Título: REFLEXOS DA ALMA
Autora: Samantha
Casal: Harry Potter e Draco Malfoy
Classificação: Nc - 17
Resumo: Draco nunca imaginou que poderia mudar tanto. Harry nunca pensou que duas pessoas consideradas opostas pudessem ser tão parecidas.
Avisos: Slash e Lemon.
Beta: Ivana, que tem uma paciência inesgotável com essa principiante
Disclaimer: Estes personagens pertencem a J.k. Rowling, só me divirto com eles.
Capítulo 01
Estava começando o sétimo ano em Hogwarts. Draco Malfoy se encontrava em seu dormitório na Sonserina. Seus colegas dormiam e somente ele continuava acordado. Os olhos perdidos no vazio, pensando. Draco não sabia há quanto tempo estava deitado, sem conseguir pregar os olhos. Não conseguia identificar o que sentia. "Estava enojado? Apavorado? Revoltado?" Não sabia se era tudo isso junto ou um pouco de cada. Pela primeira vez, ele não sabia.
Eu! Draco Malfoy! Que sempre consegui me manter frio, indiferente, apenas poder e ambição me moviam. Ser um comensal nunca foi minha escolha, sempre foi o meu destino. Ouço isso desde que me conheço por gente. Lucius sempre fez questão de me falar isso e eu nunca questionei. Sequer pensava sobre o assunto. Somente... Somente aceitei, sem discutir, sem raciocinar. E depois, veio aquele final de ano. O final do torneio, Potter à beira do descontrole agarrado ao Diggory... Morto! Um aluno morto e o ministério querendo abafar tudo. Depois, aquela confusão no ministério e a morte de Black.
Draco ainda estava chocado. Tudo por que Lucius havia resolvido levá-lo durante as férias para conhecer o Lord que havia ressurgido. O espanto do garoto quando Lucius o colocou frente a frente com aquele... Com aquilo! Não pode acreditar! Ele não sabia como definir, mas não dava para se imaginar obedecendo cegamente àquele insano, psicopata! Ele ficou apavorado! Começou a entender o que seria a vida dele se fosse subordinado àquela coisa e não era isso que ele tinha em mente para si. Mas ele havia se controlado bem, ninguém havia percebido. Foi aí que começou a pensar em Potter. Ficou impressionado e, ao mesmo tempo, surpreso, pensando em tudo que ele já devia ter enfrentado, em quantas vezes já o fizera, principalmente nos últimos três anos. E escapara e conseguira conservar o equilíbrio mental, o equilíbrio emocional...
É, o "testa rachada" é forte, mais do que eu poderia imaginar, tenho que reconhecer...
Infelizmente, isso ainda não foi tudo. Lucius realmente tinha se superado. Resolvera levá-lo (escondido, é claro; achando que ele se entusiasmaria), em um dos ataques dos comensais. Um ataque a um bairro bruxo em Londres. Eles tinham ido arrasar uma família que se recusara a servir ao Lorde das Trevas.
UM BAIRRO BRUXO! Uma Família Bruxa e, ainda por cima, de sangue-puro. Por Merlin! Ainda bem que ainda não posso ser comensal, não antes de completar dezessete anos, porque as atrocidades que eu fui obrigado a assistir enquanto eles torturavam e matavam os pais daquela família, dariam para eu vomitar por uma semana. Mas vê-los torturando crianças de menos de cinco anos, foi demais para os meus olhos e para o meu cérebro. Os gritos... O choro... Foi a primeira vez que eu tive um contato tão forte, tão de perto com a tortura e a morte. Senti, pela primeira vez, algo diferente de indiferença e frieza. Tanto que quase agradeci aos Deuses, quando vi vários Aurores aparatando, ali no meio daquela carnificina...
Draco ainda não sabia nem como e nem porque reagira de um jeito tão diverso do seu modo de ser. Ele nem teve tempo de pensar.
Saiu do esconderijo onde estava e correu em direção às crianças que estavam desacordadas, sentiu que precisava salvá-las, tinha que tirá-las de lá. Olhou para os pais delas assassinados, na frente delas... Até aquele momento não tinha conseguido entender o que o movera, talvez tenha sido apenas o instinto ou o choqueEle as tirou de lá e as levou para o Caldeirão Furado via flu, pela primeira lareira que encontrou. Mandou uma coruja para o Professor Snape contando o que aconteceu, o que ele tinha feito e onde estava e deixou que ele providenciasse todo o resto.
E agora? Agora estou cansado demais... Muito cansado. Cansado de pensar... Cansado de lembrar... De tentar entender.
Finalmente, o cansaço o venceu. Draco Malfoy adormeceu. Um sono sem sonhos, sem pesadelos. Apenas adormeceu profundamente.
oOo
Um moreno de olhos verdes caminha lentamente pelos corredores, pensando em sua última conversa com o professor Dumbledore enquanto se dirige à torre da Grifinória.
Não é possível, difícil de acreditar. E ele ainda tem a coragem de dizer que tudo vai depender somente de mim. Mas como?
- "Observar..." - ele disse. - Observar e seguir meu coração.
Como se fosse fácil! Nós fomos inimigos desde o primeiro dia, como posso passar por cima desses seis anos? Se eu for seguir meu coração...
-"As situações e as pessoas nem sempre são como parecem ser. Às vezes, temos de ler nas entrelinhas."
Só mesmo o professor Dumbledore para me dizer uma coisa dessas...
Parou em frente ao quadro da mulher gorda e, dizendo a senha, entrou. Mal colocou os pés no salão comunal, Ron e Hermione levantaram-se de suas poltronas ansiosos e curiosos.
- E aí, Harry? O que o diretor queria de tão urgente para chamá-lo na sala dele logo após o banquete?
- Calma, Ron. Deixe o Harry respirar. Ele já vai contar. Não é, Harry?
- Claro, Mione, embora eu ache que vocês não vão acreditar. Era sobre o Malfoy.
- Sobre a doninha quicante? - Ron sorriu com escárnio. - O que poderia ser tão importante?
Hermione olhou feio para o namorado, fazendo com que ele se calasse. E Harry falou sobre tudo que Dumbledore tinha lhe contado, menos sobre a parte "de tudo depender somente dele". Isso, ele ainda não estava preparado para falar, precisava absorver o significado.
- Incrível! Se não fosse o próprio Dumbledore que tivesse lhe contado tudo isso, eu não acreditaria numa só palavra!
- Se não foi tudo um plano bem armado pela doninha platinada... - Rony resmungou mal humorado.
- Pelo que Dumbledore disse, foi apenas um impulso. Foi tudo muito rápido para ser planejado e nem era para ele estar lá. Ele disse que Lucius cometeu uma enorme imprudência, colocou Malfoy em risco. Dumbledore pediu que nós o observássemos com bastante atenção. Mas agora estou cansado, essa história já está rodando na minha cabeça, amanhã nós pensamos nisso. Boa noite, Ron, Mione.
- Boa noite, Harry - eles responderam juntos.
oOo
Muito, muito longe, ele ouvia uma voz chamando.
- Draco. DRACO. Acorde, Draco. Já estamos atrasados. Quase não vai dar para tomarmos o café da manhã.
- Ah! Blaise me deixa dormir... - ele murmurou, com os olhos ainda fechados, cheio de sono.
- Mas Draco, a primeira aula é transfiguração, aula dupla com a McGonagall, não dá pra faltar!
- Mas eu fiquei mais da metade da noite sem conseguir dormir. Blaise, me deixa em paz! - Mas Blaise continuou a cutucá-lo - Ahhh!!! Está bem, está bem!! Já estou indo! - Levantou emburrado e saiu batendo o pé a caminho do banheiro.
- O que há com você afinal? Nunca vi você perder uma só noite de sono por coisa alguma. Isso é muito estranho. Draco? - Blaise não obteve resposta. - Espero você no salão principal, ok?
- TÁÁÁÁ! - Draco gritou irritado e se foi a caminho do chuveiro, resmungando com completo mau-humor.
Draco tomou uma ducha fria para poder despertar, enfiou uma roupa rapidamente, pegou os livros e se encaminhou para o café da manhã, ainda exausto do dia anterior.
Mal teve tempo de engolir qualquer coisa e se encaminhar para a sala de aula. Perdeu pontos para sonserina por não estar prestando atenção na aula e ficou ainda mais furioso, como se isso fosse possível.
Mas que droga!, pensoubatendo o pé impaciente. Ele não conseguia se concentrar, ora por se lembrar dos últimos acontecimentos e das suas reações a eles ora pelo cansaço que não o largava e o deixava quase cochilando em plena sala de aula. Precisava que os colegas o ficassem cutucando a toda hora para que não dormisse sentado. E ainda por cima tinha aquela sensação de estar sendo vigiado.
A aula seguinte era de poções. Encaminhou-se para as masmorras com desânimo, entrou por último na sala e sentou-se no primeiro lugar vago que viu, sem prestar a menor atenção em quem estava do seu lado. Logo, o professor Snape entrou, batendo a porta e pedindo silêncio.
- Peguem os pergaminhos para anotar os ingredientes da poção que eu vou passar. Anotem com atenção, os ingredientes estão no armário à sua direita. Podem começar que o tempo hoje é curto.
- Draco. - ele escutou uma voz o chamando. - Draco! - um cutucão em seu ombro fez com que ele se sobressaltasse.
- O que é...? Ah! Pansy. O que foi?
- Comece a anotar os ingredientes enquanto eu vou buscá-los ali no armário. Como o professor disse, o tempo hoje é curto, portanto fica esperto. Você está quase dormindo! O que há com você?
- Como se eu soubesse. Eu lhe diria se fosse possível. - ele resmungou em resposta e, com um suspiro cansado, passou a anotar os ingredientes da poção. Que ironia! Uma Poção do Sono.
- Agora, enquanto eu pico os ingredientes, você vai misturando e preparando a poção no caldeirão. Você sempre foi melhor em poções que eu. Basta ficar acordado e prestar atenção.
- Sim, mamãe. - Draco respondeu irritado.
Mas ele não conseguia se concentrar. Tentava prestar mais atenção ao caldeirão, mas estava difícil. De repente, os sons da sala foram ficando distantes. E, então, ele ouviu alguém chamando.
- Sr. Malfoy. SR. MALFOY! O que está havendo com o senhor, que parece estar em outro planeta?
- Desculpe, professor, mas não pude dormir direito essa noite e não estou conseguindo me manter de olhos abertos e nem me concentrar nas aulas.
- Venha à minha sala depois do jantar. Eu preciso ter uma conversa com o senhor. Os alunos estão dispensados.
Draco pousou os cotovelos na mesa e afundou o rosto entre as mãos desanimado. Sentiu-se observado e levantou os olhos para encontrar Pansy e Blaise o encarando preocupados. Levantou-se energicamente, a irritação no limite, pegou suas coisas e marchou para fora em direção ao salão principal, pensou em comer um pouco antes de cair na cama. Sentou-se à mesa, ladeado por seus colegas Pansy e Blaise que o observavam pelo canto dos olhos e de vez em quanto trocavam olhares entre si.
Começou a comer distraidamente, não pensando em nada propriamente quando sentiu sua nuca se arrepiar. Era como se estivesse sendo observado. O instinto lhe dizia isso. Percorreu todo o salão com os olhos disfarçadamente, não viu nada de diferente, ninguém olhando para ele.
Continuou a comer, agora com a mente alerta, de vez em quando olhando todo o salão por entre a franja que lhe escondia os olhos. Numa dessas vezes, pareceu-lhe ver Potter desviando o olhar rapidamente. Prestou mais atenção nele. Percebeu que era Potter quem o observava discretamente. O que será que isso significava?
Chegou ao dormitório, jogou o material em um canto e literalmente caiu na cama, de roupa e tudo. Estava tão cansado, que desistiu de assistir às aulas da tarde. Dormiu quase que instantaneamente. Acordou umas quatro horas depois, espreguiçando languidamente, como um gato, virou-se na cama preguiçosamente. Sentia-se descansado. Resolveu tomar uma ducha e dar uma olhada nas matérias da manhã, já que, naquelas aulas, ele esteve imprestável. Tomou o banho, enrolou-se em seu roupão e deu uma olhada no espelho. Estava com uma aparência bem melhor, pelo menos não tinha mais aquelas negras e malditas olheiras.
Sentou-se na sua escrivaninha e começou uma revisão nas matérias daquela manhã. Estudou quase até a hora do jantar. Então, se trocou e se encaminhou para o salão principal. Percebeu, desta vez com mais facilidade, que era observado não só pelo Santo Potter, mas também pelo Pobretão e a Sangue-ruim. Aquilo era muito estranho. Teve que morder a língua para não lançar um comentário viperino para aquele trio irritantemente xereta, pelo menos por enquanto.
Terminou de comer rapidamente, levantou-se de seu lugar, elegante e esnobe como sempre, seguiu para as masmorras sem dar atenção para mais nada nem ninguém, indo direto para a sala do professor Snape. Bateu na porta e entrou. Seu professor o aguardava sentado à sua mesa.
- Então, Sr. Malfoy, está melhor agora?
- Bem melhor agora, professor. Obrigado!
- Sente-se. - disse indicando uma cadeira à sua frente. - Pode me dizer o que está havendo com o senhor?
- Se eu soubesse. O Sr. não é o primeiro a me perguntar isso nas últimas vinte e quatro horas - a angústia estava presente em cada palavra de Draco, apesar do semblante estar frio e controlado agora.
- Draco, você está me surpreendendo. - ele disse deixando a formalidade de lado com uma expressão de espanto no rosto habitualmente fechado.
- Eu sei, também estou surpreso comigo mesmo. Até agora não sei nem como nem porque fiz o que fiz. É como se de repente eu tivesse acordado de um sono profundo. Sinto-me desorientado. Fiquei apavorado ao ver a direção que está tomando a minha vida, sem que eu mexesse um dedo para dar qualquer outro rumo a ela.
- E o que você quer fazer?
- Eu já não sei o que eu quero. Eu nunca pensei no que eu queria. Sempre deixei que Lucius me guiasse, escolhesse, determinasse. - A voz começou a dar sinais que algo não estava bem, cada vez mais alta e agressiva - Mas eu posso lhe dizer agora aquilo o que eu NÃO QUERO. Eu NÃO QUERO ser um Comensal da Morte. Eu NÃO QUERO ter minha vida determinada por um louco psicopata. Eu NÃO QUERO ser um fantoche nas mãos de alguém, que de uma hora pra outra, vai me descartar como se fosse um lixo por puro capricho. Eu não sei como Lucius, sendo tão orgulhoso, tão inteligente, tão poderoso, pode se sujeitar a isso! Eu só sei que eu não posso. EU NÃO POSSO! - disse isso tudo num fôlego só, como se não pudesse concluir o resto do raciocínio se parasse para respirar.
- Eu entendo. Posso compreender como você se sente.
- Será que pode mesmo, professor? - Draco tinha a voz aguda e agressiva, os punhos fechados e os braços retesados ao lado do corpo.
- Sim, Draco, já passei por algo semelhante também, há muito tempo atrás. - Snape o observava preocupado. O esforço de se conter, de manter as aparências estavam deixando a resistência de Draco por um fio - Na época achei que era tarde demais para mim, mas me fizeram ver que nunca é tarde demais, que nós decidimos nosso caminho a partir das nossas escolhas, que sempre é possível mudar.
Draco viu Severus o observando enquanto digeria o conteúdo de suas palavras. À medida que ele refletia, foi ficando um pouco menos tenso, menos agressivo.
- Sevie, eu não sei o que fazer. O que escolher. - Fechou os olhos, cansado, desanimado. As palavras soavam como um gemido, não conseguia controlar o pavor de se ver sem chão, sem rumo, sentia-se perdido.
- Só posso aconselhar que você pense bem e, quando chegar a uma conclusão, dependendo do que decidir, procure o professor Dumbledore. Ele o ajudará a escolher, a resolver o que fazer. O mais importante é você saber o que você quer.
- Vou tentar, Sevie. Vou procurar colocar meus pensamentos em ordem. - levantou-se, tentando recompor a expressão controlada e fria.
- Draco... - ele se virou atendendo ao chamado, já com sua aparência usual, esnobe e arrogante na face - Draco, você sabe que, se precisar, pode confiar em mim. Seu pai e eu, apesar de não concordarmos em vários pontos, somos amigos desde adolescentes. Você sabe que eu nunca o prejudicaria. Afinal, sou seu padrinho, então, você pode contar comigo. Olhe, leve essa poção. É uma poção do sono. Se você não conseguir dormir novamente, tome um gole, mas apenas um gole só. Não vá exagerar.
- Está bem, professor, obrigado. Boa noite.
- Boa noite, Draco.
Draco afastou-se, já sob controle total da expressão de seu rosto, a postura segura, perfeitamente colocada.
Saindo dali, Draco caminhou rapidamente pelos corredores das masmorras fazendo a sua ronda, louco para ir para seu dormitório. Completou a ronda o mais depressa que pôde e encaminhou-se para o Salão Comunal da Sonserina.
- Olhos de Serpente - as pedras da parede se realinharam, abrindo a porta do Salão Comunal.
Já estava tarde, o Salão Comunal estava vazio, mas a lareira ainda estava acesa. Sentou-se em uma das poltronas ao lado dela para refletir, tentar organizar os pensamentos. Recostou-se e fechou os olhos, deixando os pensamentos fluírem.
É uma sensação estranha. Sentir. Eu aprendi duramente, desde bem pequeno que sentir emoções era sinônimo de sofrer e para um Malfoy, então, era sinônimo de fraqueza, por isso fiz questão de bloquear minhas emoções. Eu devia ter mais ou menos uns quatro anos quando descobri o que era ser sozinho. Eu sempre era deixado sozinho ou era por causa dos negócios, das viagens, das compras ou da empolgante vida social. Descobri cedo demais o que era angústia e desesperança.
Ele podia ter tudo o que quisesse, desde que merecesse e, para merecer, deveria obedecer cegamente. Fora ensinado, desde sempre, que não precisava pensar, somente obedecer. Fora treinado nas artes das trevas desde muito cedo, numa disciplina muito rígida. Lucius era muito exigente e só se contentava se ele fosse nada menos que o melhor, afinal ele tinha que corresponder plenamente ao sobrenome Malfoy.
Lucius não admitia fraquezas e, para ele, sentir qualquer coisa era ser fraco. Eu tinha que ser frio, arrogante e orgulhoso. Tive que aprender a secar as lágrimas, engolir as humilhações, sem demonstrar emoção nenhuma em minhas expressões. Trancar o coração e a alma em um cômodo frio, tomado pela escuridão e jogar a chave fora. Aprender que a forma de me relacionar com as outras pessoas era através do medo. Colocar no meu rosto uma máscara de orgulho, de arrogância, de prepotência e indiferença. Em meu vocabulário não existia o termo 'ser amado', apenas 'ser temido'. Só sendo temidos somos respeitados, foi isso que aprendi. Foi isso que Lucius me ensinou; me ensinou a ser um Malfoy, assim como ele.
Então, Lucius o levou aquele ataque e nada o tinha preparado para tudo que ele presenciara. Ver aqueles pais tentando defender seus filhos, de um modo que ele desconhecia, sofrendo as maiores torturas, sendo assassinados na frente dos filhos apenas para protegê-los. As crianças eram tão pequenas. Viram os pais serem torturados e assassinados.
Eu me vi no abandono, no medo e desesperança daquelas crianças. Não pude me imaginar um dia fazendo o mesmo com outras pessoas, com outras crianças. Aquelas cenas abriram as portas de onde eu trancara minha alma, meu coração. Eu não pude mais me conter, minha consciência e minhas emoções despertaram repentinamente e isso me confundia, me consumia, me deixava perdido! Eu tinha sido preparado para tudo, menos para aquela avalanche de emoções e sensações que me assaltavam. Foi como nascer de novo! Tenho que começar a me conhecer outra vez. Tenho que reaprender a viver, rever meus conceitos e meus valores. Ser eu mesmo e não um eco de Lucius ou uma sombra do meu sobrenome, aprender a ser Draco independentemente de ser um Malfoy.
Draco sentiu um arrepio. Estava frio ali, passara muito tempo enquanto ele divagava, na lareira só restavam as brasas agora. Já devia ser quase meia-noite. Uma coruja totalmente negra entrou por uma das aberturas de ventilação e pousou em seu braço beliscando suavemente sua mão.
- Ora! Olá para você também Sombra. - ele disse. Era a coruja de seu pai, mas por que àquela hora? Ele afagou gentilmente a coruja e retirou um envelope de sua pata. Assim que se viu livre da correspondência, a coruja voou, de volta para a noite fria, deixando Draco novamente só. Ele olhou o envelope e reconheceu a letra bem desenhada de sua mãe. Abriu o envelope e tirou de lá um pergaminho cuidadosamente dobrado, abriu e leu.
Meu Filho.
Eu já soube de tudo o que aconteceu. Acho que seu pai realmente cometeu um erro, mas ele teve suas razões. Com muita sorte, nada de grave aconteceu com você e eu espero que tudo esteja bem na escola. Seu pai pede que nos mande notícias regularmente e nos mantenha informados sobre qualquer coisa relevante que ocorra em Hogwarts.
Sua mãe,
Narcissa Malfoy
- É, realmente é bem o jeito dela. Fria e impessoal. Já é tarde. - e murmurando isso de si para si, foi para a cama.
oOo
Na torre da Grifinória algo parecido se passou. Harry desistiu de tentar dormir e desceu para o salão comunal de sua casa, os pensamentos confusos. Sentou-se na poltrona costumeira ao lado da lareira, passeou o olhar pela sala e teve um pequeno sobressalto.
Gina estava sentada no sofá de frente para a lareira, as pernas encolhidas, o rosto e os olhos ainda úmidos perdidos nas chamas. Ela notou a discreta movimentação de Harry pela sala e virou-se para ele.
- O que foi Harry, não consegue dormir? - ela perguntou gentilmente.
Ele a observou com atenção e notou seu rosto fragilizado e os olhos úmidos.
- Não e, ao que parece, você também não, Gina.
- Comigo é o mesmo de sempre: pesadelos. Quando eu acordo dos pesadelos, assustada, eu demoro a dormir de novo. Então, venho para cá e fico olhando o fogo até me acalmar. Mas o que houve com você? Parece preocupado.
- É que eu estou tentando resolver como abordar um problema, mas não sei ainda como começar.
- Você já falou com o Rony e a Mione?
- Já. Mas fica difícil para eles opinarem imparcialmente, já que eles estão muito envolvidos.
- Eu sei como é. Rony não se controla, age e fala sem pensar. Parece que não raciocina. A Hermione tenta controlá-lo, eles começam a discutir e acabam se esquecendo do assunto principal. Se você quiser, posso te ouvir. Quem sabe você falando com calma, comigo, você consegue ordenar as idéias e achar o melhor modo de resolver o problema? Sei que você me acha meio infantil, mas...
- Calma, não é isso. Não é que eu ache você infantil. É que não estou acostumado a conversar com mais ninguém que não seja o Rony ou a Mione. - "...Siga o seu coração...", Dumbledore disse. - Mas talvez, seja isso mesmo que eu esteja precisando. Conversar com alguém, com você. É isso que eu sinto que devo fazer.
- Eu prometo ouvir tudo que você tem para dizer e só opinar se você quiser. Somente se você me pedir.
E Harry falou. Contou tudo que Dumbledore disse. Sobre o que Lucius fizera, sobre a visita de Draco a Voldemort, sobre o ataque dos comensais e sobre o que Draco fizera, como ele salvara as crianças. Contou até sobre o que Dumbledore disse, que tudo dependia somente dele, de como ele agiria em relação a Draco.
- Eu não consigo entender, Gina.. Como assim: "como eu vou agir em relação a Draco"?
- Eu acho, Harry, que ele quis dizer que a mudança em Draco já começou. Ele sempre teve uma visão errada sobre você, via uma imagem distorcida. Observe-o, como se você estivesse vendo o Draco pela primeira vez. Tente não pensar no Draco que você conhece, no inferno que ele os fez passar durante esses seis anos. Talvez as situações e as pessoas não sejam exatamente como nós estamos vendo.Talvez Draco não seja exatamente como aparenta ser. Ou como ele quer aparentar ser.
Harry estava surpreso com o raciocínio de Gina. Ela tinha amadurecido muito desde que ele a conhecera e ele não tinha percebido. Ele ficou calado por algum tempo absorvendo o que Gina dissera. Não seria fácil passar por cima de seis anos, mas Dumbledore sempre dizia que todos merecem uma chance de mudar, de escolher e ele precisava tentar, se isso fosse ajudá-lo a derrotar as trevas, a evitar que mais uma vida se perdesse nelas.
- Nunca pensei nisso por esse lado... - "observar, Harry, e seguir seu coração..." - mas não custa tentar e fazer um esforço. Obrigado Gina. Foi muito bom falar com você. Não sabe o quanto me ajudou falar, ouvir e ser ouvido. Você se tornou uma garota muito sensata. Você está mais calma? Acha que consegue dormir agora? - ele disse enquanto caminhava até ela e lhe oferecia a mão.
Ela aceitou a gentileza, apoiou-se na mão de Harry e se levantou.
- Claro. Essa conversa fez muito bem para mim também, Harry. Fez com que eu me esquecesse da sensação ruim dos meus pesadelos. Já estou mais calma agora, acho que já dá para dormir mais tranqüila.
Harry deu um abraço carinhoso em Gina.
- Obrigado Gina.
Harry a acompanhou até as escadas que subiam para o dormitório feminino e ficou observando enquanto ela ia para o quarto. Depois se encaminhou para sua cama, deitou-se e ficou por alguns momentos ainda refletindo sobre o que Gina dissera. Então fechou os olhos e adormeceu tranqüilamente.