Título:
Entre as trevas e a luz
Autor: Magalud
Categoria: Het
Gênero:
Drama, Aventura
Classificação: PG-13, mas só
por causa de uns palavrões
Personagens ou Casais:
SS/Personagem Original
Resumo: Uma surpresa aguarda Kingsley
Shacklebolt. A partir daí, nunca mais nada será o
mesmo.
Spoilers: Imensos para o Half-Blood Prince, mas os spoilers
são para todos os seis livros e todos os quatro filmes. Você
foi avisado.
Disclaimer: Reconheceu alguém? Não
é meu. Mas se está vendo alguém novo, é
meu. Mas o que não falta é gente nova!
Alertas:
Spoilers, uai!
Agradecimentos: Jana leu a primeira parte. Ivi e
Bela-chan leram tudo, corrigiram tudo! Merecem prêmios de
resistência só por isso.
Avisos: Essa fic tem como
prólogo e pano de fundo outras duas chamadas "Chá
com Moreen" e "Jantares Silenciosos". Você não
precisa ler para entender essa aqui, mas eu vou amar você se
ler! E não se esqueça: essa foi concebida ANTES das
outras duas.
Observação: A homenagem a Machado de
Assis foi inconsciente, eu juro!
Dedicação: Essa fic é dedicada a Elisabeth Snape, uma pessoa que faz muita falta no fandom. Eu acho que ela gostaria dessa fic.
Notas: Essa fic participou do SnapeFest 2006, em homenagem ao Half-Blood Prince.
Parte I – O fator Shacklebolt
Capítulo 1 – O gabinete de Downing Street, 10
As coisas pareciam estar chegando a uma trégua, finalmente. Kingsley Shacklebolt não tinha ilusões que em breve o intervalo de paz seria quebrado. Ele suspirou e olhou para fora, observando a rua Downing. O mítico número 10 daquela rua mal suspeitava das ameaças sutis que cercavam o mundo Muggle. Mas nem o mito do endereço onde se localizava a sede do governo britânico poderia fazer a diferença. Havia complicações políticas cercando o primeiro-ministro Muggle e também algumas situações delicadas de assuntos internacionais com os alemães. Com alguma sorte, os franceses poderiam intermediar a disputa.
Depois do incêndio que matara uma família inteira no interior, Kingsley temia o pior. O Ministério da Magia concluíra que tinha sido um ataque de Comensais. Os malditos não tinham desistido da luta nem depois da queda de Lord Voldemort. Sim, porque Voldemort havia sido derrotado por Harry Potter. De novo, diga-se de passagem. Dumbledore tinha ajudado mesmo de além do túmulo.
Mas agora era preciso lidar com a "limpeza". E com os recalcitrantes. Eles sabiam quantos Comensais não tinham sido localizados, só não sabiam quantos tinham fugido ou morrido. E o ministro Rufus Scrimgeour não descansaria enquanto não soubesse o destino de cada um deles, um por um.
Foi interrompido pela entrada de seu novo assistente. Larry alguma coisa, um funcionário público de último escalão que tinha sido designado para assisti-lo há cerca de 20 dias, entrou no gabinete após uma respeitosa batidinha na porta.
– Sr. Shacklebolt? Desculpe interromper, mas há uma moça aqui para vê-lo. Diz que o assunto é particular.
– Uma moça? – Kingsley franziu o cenho e Larry discretamente saiu da frente da porta para que ele pudesse entrever a moça em questão esperando na ante-sala.
Estava sentada no sofá, e o mago viu apenas que ela possuía os cabelos avermelhados lisos com cachos suaves na ponta, o rosto jovem tentando espiar para dentro do gabinete com uma expressão ansiosa. Era uma completa desconhecida. Nem podia ser diferente: Kingsley não tinha por hábito ter romances com moças Muggles.
Kingsley gesticulou para Larry se aproximar. O rapaz fechou a porta e ouviu:
– Como ela chegou até aqui? Quem é ela?
– Pelo que ela deixou escapar, ela tem procurado pelo senhor há tempos. Não quer ver mais ninguém, falou especificamente em seu nome. Se me permite, parece desesperada.
– Não faço idéia de quem seja – Kingsley estava intrigado. – Ela diz que o assunto é particular?
– Sim, senhor. Eu achei indelicado tentar saber mais – O assistente deu de ombros.
– Entendo, Larry. Vou falar com ela. Ela parece estar querendo pedir algum favor, provavelmente para algum familiar. Se for o caso, é bom deixar de sobreaviso aquele assessor, er, Cummings, na Casa dos Comuns.
– Vou providenciar, senhor. Algo mais?
– Não, mas espere alguns minutos antes de deixá-la entrar. E fique perto do interfone. Posso precisar de você repentinamente.
– Sim, senhor. Com licença.
Além de todas as preocupações que tinha, Kingsley ainda ia ter que lidar com uma mulher maluca em seu gabinete. Provavelmente indicada por algum político. Estranho que o procurasse. Bom, fosse quem fosse, ele provavelmente a despacharia em tempo recorde.
– Kingsley Shacklebolt?
Ele armou seu melhor sorriso para saudar a moça:
– Entre, por favor, sente-se.
A moça veio apertar-lhe a mão visivelmente grata, os olhos verdes doces e cheios de calor:
– Obrigada por me receber, Sr. Shacklebolt. Nem posso acreditar que finalmente estou falando com o senhor. Venho tentando há tanto tempo, mas falar com um político é tão complicado, ainda mais eu, que não sou parente de ninguém importante...
– A senhora veio até aqui por indicação de alguém? Talvez eu conheça quem indicou meu nome.
– Espero que sim. – Ela não parecia ter 30 anos, ele calculou, e tinha aquele olhar ingênuo e abençoado dos Muggles legítimos. – Quem me recomendou ao senhor foi Severus Snape. Conhece-o, não?
Kingsley usou de seus reflexos de Auror imediatamente para olhar a mulher com mais atenção. Sem demonstrar qualquer emoção, manteve o sorriso e indagou, tentando parecer o mais casual possível:
– A senhora o conhece?
– É meu marido – disse a moça, parecendo emocionada. Kingsley não deixou transparecer o choque diante da informação. – Sou Helena Snape. Ele me pediu para vê-lo como último recurso. Mas... é que... – Ela tentava controlar as fortes emoções, apertando com força a bolsa contra seu corpo. – Eu estou desesperada. Desculpe, Sr. Shacklebolt, mas... – Ela agora tentava sem sucesso controlar as lágrimas. – Mas não sei mais a quem recorrer.
– Por favor, senhora, tenha calma. Aceitaria um chá? Talvez um copo d'água? – Ele tirou uma caixinha de lencinhos de papel na gaveta e colocou-a em cima da mesa, sempre de olho na moça. – Tome.
Ela retirou um, as mãos trêmulas, e secou as lágrimas, parecendo constrangida, engolindo os soluços.
– Mais uma vez me desculpe. Normalmente não sou assim... Mas... é que... Tem sido... muito difícil para mim...
Ela trazia olheiras no rosto e retorcia as mãos muito magras, como se tivesse perdido muito peso rapidamente. Aquilo poderia ser uma encenação muito bem elaborada, pensou Shacklebolt. Até ele descobrir se aquela mulher era uma impostora, ele decidiu manter o papel do político simpático.
– Por que não tenta me inteirar da situação? Vamos ver o que se pode fazer. Diga-me tudo o que puder.
– Meu marido sumiu e eu não sei mais a quem recorrer. Faz tempo desde que eu tive notícias dele, mas isso nunca me preocupou antes. Contudo, desde a morte da tia Moreen, eu perdi o contato com ele.
– Sua tia tinha contato com ele?
– Não, Moreen era tia dele. Irmã de sua mãe Eileen, já falecida.
– Não sabia que Snape tinha uma tia.
– Esse era um segredo – confirmou a moça, agora retorcendo o lencinho de papel nas mãos. – O pai dela a expulsou de casa e a levou a um orfanato quando ela era uma garotinha. Severus também escondeu nossa relação de seu pai e do povo dele.
– O povo dele? A senhora sabe sobre o povo dele?
Ela assentiu, os olhos cheios de confiança:
– Sim. Ele me contou tudo sobre os rom. Ele tinha que manter tudo em segredo para o povo dele não descobrir. Até nosso casamento tinha que ser segredo. Sabe, ele correria risco de vida se alguém descobrisse que ele se casou com uma moça não-rom. Descobri depois que todo aquele não-cigano é chamado por eles de gadjô.
Cigano? Snape tinha dito à moça que ele era cigano?
– Por isso – ela continuou – é que ele escolheu ser professor de Química num internato no interior. Parece que é uma escola muito tradicional, tanto que não aceita professores casados. Ele era obrigado a esconder o fato de que era casado e passava todo o ano escolar no internato. Nós nos comunicávamos através do diretor da escola. Por isso, estou acostumada a ficar sem a companhia de meu marido durante muito tempo. Só nos feriados prolongados ele podia ficar em casa, como Natal, Páscoa... Mas há dois verões ele chegou em casa dizendo que havia uma séria crise e só pôde ficar uns poucos dias. Parecia muito preocupado. Disse que muito provavelmente ele não poderia se comunicar comigo, mas eu deveria contatar Tia Moreen para que ela transmitisse meus recados ao diretor da escola. Se eu não conseguisse falar com ela, deveria contatar diretamente o diretor. Se nem ele eu conseguisse, então, como último recurso, eu deveria tentar vir aqui, à sede do governo, e falar com o senhor, e o senhor me explicaria tudo e que eu poderia confiar no senhor. Foi a última vez que o vi. Verão passado, ele mandou um recado dizendo que as coisas tinham piorado e ele só poderia vir para casa no final do ano escolar. Reiterou as instruções e pediu-me para esperá-lo no verão. Eu esperei. Mas as aulas já terminaram há mais de três meses e ele não deu qualquer notícia. Tia Moreen morreu em outubro passado e eu avisei o diretor de sua morte. Ele me respondeu que passou o recado a Severus, mas meu marido não me respondeu. Há dois meses mandei uma carta para o diretor, mas ele não me respondeu. Mandei mais duas depois disso, sem resposta. Então eu tive que vir vê-lo, Sr. Shacklebolt. O senhor é a minha última esperança de saber algo sobre meu marido. Se não, vou ter que procurar essa escola e ir até lá, por mais que Severus tenha me pedido para não fazer isso. Se nada disso der certo, vou à polícia e aos hospitais... e também aos necrotérios.
Ela inspirou fortemente e Kingsley teve a inspiração de encher um copo d'água e entregar a ela, que aceitou, grata. O Auror ouvira atentamente a história que ela contara e nada indicava que ela estivesse mentindo. Mas as probabilidades eram mínimas. Tudo era tão inacreditável.
– Então conhece o diretor da escola?
– Sim, o nome dele é Albus Dumbledore – ela disse sem hesitar. – Esteve na nossa casa certa ocasião. Eu o adorei, ele é um senhor de idade avançada, mas muito lúcido e excêntrico. Severus ficou nervoso quando soube, provavelmente achando que seu emprego estava ameaçado. Meu marido sempre foi muito protetor com a família. Conhece meu marido, Sr. Shacklebolt?
– Sim, eu o conheço. Por isso estou um tanto espantado. Ele jamais mencionou que tivesse uma família.
– Ele nos manteve escondidos, disse, para nosso próprio bem. O avô dele era um homem poderoso no povo dele e muito terrível. Severus nunca me disse, mas acho que ele pode ser um Príncipe. Sabe como os ciganos têm uma realeza, de reis e príncipes? Acho que por isso Severus temia tanto que nos descobrissem. Ele deve ser um Príncipe.
Oh, droga, pensou Kingsley. Snape tinha contado uma lista de mentiras que parecia aumentar a cada minuto. Ele olhou-a cada vez mais penalizado.
A pobre garota. Enganada por Severus Snape.
Kingsley olhou para ela com outros olhos, procurando analisá-la. Sim, ela era jovem e talvez fosse mais ingênua ainda do que aparentava. Mas seus sentimentos devem ter transparecido, porque ela ergueu a cabeça e olhou para ele, determinada:
– Olhe, não pense que eu sou boba. Normalmente, não sou assim, mas não estou nos meus melhores dias. Sei que Severus tem muitos segredos e ele provavelmente me contou algumas mentiras. Mas foi tudo para nos proteger. Severus me ama, eu sei disso. Mesmo mentindo, sei que ele jamais me abandonaria voluntariamente. Ele não pode vir até mim, posso sentir isso. Ele sabe que eu sou sozinha, que eu não tenho ninguém e ele teria vindo até mim se pudesse. Eu confio nele totalmente.
– Isso é... admirável. Parece ter muita confiança nele. Mas tem certeza de que o conhece mesmo?
– Ah, eu já ia esquecendo. – Ela abriu a bolsa. – Ele me disse que trouxesse uma coisa, que o senhor provavelmente deveria ver.
Entregou um documento e Kingsley examinou-o. Era uma certidão de casamento Muggle, em nome de Severus Prince Snape e Helena Anne Snape, née Sharp, completamente legal. O casamento era verdadeiro.
– Parece que Severus pensou em tudo – disse Kingsley, pensativo. Ele tinha que tomar uma decisão rapidamente. – Confesso estar um pouco surpreso de que ele tenha pedido que viesse me procurar. Não somos particularmente amigos.
– O senhor é minha última esperança. Não faz idéia das milhares de coisas horríveis que me passaram pela cabeça: que o povo dele o seqüestrou, que ele está em coma em algum lugar, que ele possa estar morto... – Ela recomeçou a verter lágrimas.
E Kingsley tomou uma decisão. Uma decisão arriscada, mas seus instintos lhe diziam que era a mais correta.
– Se eu lhe disser onde Severus Snape está, a senhora está disposta a saber de toda a verdade sobre seu marido? Mesmo que isso doa muito e a senhora perca a confiança nele?
– Sabe onde Severus está? – Os olhos verdes brilharam.
– A senhora não respondeu a minha pergunta.
– Sim. – A resposta foi sem hesitação e sem dúvida. – Confio em meu marido. Pode me falar o que tiver que falar sobre ele.
– Não aqui. Vamos para um lugar seguro. Daqui para frente, também terá que confiar em mim. Vou lhe pedir que faça o que eu disser por agora, sem perguntas, e na hora certa suas dúvidas serão respondidas. Isso é de extrema importância. Pode fazer isso?
– Sim. Sim, eu posso. – Ela parecia um pouco assustada, mas por outro lado parecia realmente ter ganhado uma dose de esperança e ânimo. – O senhor foi recomendado por Severus, então ele confia no senhor. Se ele confia, eu confio também.
Imaginando se teria tomado a decisão correta, Kingsley assentiu e dirigiu-se ao interfone:
– Larry?
– Sim, senhor? – veio a voz pelo aparelho.
– Preciso do arquivo da pasta 12GP imediatamente. Cancele todos os meus compromissos de hoje. Preciso que avise Williamson que ficarei o dia fora. Ah, claro, e também passe o recado para o gabinete do Primeiro-Ministro. Infelizmente meu celular está sem bateria e não poderei ser encontrado nas próximas horas. Entendeu tudo ou quer que eu repita alguma coisa?
Ele ainda tinha o dedo pressionado no interfone quando a porta se abriu e Larry entrou, esfogueado, com um volume nas mãos:
– A pasta 12GP, senhor. Transmitirei os recados em seguida.
– Vou precisar sair com a Srta. Sharp para um assunto realmente urgente e inadiável. – Kingsley deixou a pasta na sua mesa enquanto punha o casaco. – Pronta, senhorita?
Ela se ergueu prontamente:
– Sim, Sr. Shacklebolt.
– Então vamos – Ele recolheu a pasta. – Anote os recados, por favor, Larry.
– Sim, senhor. Boa sorte.