Dr. Crow não podia negar que se sentia um pouco inquieto. Todos têm dias em que se perguntam porquê escolheram ser isso ou ser aquilo: aquele era o seu.
Enquanto caminhava pelos corredores melancólicos do Asilo Arkham, o médico considerava o que o levara a se tornar psiquiatra. Na faculdade queria melhorar o mundo, ajudar pessoas e deixá-las sadias. Mas suas ilusões haviam se desfeito ao longo dos anos: alguns sujeitos simplesmente não podiam ser curados.
Ainda andando, ele suspirou e puxou um gravador do bolso de seu avental branco. Apertou o botão de gravar e posicionou o objeto próximo ao rosto.
- Este é Dr. Crow e hoje é dia 6 de agosto. Paciente: nome desconhecido. Atende por "Coringa". Primeira sessão.
Agora o médico se aproximava da sala onde deveria encontrar seu paciente pela primeira vez. Parou em frente à porta e passou a mão pelos cabelos grisalhos. Realmente, aquele era um péssimo dia para ser psiquiatra. Bater um papo com o infame Coringa não lhe parecia um trabalho muito divertido...
Ignorando seu próprio desconforto, Crow deu um leve aceno de cabeça para o seguranca parado no corredor e passou seu cartão de acesso pelo leitor - a fechadura se destrancou automaticamente.
A sala estava bem iluminada. Depois de passar por uma reforma, o hospital se tornara um lugar menos sombrio. Finalmente haviam convencido o velho e teimoso diretor Jeremiah Arkham que janelas amplas, sol e claridade facilitariam a recuperação dos pacientes.
Agora, à frente de Crow, estava uma mesa e duas cadeiras - uma das quais já ocupada. O homem sentado parecia abatido. O doutor mal o reconheceria como o homicida psicopata da tv se não fosse pelas cicatrizes. Considerou que, sem a maquiagem, o paciente não invocava mais o terror habitual. Não até levantar os olhos, pelo menos. Seus olhos continham um brilho escuro, indecifrável.
- Bom dia, Doutor. - saudou Coringa, passando a lingua pelos lábios. Os calmantes o haviam enfraquecido, e ele não sorriu como teria feito normalmente. Apesar de suas mãos estarem presas, Crow duvidou que o homem pudesse fazer algo contra ele.
- Bom dia. - respondeu o outro, sentando-se e colocando o gravador sobre a mesa. Coringa seguiu cada movimento, porém seus olhos se demoraram alguns segundos a mais sobre o aparelho. - Como tem passado?
- Ah, as férias têm sido ótimas, doutor. - respondeu o paciente. Seu tom de voz sugeria o contrário, no entanto.
Impassível, Crow se remexeu na cadeira. Ansioso por terminar o que acabara de começar, decidiu partir logo para perguntas que considerava mais relevantes.
- Sr. Coringa, o senhor gosta de palhaços?