goles do coquetel dela e depois indagou:
_E qual seria?
_Peça ao barman passar um café, fresquinho.
Ele franziu o rosto um tanto preocupado. Algo simples, mas ali, talvez impossível de acontecer. Mesmo que fosse uma brincadeira boba, ele tinha empenhado todo seu status e não queria falhar. Encheu o peito e levantou, indo até o rapaz responsável pelas misturas.
_Pois não, Yuy?
_Eu quero uma garrafa de água e a conta.
O rapaz procurou a folha de comanda e foi anotando.
_E duas xícaras de café.
_Café?
_Sim, café preto, feito na hora.
O barman paralisou um instante, incerto sobre o quê e como responder.
Heero o ficou encarando de volta, em um jogo de siso. Sentia que ia conseguir, a vitória começou a agitar o seu sangue. Mas não ia deixar nada aparecer, não ia dar esse gosto para ninguém. Mostraria sua insegurança.
_Algum problema? –e estocou monótono, lupino, seu rosto inexpressivo suficientemente assustador para o funcionário do bar. Que maldade.
_Não, senhor, aguarde um instante em sua mesa que já levo o que pediu.
Heero saiu da frente do rapaz, mas o ouviu xingar baixo.
_E então? –Relena também tinha um corado de vencedor no rosto. Os dois estavam curtindo a frivolidade.
_Ele vai trazer. –blefou.
Ela franziu as sobrancelhas, pouco convencida.
_Podia ter pedido algo mais difícil. –e ainda reclamou, desdenhoso, puxando o celular do bolso e conferindo alguma coisa.
_Já é meia-noite? –ela aproveitou para perguntar.
_Dez para uma.
_Nós fugimos de novo… Será que fomos notados?
Ele deu de ombros para não ser mais rude. Não estava nem um pouco interessado. Mas bem que se inquietou ao ver uma mensagem de Akane dizendo que o perdoava por não ficar e despedir-se direito dela. Não iam mais se ver até o Ação de Graças.
_O que foi? –ela percebeu.
_Nada.
E então surgiu o barman. Querendo ou não, ele parecia desconfortável com a bandeja na mão que emprestou do bar lá na frente, exibindo duas xícaras simples, pequenas, mas fumegantes. Também trazia uma garrafa de água e um copo e a folha da conta.
_Aqui está. –fez-se prestativo. Até recolheu os copos vazios dos drinques.
_Eu não acredito. –Relena resmungou. Não deixou o rapaz ir, prendendo-o pelo pulso com gentil pressão. O barman a olhou, por um segundo se preocupou com o que ela ia dizer. E se ela fosse tão grosseira quanto Heero? –Vocês não podem fazer isso. –e ela avisou com o teor de bondade perfeitamente temperado. –Não podem ficar mimando Heero assim. –e o soltou.
_Senhora. –o barman anuiu, sentindo-se divertido sem explicação, mas não quis correr nenhum risco de despertar descontentamento no casal. Afastou-se e voltou ao seu trabalho. Tinha uma história nova para contar.
Relena ainda parecia indignada.
_Não era o que você queria? Seu pequeno capricho está realizado. –e ele pegou uma das xícaras e estendeu para ela.
Ela riu, resistentemente rendida, e bebeu. Não estava adoçado, mas depois do coquetel tão doce era justamente o que desejava.
Totalmente esquecidos do que era a pressa, tomaram o café e depois partilharam o copo de água gelada, feito gregos. Falaram pouco então, apenas comentários breves. Algumas risadas, alguns suspiros. Quitando a conta, deixaram o lugar praticamente junto dos funcionários.
_Chega de abuso de poder, certo? –e ela o advertiu, cordata.
Ele não respondeu. Segurou a mão dela, entrelaçou seus dedos e levou até seus lábios, beijando-a nas costas, de raspão. Relena meneou a cabeça, sabendo estar sendo aliciada.
_Era assim que você conquistava as garotas?
_Não, meu desprezo sempre surtiu um efeito maior. Quanto mais eu as ignorava, mais elas corriam atrás de mim. –e explicou, conformado e científico, um riso entremeando sua voz profunda.
_Meu Deus, você é um monstro! –e Relena gargalhou sendo puxada para dentro do táxi que acabara de obedecer ao sinal de Heero.
_Não foi assim com você? –e ele a importunou, malicioso.
Relena meneou a cabeça sem saber o que dizer. Por fim:
_Não. –e ele sabia bem que essa era a verdade. Entre os dois fora muito mais intricado, colorido, surpreendente.
Depois que Heero deu o endereço, os dois encostaram-se ao banco e ficaram se admirando, as mãos sempre dadas de dedos enroscados, ambos tranquilos, enlevados, um pouco bêbados. Relena sorria e mordia o lábio inferior com pouca pressão, este sempre se escapava de seus dentes.
A viagem de volta para casa fora curta, mas era apenas a impressão deles. Estavam tão mergulhados um no outro que o tempo deixara de ser significante.
Quando entraram no elevador, Relena mal tinha sinalizado o andar e foi cercada por Heero. Ele a colocou gentilmente contra uma das paredes, exibindo seu mais altaneiro sorriso. Baixou o rosto bem perto do dela, que riu, e a sombra que ele fazia não impediu seus olhos de brilharem em sintonia. Insinuando seu corpo contra o dele, ela sentiu-o acariciar com os lábios cálidos a curva fluída formada do encontro de seu pescoço e ombro.
_Que perfume está usando? –e roubou-lhe um fito.
_Yves Saint Laurent. –ela murmurou com pouca ênfase, sua voz escapando sussurrada. Distraía-se com seus olhos tão dentro um do outro e sua respiração começava a ficar sufocada. Sorriu, ainda assim.
_Rosas? –ele pediu confirmação, mas era óbvio. Ela não poderia escolher melhor já que não havia aroma mais angélico. As mãos dele encontraram pouso nos ossos do quadril dela e suas testas se encostaram. Com aquele sapato, Relena ficava na altura perfeita para ele.
_Sim. –ela respondeu então quase sem som, as maçãs da face enrubescendo de expectativa.
E depois de trocarem um olhar ardente, trocaram um beijo intenso, longo, cuidadoso. Ainda havia um resquício do amargor do café, deixando-os alerta, enriquecendo as sensações. Murmúrios de prazer pontuavam o silêncio secreto do pequeno espaço. Ele a segurou pela cintura e ela abandonou seu peso. Não era apenas um arrebatamento de amor, era uma revelação de felicidade, de vontade de fazer durar para sempre.
O elevador se abriu, mas eles não se incomodaram em sair do lugar. Não havia nada que quisessem mais do que estar abraçados, cobrindo-se de beijos, reafirmando uma paixão que jamais seria esquecida.
A porta do elevador fechou minutos depois, desapontada. O transporte manteve-se imóvel, entretanto.
Relena abriu os olhos com o ruído, sentindo-se segurada pelas pernas, as mãos dele carinhosamente sustentando seu quadril. Escapou de um beijo com um suspiro satisfeito.
Heero também acabou por despertar do enlevo e olhou para a porta fechada, folgando seu agarre, ofegando demoradamente sobre a garganta dela, provocante, ferino.
Antes que o elevador fosse acionado por alguém e eles tivessem de ser flagrados, separaram-se suavemente e, apertando de novo o número do andar, Heero fez o elevador se abrir. Relena empurrou a porta e passou na frente, parando logo depois para tirar seus sapatos dourados. Ele a seguiu de perto, segurou os sapatos dela ao aguardá-la destrancar a porta.
Com lentidão, ela caminhou até a poltrona e jogou sua bolsa nela. Ficou parada ali, apoiada no alto do encosto do móvel, sentindo a palpitação alucinada de seu coração. Deu um sorriso sereno, respirou fundo, sobre o ombro ouviu Heero cerrar a porta.
Heero colocou os sapatos junto à cômoda no corredor, cuidadosamente fora do caminho. Estacou um instante e olhou para ela. Com um movimento preciso, ela encontrou o interruptor de uma luminária, e o novo facho de luz desenhou apenas metade das silhuetas do ambiente. Ele conseguiu divisar os ombros dela se agitarem quando ela tomou fôlego. Depois, uma mão foi lenta até a nuca. Os dedos se reuniram ali por um mero instante, feito acudissem a um pequeno desconforto.
O olhar dele era tal qual a chama de uma vela pairando sobre sua pele. Ouviu seus passos, não teve tempo de pôr-se toda de frente para ele, e ali, com a diferença da altura, acabou deitando a cabeça no peito dele, abraçada pela cintura. Ficou admirada que o coração dele também batia rápido ainda, ficou confortável, sentindo a gola do paletó com os dedos. Ele a envolveu toda com seu corpo, temendo de repente que ela pudesse se desfazer no ar.
Tinham passado muitos momentos juntos, mas nunca tinham se sentido tão próximos. Algo marcante tinha acontecido entre eles, não saberiam bem explicar, só sentir. De repente, aquele abraço começou a significar toda a vida. Estariam desnorteados se tivessem de cortar seus laços.
Heero seguia perguntando-se por que. Ele sabia que ia perguntar-se sempre, até tinha orgulho de si mesmo por não poder se conformar com aquele sentimento. Fora construído tão aos poucos, como pequenas pinceladas em uma tela, mas agora formavam uma imagem final precisa e rica. Ele admirava aquela obra, sem medo de aceitar aquele sentimento, querendo mais que nunca incendê-lo. Pela primeira vez sentia-se digno e encontrara algo que desejava proteger e entesourar com todas as suas forças.
Sua vida deixara de ser vazia, seus dias se tornaram importantes. Desejava causar esse mesmo efeito em Relena.
E mais tarde, acolhidos pelos lençóis revirados, incomodados pelos cabelos bagunçados, sentindo o corpo agradavelmente extenuado e os pensamentos lassos como seus sorrisos, eles murmuraram planos um para o outro, aspirações para um futuro tão certo e tão duradouro. Sem medo. Cheio de amor.
Suas vozes se entrelaçavam como os beijos de instantes atrás, suas aspirações se completavam como as mãos cujos dedos se enroscavam continuamente. Depois caíam em muda latência, separando um momento para imaginar tudo o que queriam conquistar ainda. Havia muito. Estavam preparados depois de tão longa jornada. Enfim tinham chegado ao lugar reservado para eles. Um novo ponto de partida. E qualquer risco que eles devessem correr, correriam juntos.
Olá! Espero que tenham gostado de ler este que foi o último capítulo da fanfic "Tentando a Sorte".
É difícil acreditar que finalmente está concluída depois de quase sete anos. É difícil mesmo de acreditar que todo esse tempo passou. Passou rápido? Passou devagar? Quem é que pode dizer com certeza?
Para vocês leitores talvez tenha passado meio devagar. Eu imagino que demorei demais para chegar aqui. De qualquer forma, espero do fundo do meu coração que tenha valido a pena. Para mim com certeza, valeu. Eu demorei muito mais escrevi cada palavra com amor, com cuidado, me esforcei para caprichar ao máximo e entregar o melhor possível para vocês, para mim.
Durante esses anos todos eu mudei muito e a fic deve ter mudado comigo. É complicado também manter um mesmo tom e voz em um trabalho tão longo.
Eu sei que a história não é perfeita, tem seus furos, tem seus momentos repetitivos, tem seus trechos tediosos. Mas ainda assim, eu não voltaria atrás em nenhum momento. Este é o maior projeto que eu já concluí e sempre vou ter orgulho dele, até mesmo de seus defeitos.
Sabe que dá um pouco de medo pensar que foi tão fácil escrever este último capítulo. Espero que ele esteja à altura de toda a obra.
Agora, eu quero agradecer de coração a cada um que seguiu essa fic, leu, postou uma review, reclamou, elogiou, criticou, se frustrou, enfim, que teve paciência de estar comigo todo esse tempo. Já deixo também agradecimentos sinceros a quem um dia ainda vai ler, ou recuperou o ânimo de voltar a ler ao perceber que a fic foi concluída.
Muito obrigada à CyT, Jessica Yoko, Lica, Kasugano Midori-chan, Miyavi Kikumaru (Suss), Motoko Li e Nike-chan, que foram minha leitoras mais frequentes.
Muito obrigada à Akari, Arethahiwatari, Estrella Lunacharski, Fuyutsuki Kasumi, Midori, Rayara, Rowanna Ravenscar, Utau-san, e ainda outras leitoras que postaram reviews ao longo da publicação.
Todo mundo que leu fez parte da história e pode ter certeza que estou muito contente com seu apoio, sua presença, sua companhia. Agradeço muito pelo tempo gasto comigo.
E o futuro?
Vocês estão convidados a acompanhar meu novo projeto, o romance "Pássaro de Fogo", no qual vou começar a trabalhar agora.
Também, dentro desses dias, vou iniciar o projeto "Endless Duel", uma fic de Gundam Wing de universo alternativo medieval.
O projeto "Contos de Wing" vai ser retomado com o conto de fadas de Trowa.
E as duas back stories de Dante e Athina e Duo e Akane vem como pequenas ampliações e continuações do romance principal "Tentando a Sorte".
Essas são as novidades planejadas e e ficaria muito contente de rever todos vocês lá e novamente contar com sua preciosa companhia.
Quem quiser visitar, "Tentando a Sorte" tem um tumblr que continuará ativo. O endereço está no meu profile.
Assim, agradeço mais uma vez e me despeço!
Fico no aguardo de suas reviews, suas impressões, seus comentários.
Beijos e abraços!
Amo vocês!
A autora.
17.04.2016