Eclipse por Mijan
tradução por Rebecca Mae
"Todas as coisas boas..."
Já era manhã antes mesmo de Draco perceber que havia adormecido e ele levou alguns momentos de desorientação para perceber que a noite anterior não havia sido um sonho. Estava mesmo na ala hospitalar de Hogwarts e Harry dormia a apenas alguns palmos de distância. Virou a cabeça para olhar a seu redor e descobriu que o que o havia acordado em meio ao brilho suave do começo da manhã.
"Professor Dumbledore!", Draco disse em surpresa. Ele remexeu-se, sentando-se. "Er... há quanto tempo está... er..."
"Espionando você?", Dumbledore disse levemente. "Só por alguns momentos. Eu teria te acordado diretamente, mas senti que acordar abruptamente seria um pouco bruto depois do que passou ontem à noite. Não concorda?"
"Ah... er... sim, obrigado." Sempre houvera algo a respeito de Dumbledore um pouco desconcertante e Draco se sentia um pouco sem equilíbrio naquela manhã. Além do mais, ainda estava tentando acordar completamente. "O que veio fazer aqui, senhor?"
"Falar com você e com Harry sobre o que aconteceu, bem como fazer arranjos para sua segurança futura."
"Ah. É. Segurança."
"Nosso tempo é mais curto do que você pode pensar." Dumbledore subitamente soava muito mais sério. "Se aqueles que pretendem machucá-lo atacarem, farão isso cedo e não tarde. A tentativa da srta. Parkinson quase teve efeito, apesar de nossas precauções."
"Atacar... o quê?" Draco sacudiu a cabeça, como se quisesse afastar os últimos vestígios de sono de sua cabeça.
"Mesmo que todos saibam do seu retorno, você não foi visto acordado por ninguém além da srta. Granger, do Sr. Weasley e do Sr. Crabbe e melhor seria se a notícia da sua recuperação não chegasse a ninguém mais. Haverá rumores, é claro, mas enquanto não for visto, será melhor para você. Precisamos de toda precaução. Eu gostaria de vê-lo transferido para uma localidade segura assim que possível."
"Ainda existe isso de 'seguro'?"
"Certamente", Dumbledore disse com uma confiança que surpreendeu Draco. "Temos formas de proteger as pessoas, Draco. Discuti com Professor Snape e, com a aprovação de Harry, temos um lugar no qual você poderia ficar."
"Aprovação de Harry?"
"Explico brevemente. E agora, se puder acordar Harry, eu gostaria de falar com os dois no meu escritório. É mais seguro."
Draco saiu da cama hesitantemente, mantendo um olho em Dumbledore ao fazê-lo. Não gostava dessa discussão crítica. No momento, ele estava nervoso, no limite, e incerto sobre seu futuro inteiro e aqui estava um homem com que ele nunca havia tido uma conversa civilizada, calmamente fazendo comentários críticos sobre levar Draco do pouco que ele ainda tinha. E para longe de Harry.
Harry acordou muito facilmente, o que surpreendeu Draco. Ele murmurou "bom dia" e então ficou em silêncio ao pegar sua varinha e a mochila de viagem que ainda levava pelos cantos como um hábito nervoso. Ele também estava evitando contato visual, mas Draco tentou deixar pra lá julgando ser sonolência matutina ou efeitos colaterais do veneno, mas Harry não parecia sonolento nem letárgico. Ele parecia distraído. Era ainda mais desconcertante não conseguir sequer um sorriso dele. Não era essa a pessoa que, apenas horas atrás, tinha arriscado sua vida para salvar Draco? Não tinha dito que o amava? Não tinha? Draco tentou ignorar esses pensamentos ao encontrar a própria varinha na mesa-de-cabeceira e enfiou-a em seu bolso e acompanhou Harry e Dumbledore conforme eles saíam da enfermaria.
Conforme subiam as escadas, Harry não se virou uma vez sequer para Draco, nem disse outra palavra. Era estranho. Draco teve que se controlar para não segurar Harry e exigir que ao menos olhasse para ele. Precisava saber por que Harry estava agindo tão estranhamente. Draco se sentia sozinho, e embora odiasse admitir, estava um pouco assustado. Estava partindo, e, embora soubesse que Dumbledore não o forçaria, sabia que, no fim das contas, tinha de ir. Desesperadamente queria se sentir conectado com alguma coisa quando seu futuro era tão incerto e era com Harry que queria se conectar, mas Harry nem olhava para ele. Sentia-se tão só, mesmo estando a centímetros da pessoa que ele agora considerava seu melhor amigo. Dumbledore iria mantê-lo seguro, mas onde? O que ia acontecer com Harry? E o que raios Harry estava pensando por trás daquela expressão impassível?
Draco mal percebeu quando a gárgula saltou para o lado e eles subiram por um lance de escadas em espiral e através de uma porta de madeira bem elaborada. Duas poltronas macias estavam posicionadas em frente à escrivaninha do Diretor e Draco sentou-se na da esquerda, enquanto Harry quietamente sentou-se na outra. Dumbledore, contudo, permaneceu em pé, e se inclinou contra a extremidade da frente de sua mesa. Por trás da escrivaninha, uma fênix piou suavemente.
"Fawkes!" Harry exclamou, seus olhos brilhando pela primeira vez desde que havia acordado. "Ele não estava aqui antes, não é?"
Dumbledore ergueu uma sobrancelha. "Estou surpreso de que tenha notado sua ausência."
Harry deu de ombros. "Aonde ele foi, senhor?"
"Precisaram dele para fornecer um dos ingredientes para a poção que você tomou ontem à noite."
"Ah", Harry disse, como se isso explicasse tudo. Parecia procurar algo mais para dizer e Draco reconheceu aquilo como o jeito de Harry tentando prolongar conversas inúteis para evitar as discussões difíceis.
Dumbledore deve ter percebido os sinais e disse com suavidade. "Harry, você pode tirar a mochila e fica um pouco."
Harry silenciosamente tirou a mochila e a colocou no chão a seu lado, mas não parecia propenso a soltá-la.
Parecendo perceber que Harry não iria relaxar, Dumbledore cruzou as mãos em frente a si e inclinou-se para trás como se fosse falar de negócios. Ele olhou para Harry atenciosamente por um momento antes de dirigir-se a ambos. "Garotos, primeiro, devo expressar como estou orgulhoso de vocês dois. E, por favor, não pensem que digo isso os tratando como crianças. O que vocês alcançaram nestas últimas semanas não é de pouca monta... por várias razões."
Draco, por sua vez, não sabia se deveria se sentir feliz com o elogio ou não. Ainda não tinha intenção de se tornar mais na turminha de Dumbledore, mas, ao mesmo tempo, havia algo desconcertante de tão poderoso no velho homem. Algo que Draco não entendia bem, mas que poderia vir a respeitar com o tempo, se aprendesse mais a respeito. Ainda assim, não conhecia Dumbledore o suficiente para confiar nele e, agora, o homem parecia pronto para direcionar a vida de Draco inteira. Ele olhou para Harry para ver como ele reagia, esperando que houvesse alguma segurança, mas, de novo, Harry parecia usar uma cuidadosa máscara de indiferença desde que Draco o acordara. Isso não deixava Draco nenhum pouco mais confortável.
Dumbledore pareceu notar a tensão estranha no aposento e continuou. "Mas parece que a discussão desses acontecimentos passados vai ficar para um outro momento. Temos muitos assuntos urgentes." Ele colocou as mãos nos joelhos e se inclinou levemente. "Acredito que devamos tirar Draco da escola hoje, o mais breve possível. Ontem à noite me encontrei com os aurores que estavam interrogando a srta. Parkinson. Um de seus primeiros objetivos era fazê-la listar outros filhos de Comensais da Morte ou pessoas leais a Voldemort entre a população estudantil de Hogwarts, particularmente aqueles que poderiam tentar concluir o serviço que no qual ela havia falhado. Como suspeitei, ela se recusou a colaborar com o interrogatório."
"Por que não usaram Veritasserum?", Harry perguntou.
"Porque Veritasserum é muito controlado e a srta. Parkinson ainda é menor de idade. Não podemos forçá-la e ela se recusou."
Draco franziu o cenho. "Mas não precisamos de Pansy para nos contar. Eu sei quem são. Por que não simplesmente os expulsa?"
"Se fosse tão fácil", Dumbledore disse com um suspiro longo. "Não posso simplesmente remover alunos desta escola baseado em suspeitas sem prova."
"Eu te dou a maldita prova!", Draco disse, com raiva. "Eu posso dar nomes, conversas..."
"Receio que seja insuficiente. Estamos tentando esconde-lo, Draco. Seu depoimento terá de ser ouvido pelo Conselho se eu expulsar esses alunos."
Os olhos de Draco se arregalaram quando ele compreendeu. "Metade dos membros do Conselho são Comensais da Morte."
"Bem, menos da metade, mas o suficiente para percebermos que é mais seguro evitar esses confrontos. Não é uma opção. Mas, enquanto isso, devemos apressar sua partida da escola."
Draco remexeu-se desconfortável em seu assento. Dumbledore dissera que ele estaria indo embora em breve, mas Draco não havia pensado que fosse hoje. Era cedo demais! Tinha acabado de voltar! E, na noite passada, algo maravilhoso havia acontecido entre Harry e ele. O que quer que fosse, Draco ainda não entendia direito, e precisava desesperadamente de uma chance de conversar com Harry a sós e descobrir se ambos sentiam... o que quer que Draco pensasse estar sentindo. Especialmente afora que Harry parecia estar dando um gelo nele. Ele olhou para Harry, mas Harry encarava o Diretor, parecendo não perceber nada a seu redor.
"Quando ele vai?", Harry perguntou inexpressivamente.
"Eu discuti isso com o Professor Snape, uma vez que ele é Chefe da Casa de Draco, e com outros membros da Ordem da Fênix; Agora que o número 12 do Largo Grimmauld é seu, você deve decidir como será usado. Até melhores arranjos sejam feitos, eu acredito que seria melhor, para a segurança de Draco, escondê-lo lá. Ele estaria protegido pelo feitiço Fidelius., bem como por vários membros da Ordem. Mas permissão para usar o local com esse fim é você quem deve dar e consentir com esse plano é por conta de Draco."
"Se Draco quiser ir, ele pode. Se o senhor achar que é o melhor." O canto dos lábios de Harry tremeu, uma leve falha em sua compostura. Ele virou-se para Draco. "Não é o melhor lugar do mundo, sabe."
"Sei", Draco disse, cauteloso, "eu fui pra lá quando era bem novo. Quatro anos, eu acho. A velha Tia Black era bem ranzinza."
Harry conseguiu sorrir por uma fração de segundo antes de sua expressão se amargurar de novo. "Quer ir?"
"Bem, eu..."
"Professor Dumbledore", Harry interrompeu subitamente, "a única ameaça é da Sonserina. Por que não podemos apenas colocá-lo em outra Casa? Tenho certeza de que consigo convencer a Grifinória a..."
Dumbledore balançou a cabeça. "Sinto muito, Harry, mas não é tão simples. Ninguém nunca trocou de Casa antes e..."
"Poderíamos abrir uma exceção só desta vez! Quero dizer, como Draco vai terminar a escola? Ele acabou de fazer os NOM's!"
Draco fez uma careta e cutucou Harry no braço. "Por mais que eu aprecie o convite à sua ilustre Torre da Grifinória, não se incomodou de pensar que eu poderia não querer ir pra uma Casa diferente?"
Harry franziu o cenho. "Mas você não pode mais voltar pra Sonserina... pode?"
Draco suspirou e se inclinou no braço da cadeira. "Não tenho nenhum desejo especial de morrer, então não quero ficar rodeado de filhinhos de Comensais que adorariam me entregar como troféu.E nem quero ficar preso na Grifinória, ou na Corvinal ou ser forçado a cometer um suicídio ritualístico se acontecesse de eu ler mandado para a Lufa-Lufa."
"Mas..." Harry voltou-se para Dumbledore. "Mas Professor!".
"Ah, Harry, era isso que eu queria explicar quando você interrompeu. Casas não são arbitrárias. Eu sei que você está convencido de que a Sonserina é sinônimo de bruxos das Trevas, mas duvido que você ainda possa chamá-lo de um bruxo das Trevas."
"Não", Harry disse, chutando o tapete.
"Então você permitira a Draco que usasse o número doze do Largo Grimmauld?"
"Draco é meu amigo. Ele pode usar qualquer coisa minha que quiser." Harry finalmente olhou para Draco de novo. "Se quiser ir, quero dizer."
Draco olhou de Harry para Dumbledore, hesitando. Ele não queria responder.
"Esse arranjo seria temporário." Dumbledore insistiu gentilmente. "Há formas de você continuar seus estudos e Harry pode visitá-lo sempre que a situação permitir."
Draco ficou tateando o tecido do braço da cadeira ao encontrar o olhar de Harry de novo. "Acho que eu devia ir , Harry. Pansy tentou me matar. Isso vai ficar acontecendo sempre até que um deles consiga. Ou até que os pais deles os tirem de Hogwarts."
"O que pode acontecer mais cedo do que você pensa." Dumbledore interferiu. "Hoje de manhã, recebi uma coruja do pai de Gregory Goyle. Parece-me que Gregory está destinado a ir para uma instituição educacional mais adequada e nos deixará no fim do dia. Estou esperando mais ocorrências como esta conforme a situação progrida."
Draco deu a Harry o mais breve dos sorriso, o que não era muito. "Tá vendo? Eu estaria de volta num instante. Não me diz que ia sentir tanto assim minha falta."
Harry deu de ombros e desviou o olhar. Draco sabia o que Harry teria dito, mas desejou que ele tivesse dito de verdade.
Eu sentiria muita falta, Draco para si próprio. Mas às vezes temos de fazer coisas que não queremos fazer.
"Então qual é o consenso?" Dumbledore falou.
Draco não queria responder. Parecia súbito demais. Tinham finalmente chegado em casa, e agora Draco era convidado a se retirar. Mesmo que soubesse logicamente que enfrentaria muitos problemas voltando a Hogwarts, desde encarceramento pelos seus crimes até exílio para seu próprio bem, parte dele queria se deixar tragar por uma noção ridícula e fantasiosa de voltar pra casa onde tudo ficaria bem. Mas agora estava sendo convidado a se esconder, não podia mais se refugiar na fantasia. Sem tirar os olhos da cabeça baixa de Harry, ele respondeu, "Vou." Não deixou de notar a sombra que perpassou os traços de Harry ao dizer isso.
Dumbledore assentiu. "Então vou cuidar dos preparativos. Se quiser, posso cuidar para que seja legalmente emancipado de seus pais. Temos caminhos através dos quais podemos conseguir isso."
"Seria melhor", Draco disse, ainda observando Harry.
"Muito bem, então. Temos muito a fazer, não temos?", Dumbledore disse, animado, levantando-se. "Draco, posso pedir que Biddy arrume seus pertences para que não precise ir até as masmorras da Sonserina você mesmo."
"Tudo bem... Quero dizer, brigado, senhor."
"E Harry, sinto muito fazer isso com você, mas há um assunto que preciso tratar a sós com Draco."
Harry ergueu a cabeça de repente e seus olhos estavam furiosos por trás dos óculos. "Claro. Vejo os dois depois, então", ele grunhiu e, sem nem ao menos olhar para trás, marchou para fora do escritório, batendo a porta audivelmente atrás de si.
A partida de Harry foi tão abrupta que Draco sentiu como se Harry tivesse batido nele e não a porta. "Harry!", Draco gritou atrás dele, mas sabia que Harry não ia voltar. Do outro lado do escritório, Fawkes piou tristemente. "O que há com ele? Professor, eu deveria ir..."
"Ainda não, Draco. Dê a Harry algum tempo. E eu tenho mesmo um tema que gostaria de falar com você antes que vá atrás de Harry."
Draco forçou-se a se sentar propriamente e encarar o Diretor. "Sim, senhor?"
"Primeiro, gostaria de saber se quer que contatemos sua mãe."
Draco quase engasgou. "Minha mãe está morta."
Dumbledore pareceu surpreso apenas por um momento, mas então sacudiu a cabeça. "Posso assegura-lo de que ela está bem viva. Professor Snape a viu há apenas três dias, na Mansão Malfoy."
Draco ficou petrificado e boquiaberto consigo mesmo, tentando processar aquilo. Quando falou, sua voz falhou. "Snape esteve na Mansão? Ele a viu mesmo?"
"De fato, esteve e a viu. Veja só, como eu parcialmente contei a Harry, Voldemort desapareceu. Como você tem propriedade para saber, na noite do eclipse, as coisas não correram muito bem para ele. De acordo com o Professor Snape, ele caiu apenas momentos antes de o eclipse alcançar sua completude e foi levado por dois de seus seguidores mais fiéis. Os Comensais se espalharam e não sabemos qual seu plano atual. Professor Snape não seguiu nenhum deles. Em vez disso, foi à casa de seus pais ver se poderia saber alguma coisa a mais de sua situação antes de voltar para fazer relatos a mim. Ele agora pode usar o contato com seus pais para manter as aparências de sua lealdade para com Voldemort."
"Ele é leal ao Lorde das Trevas!"
Desta vez, Dumbledore sorriu ao sacudir a cabeça. "Agora que sua situação mudou, por que não pergunta você mesmo a ele?"
Os fatos estavam acontecendo rápidos demais e Draco sacudiu a cabeça lentamente. "Isso é demais... caramba. Mas... e quanto a minha mãe? Eu pensei... mas Você-Sabe-Quem me disse que ela estava morta! Eu a vi morta!"
Dumbledore pousou uma das mãos no ombro de Draco em solidariedade. "EU diria que Voldemort mostrou imagens do corpo morto de sua mãe para intimidá-lo. E eu espero que Harry tenha assegurado você de que Voldemort é um mestre da ilusão. Lorde Voldemort não mata ninguém que lhe possa ainda ser útil. Com você fora do alcance, sua mãe ainda poderia lhe ser útil. Ele não se incomodaria de mata-la sem propósito. Nossos espiões a viram há dois dias e ela está bem viva."
"E... meu pai?"
"Também vivo."
O alívio emocional foi como se uma corda tivesse saído de seu pescoço e Draco acomodou-se no estofado da cadeira, respirando profundo e trêmulo.
"Draco?"
"Estou surpreso, só isso. Estou... feliz. Posso ter deixado a família, mas nunca quis que se machucassem."
Dumbledore tocou seu braço suavemente, então se recostou de novo. "Sei que não queria. Mas a pergunta permanece. Quer que contatemos sua mãe? Ela pode ser a esposa de um Comensal, mas ela própria não possui a marca. Contanto que esteja viva e sob controle do pessoal de Voldemort, ela é um risco porque poderia ser usada para chegar até você, deixando-o em risco maior ainda. Podemos nos aproximar e lhe oferecer refúgio, se você quiser."
Draco considerou por um momento e então fechou os olhos. Imaginou sua mãe. Narcissa Malfoy: orgulhosa, forte, fria. Uma mulher de uma longa linhagem puro-sangue, esposa de um importante puro-sangue e orgulhosa destes dois fatos. Narcissa Malfoy: mãe de um filho traidor. Claro, ela o amava, mas um traidor do sangue como cria não se encaixava bem em seus planos e só a colocaria em maior perigo. Se permitisse que ela apenas o deserdasse, ela poderia seguir com sua vida, ininterrupta, e ele poderia apenas se afastar. E então, quando tudo estivesse acabado, ele poderia encontrá-la. Se Dumbledore a refugiasse agora, ela seria uma fugitiva. Sentiria vergonha. Seria forçada a encarar que tinha dado a luz a um traidor do sangue. Isso nunca daria certo para Narcissa Malfoy.
"Deixe-a", Draco finalmente disse e abriu os olhos. "É melhor assim. Ela nunca deixaria meu pai e ele não iria querer vir, assim como tenho certeza de que você não iria quere-lo."
Dumbledore não pareceu feliz com a resposta. De fato, parecia a ponto de argumentar, mas, finalmente, assentiu. "Como quiser. E agora... quero discutir sua cura miraculosa na enfermaria."
Draco ficou parado por um momento, então olhou para o chão. "O que há pra se discutir? Aconteceu."
"Estou ciente de que não foi a primeira vez que você curou Harry dessa maneira."
Draco ergueu a cabeça. "Como sabe disso?"
"Harry permitiu que eu visse a lembrança", Dumbledore disse simplesmente. "Não foi a lembrança que pedi para ver, mas existia em conjunção com as que eu precisava ver,"
Draco remexeu-se desconfortável em seu assento. Subitamente teve o pressentimento que Dumbledore havia visto muitos dos eventos que aconteceram durante as três semanas que ele e Harry estiveram longe da escola e não estava muito certo de gostar disso. "Então... a cura. O que é que tem?"
Dumbledore inclinou a cabeça. "Da primeira vez, eu acho, foi só um caso de magia sem varinha."
"Simples! É bom que você saivá que Harry tinha quebrado ao menos quatro costelas e provavelmente tinha sangramento interno..."
Dumbledore ergueu as mãos. "Draco, não disse que a cura não foi impressionante, nem que eu menosprezo o que você fez. O que desejo explicar que você não fez algo inédito. Há muitos casos documentados de bruxas salvando seus filhos dessa maneira ou..."
"É, eu sei. Já fizeram tudo antes... er... senhor."
"De fato." Dumbledore espiou por cima de seus óculos. "O que não foi feito antes – ao menos que eu saiba e me lembre – foi a cura mais complicada realizada ontem à noite."
Draco sentou-se um pouco mais reto. "O que quer dizer?"
"Harry havia consumido um veneno de natureza física e mágica. Em comparação, sim, alguns ossos quebrados são ferimentos fáceis de serem curados. O veneno que Harry usou causou danos extensivos em seu corpo, assim como em sua magia, o que é um tipo de dano incrivelmente difícil até para Curandeiros profissionais consertarem. Além disso, nos casos mais divulgados de cura sem varinha, o esforço foi espontâneo e desesperado; suas ações na enfermaria foram deliberadas. Como Madame Pomfrey afirmou, você não é um medi-bruxo, então, até onde sabemos, não haveria forma de você ter salvado Harry. Contudo – e isso é o que pode ter feito a diferença – o veneno que Harry consumiu foi designado para estabelecer um elo entre vocês... da mesma forma que a poção Eclipse da Alma. Eu teci hipóteses de que os dois elos ainda em curso, seu poder de cura foi enormemente aumentado."
Tentando processar cada detalhe de informação, Draco escolheu o assunto mais simples. "Um elo entre nós?"
Dumbledore assentiu. "Temporariamente. A magia envolvida era altamente complexa. E os efeitos combinados das duas poções, ambas usadas para objetivos para os quais nunca foram pensadas, duvido que saibamos o que exatamente deu a você poderes para fazer o que fez."
"Eu precisava salva-lo. Não é o bastante?"
"Pode muito bem ser, Draco", Dumbledore disse. "E certamente você não teria conseguido salva-lo se a vontade não fosse grande. Entretanto, para sua segurança, e a de Harry, eu gostaria de ver se esses elos se dissolveram."
"Dissolveram?"
"Correto. Esses elos não deveriam ser permanentes, mas, num caso de mágica experimental, circunstâncias não previstas podem surgir." Dumbledore sacou a varinha. "Com sua permissão, gostaria de fazer uma checagem em você."
"Por que não checou Harry?" Draco perguntou, testando.
Dumbledore suspirou. "Eu só preciso checar um de vocês e Harry parecia agitado. Senti que segura-lo aqui para um teste assim só o perturbaria mais."
Draco sentiu um lampejo de raiva. "E o senhor não o perturbou mais quando o mandou sair?"
"Eu também pensei que talvez você não fosse querer que ele soubesse sobre sua mãe."
Draco fez uma carranca. "Qualquer coisa que quiser dizer a mim, pode dizer na frente de Harry. Era isso que ele me fala – as pessoas não dizem as coisas a ele. Então cuide e faça o teste. Preciso me preparar para ir."
Dumbledore não disse nada ao apontar a varinha para Draco. Um brilho amarelo suave começou no topo da cabeça de Draco, envolvendo-o devagar, e desvaneceu.
"E o diagnóstico é?" Draco pressionou.
"Os elos se dissolveram."
Draco não tinha certeza se estava feliz com isso ou não, mas tentou aparentar o mais indiferente possível ao se levantar e virar-se para a porta. "Então posso ir?"
"Pode ir, mas Draco..."
"Que foi?", ele perguntou irritadamente.
"Devo dizer a você que, por mais que eu tenha minha cota de erros e enganos..."
Draco revirou os olhos.
"– minha preocupação maior sempre foram os alunos de Hogwarts. Isso inclui Harry e você. Quero que saiba que estou ciente de como sua situação atual realmente é perigosa, por diversas razões."
"Bom, senhor, então nós dois sabemos, não é?"
Dumbledore sorriu pacientemente. "Draco, entendo seus preconceitos anteriores contra mim, mas me parece que, agora, estamos ambos do mesmo lado."
Draco encarou diretamente o Diretor e cruzou os braços sobre o peito. "Sabia que você faria isso. E eu já falei com Harry a esse respeito antes... bom... antes da noite do eclipse. Não quero tomar partido nisso. Não vou lutar por você. Não quero lutar em lado algum."
Dumbledore inclinou-se pesadamente na escrivaninha. "A luta vai chegar até você, Draco, esteja você ou não preparado para ela. Eu não deveria precisar enumerar as razões pelas quais você está completamente mergulhado nesse conflito, portanto, considere sua situação cuidadosamente. Pode não desejar lutar por mim, tampouco eu esperava que fizesse isso... mas lutaria por Harry?"
Draco abriu a boca antes de perceber que não tinha um argumento. Sim, ele lutaria por Harry. Sem perguntar nada. Já havia feito isso.
Dumbledore assentiu, conhecedor. "Então você poder ver exatamente por que se tornou agora parte dessa luta."
O significado das palavras de Dumbledore atingiram Draco com força e, de repente, o escritório não parecia conter ar suficiente. "Não quero lutar", ele disse de novo, mais fraco desta vez.
"Harry também não queria. Ele foi marcado com uma sina desde criança e tem suportado essa responsabilidade com valentia. Ainda assim, ele tinha uma escolha. Poderia ter se afastado desse fardo se quisesse, mas não quis. Se você deseja se afastar desta lutar... Harry continuaria sem você e você teria de deixar Harry para trás também."
Draco sentiu-se empalidecer.
A voz de Dumbledore era suave, mas sua palavras afundavam afiadamente. "Faremos tudo ao nosso alcance para protegê-lo, independente do caminho que escolher. Prometo isso a você. Mas quero que pergunte a si mesmo, quando a hora chegar, vai escolher permanecer com Harry?"
Draco encarou a parede mais distante. Não havia o que pudesse dizer. Não agora. Não a Dumbledore. "Preciso ir", ele disse roucamente.
"Então vá. Embora eu deva lembra-lo de que não deve ser visto pela escola."
O estômago de Draco se retorceu quando percebeu que o Diretor estava certo. "Porra!" Olhou para o pequeno relógio na parede. "As pessoas provavelmente ainda não acordaram, mas já acordam. Droga..."
"Antes que você agracie mais meus ouvidos com seu vocabulário, devo destacar que Harry parece ter esquecido a mochila que carregava desde que chegou." Ele indicou a mochila de viagem empoeirada que estava largada na cadeira que Harry havia deixado. "Minha opinião é que pode encontrar algo útil nela e que Harry provavelmente gostaria que usasse."
Draco olhou para Dumbledore com surpresa por um momento, antes de pegar a mochila e voltar-se para a porta.
"Espero ver seus pertences reunidos em breve", Dumbledore falou atrás dele. "Assim que tiver cuidado de seus assuntos, volte ao meu escritório. A senha é 'abacaxi'."
Abacaxi? Draco pensou para si mesmo ao fechar a porta atrás de si.
Parecia estranho usar a Capa de Invisibilidade sem Harry, mas, quando Draco passou por um pequeno grupo de alunos do sexto ano que deviam estar indo à biblioteca, ele soube que Harry provavelmente queria que ele usasse. Sentiu que deveria estar indo atrás de Harry, mas não fazia idéia de onde ele haveria ido. Torre da Grifinória? Possivelmente, mas, de alguma forma, Draco duvidava. Café da manhã? Dificilmente. Draco tirou isso da cabeça. Encontraria Harry antes de partir. Naquele momento, Draco tinha de ver outra pessoa.
Seu caminho levou-o escadas abaixo, pelo saguão principal, e através das masmorras. Passou pela curva que levava ao dormitório da Sonserina e continuou reto até a sala de Poções, atrás da qual havia os aposentos pessoais do Mestre de sua Casa.
Draco tentou bater suavemente na porta de Snape, mas o som ecoou pelo corredor. Acima da porta, uma pequena gárgula um tanto fugidia guinchou. "O que quer, garoto invisível?"
Porra, essa coisa pode mesmo ver tudo. Pensei que era boato, odeio essa droga de gárgula. "Preciso ver o Professor Snape."
"Ah, precisa ver o Professor Snape, precisa?", ele disse, cantarolando numa voz que lembrava a Draco Pirraça um pouco demais.
"Dá pra me anunciar de uma vez?", Draco silvou.
"Com certeza, sua alta alteza. Um Malfoy invisível para ver o estimado Severus Snape, Deus das Masmorras." A estátua ficou rígida e Draco soube que o cão de vigia havia atravessado para outra gárgula dentro da área privativa de Snape. Um momento depois, a porta se abriu, e um desorientado professor de Poções apareceu. Em um piscar de olhos, ele esticou o braço pela porta, pegou Draco pelo ombro e puxou-o para dentro.
Snape arrancou a Capa de Invisibilidade de Draco e observou-o obscuramente. Por um momento aterrador, Draco temeu ter cometido o pior erro de sua vida. Merda! E se ele for leal ao Lorde das Trevas? Não confio em Dumbledore, então por que confiei nele a esse respeito?
Draco olhou por cima do ombro para a porta, considerando se deveria correr até ela, mas Snape pegou-o pelo braço de novo. Numa onda de pânico, Draco puxou a mão livre e gritou, "Não! Me larga!"
Ele apertou mais forte. "Fique quieto!", Snape rosnou para ele. "Quer que a masmorra inteira perceba sua presença? O que pensa que está fazendo, se esgueirando até aqui? Você é surdo?"
"Eu... er..." Draco gaguejou por um momento, incerto do que pensar.
"Professor Dumbledore ficou acordado a noite toda, e eu também, preparando sua segurança e você arrisca tudo dando uma voltinha nas masmorras?" Snape finalmente soltou seu braço. "No que estava pensando?"
"Precisava falar com você", Draco disse, tentando não deixar sua voz tremer. "Dumbledore disse... disse que eu devia te perguntar se eu não acreditasse... na sua lealdade... e minha mãe... mas..."
"Draco", Snape disse, equilibrado, "não achei que fosse ter de explicar como isso é uma burrice. Não aprendeu nada na Sonserina? Autopreservação é o parâmetro! E se Dumbledore estivesse errado e eu o entregasse direto para o Lorde das Trevas?"
"Er... Eu estaria numa encrenca?"
Snape fez uma carranca para ele, virou-se, e andou para o canto de sua sala de estar em frente à lareira. Sentou-se em sua própria poltrona e indicou a Draco aquela em frente a ele. "Você veio falar, então fale."
Draco acomodou-se com desconforto na cadeira. Embora o assento parecesse estofado, era bem duro, na verdade. "Eu tinha de descobrir..." Ele hesitou. "Minha mãe está mesmo viva?"
"Está", Snape disse, mas não ofereceu mais informação.
"E... preciso saber se você era mesmo leal a Dumbledore", ele disse, tão calmamente quanto possível. "Eu sempre pensei... bem... que Dumbledore era um tolo de confiar em você."
Snape não respondeu por um minuto enquanto apoiava o queixo na mão, pensativo. "Confiança é sempre uma atitude de tolos. Lealdade, contudo, não é."
Draco franziu o cenho. "Não entendo."
"Não esperei que entendesse, embora fosse ser uma surpresa agradável." Snape inclinou-se no braço da cadeira. "Nunca há razão para confiança, Draco. Ela é dada livremente e, com, freqüência, de forma irresponsável. Lealdade é um comprometimento bem mais profundo e nunca deve ser cedido sem razão. Diga-me, Draco, por que deixou de servir o Lorde das Trevas?"
Subitamente, Draco sentiu-se muito nervoso. Snape ainda não havia admitido a natureza de sua lealdade. Ainda assim, Draco o conhecia há anos. Se Snape fosse entregá-lo, já o teria feito. "Parecia... errado, de algum jeito. Servi-lo."
"Estava com medo?"
"Não!" Draco protestou, mas o olhar perfurante de Snape o fez tremer. "Tudo bem, sim, eu tive medo. Mas não foi só isso."
"Não, não foi. Sei muito bem disso. Você não simplesmente abandonou sua lealdade anterior. Você adquiriu uma nova."
Draco descobriu suas bochechas queimando.
Snape assentiu devagar. "Questione-se, Draco, por que uma pessoa mudaria sua lealdade? Ou, chegando mais ao ponto, por que uma pessoa da Sonserina faria isso?"
Draco pensou em silêncio por vários minutos antes de arriscar uma resposta. "Um sonserino sempre é leal à pessoa com mais poder."
"Bem verdade, Draco. Entretanto, um sonserino realmente esperto entenderia que apenas poder por si só significa pouco. O vencedor desta guerra não será aquele com mais poder. Será aquele com maior..."
"Com a maior força." Draco terminou por ele conforme seu coração começou a bater mais rápido em seu peito. "Poder não tem lealdade... nenhuma profundidade... Por Merlin..."
Snape ergueu uma sobrancelha. "Você me surpreende, Draco. Onde teria encontrando tamanha fonte de sabedoria?"
Draco olhou inexpressivo para ele. "Não acreditaria se eu dissesse."
"Mesmo?", Snape perguntou em um tom que não demandava resposta. "Não obstante, desertar um posto por uma razão assim é uma questão. Atirar-se atrás de alguém colocando a si próprio em grande perigo é outro assunto inteiramente diferente."
Draco sentiu como se os olhos de Snape estivessem abrindo buracos em seu crânio. Tentou se lembrar da pouca Oclumência que he haviam ensinado, mas estava cansado demais de seu labor na noite anterior e seu cérebro estava anuviado demais. Cuidadosamente, ele se deixou encara o olhar penetrante de Snape e tentou mudar o curso da conversa com sua própria pergunta. "Então... por que atrelar sua lealdade a Dumbledore?"
"Creio que eu deveria perguntar a você por atrelaria sua lealdade a Potter."
Ainda sustentando o olhar de Snape, Draco percebeu que o homem mais velho estava no controle completo desse contato e não havia nada que ele pudesse fazer a esse respeito. Snape não responderia qualquer de suas perguntas até assim desejar. Draco suspirou em derrota. "Eu vi como ele era forte quando encarou Você-Sabe-Quem. Desarmado, preso e nem ao menos tremeu. Nem eu consegui fazer isso quando eu pensei ser leal a ele. Mas aí... eu deveria encontrar Você-Sabe-Quem sozinho e, naquela época, eu estava... incerto."
"Algo muito perigoso, estar incerto de sua lealdade num encontro com o Lorde das Trevas. Ele exige absoluta devoção."
"Eu sei", Draco disse com um tremor. "E eu sabia disse naquela época. Eu pensei que talvez pudesse esvazia minha mente ou usar Oclumência contra ele, mas estava exausto demais e..."
"Fixado demais em seu prisioneiro?"
"A gente conversava havia dias! O que você esperava? E ele não era bem o que eu pensei que ele fosse."
Snape meneou a cabeça em diversão. "Então o que ele era?"
"Melhor", Draco disse.
"Interessante", Snape disse, apaziguando. "Então, o que ocasionou? Por que ofereceu sua lealdade firmemente a Harry Potter antes mesmo de dar um passo fora das masmorras do Lorde das Trevas? E não pareça tão surpreso. Você jamais teria fugido com ele se já não tivesse mudado de lealdade."
Agora Draco estava surpreso. "Foi o que Rabicho me disse!"
"De fato. Bem como disse a mim, não que eu precise daquele roedor me dizendo o que eu já sei."
Mais surpreendente ainda, Draco pensou para si mesmo. "Quando você o viu?" Ele pressionou.
"Brevemente, tarde da noite de ontem, mas não é essa a questão agora. Eu fiz uma pergunta e espero uma resposta."
Draco pressionou os lábios, suspirou e encarou o padrão do tecido da poltrona de Snape. "Harry me ajudou. Todo mundo queria me testar, mas Harry... ele sabia o que eu iria encarar quando encontrasse Você-Sabe-Quem, então ele me ajudou. Ele me fez ficar com raiva... só o bastante para disfarçar meu medo e indecisão. Pensando nisso, foi impressionante como ele fez isso. Nem percebi o que ele havia feito até ter terminado de subir as escadas. Acho que ele salvou minha vida nesse dia."
Draco ergueu o olhar para ver como Snape reagia, mas sua expressão ainda estava completamente neutra, então Draco prosseguiu. "Ele não precisava me ajudar... era meu prisioneiro... mas me ajudou mesmo assim. Não podia entender por que alguém me ajudaria se não tivesse que ajudar, mas, quando aconteceu, tudo fez mais sentido. E aí, quando eu finalmente me encontrei com Você-Sabe-Quem, tudo que Harry havia dito... sobre medo, controle, servidão..." Ele parou e sorriu, malévolo. "...poder e força."
Os olhos de Snape se arregalaram quase imperceptivelmente. "Potter te disse? Você estava certo. Não acredito."
O sorriso malévolo de Draco sumiu. "Eu vi Você-Sabe-Quem e acreditem em cada palavra que Harry me disse. Ele estava certo. Eu sabia quem era mais forte. Eu soube o que eu queria. E soube que Harry havia me dado algo que eu nunca havia tido antes." Draco respirou fundo. "Uma escolha."
"Então você fez essa escolha."
"Sim, eu fiz."
Então Snape fez algo que Draco o vira fazer apenas uma meia dúzia de vezes na vida. Ele sorriu. "E eu também fiz."
Draco ficou ali sentado, petrificado, conforme Snape se levantou e atravessou a sala até sua escrivaninha, tirando um pedaço de pergaminho de cima de uma pilha de livros, retornando em seguida. "Posso confiar que reconhece esse pergaminho?"
Ele estendeu-o e Draco pode ver o diagrama que havia feito do Eclipse da Alma e seu contra-feitiço. "É claro que sim."
Snape assentiu. "Eu precisei do seu diagrama de feitiço ao preparar a poção que Potter bebeu ontem à noite. Sua diagramação requer melhora, Draco, assim como seus conhecimentos de alfabeto Ogham, mas pensemos nisso em outra ocasião. Antes de começar meu trabalho, não foi difícil notar a escrita no verso pergaminho. Obra de Potter, não foi?"
"Ele escreveu um bilhete nele", Draco disse. "No caso de ele não sobreviver... queria que eu trouxesse de volta como prova de que eu não o matei.. ou o deixei morrer intencionalmente."
Snape franziu o cenho. "Você não o leu."
Draco sacudiu a cabeça. "Eu disse a mim mesmo que eu leria se precisasse. Se eu lesse enquanto Harry ainda estava vivo, era como admitir que ele morreria."
"Um conselho, Draco: se um dia tiver a oportunidade de ler alguma coisa, leia imediatamente. Nunca se sabe quando pode precisar dessa informação. Motivo pelo qual eu tomei para mim a tarefa de ler isto."
O fato de Snape parecer contente de ter lido algo escrito por Harry fez Draco se sentir muito desconfortável. "O que diz?", Draco perguntou, estendo a mão, mas Snape afastou o bilhete dele.
"Antes de eu entregar, gostaria de lembrá-lo de algo. Enquanto lealdade ao Lorde das Trevas requer subserviência e dedicação em troca de poder, lealdade a outra pessoa requer um comprometimento tão forte quanto, se não mais forte. Não se comprometa se não puder cumprir."
Draco pensou por um momento, então se levantou. "Eu fiz uma promessa a Harry na noite em que escapamos. Eu disse a ele que eu o levaria de volta a Hogwarts, não importa o que houvesse. Custe o que custar. Foi o que eu disse e foi o que eu fiz. Eu disse que não o deixaria e eu não o deixei. Eu até prometi... que se parecesse que Você-Sabe-Quem venceria... eu... Merlin, eu nem consigo dizer."
"Você prometeu que o mataria antes de deixar o Lorde das Trevas vencer?" Snape não pareceu surpreso pelo pensamento.
Draco baixou a cabeça. "Sim."
"Teria conseguido fazer isso?"
"Eu preferia morrer. Eu não precisei mata-lo para vencermos, então... não importa de verdade, importa?"
"Você é mais esperto que isso. Olhe pra mim, Draco. Agora me diga, conseguiria mata-lo?"
Draco ergueu o olhar, mas as palavras não vinham.
"Você vai me responder, Draco. De sua lealdade a Harry, você conseguiria cumprir sua promessa de matá-lo?"
A garganta de Draco se apertava e se contraía, antes de ele finalmente conseguir a resposta sufocada.
"Sim."
Snape assentiu satisfeito e entregou o pergaminho. "Então você merece isso."
Draco hesitantemente aceitou o pergaminho e o virou. O bilhete era chocantemente direto a um primeiro olhar, mas então Draco se lembrou de que Harry não tinha o luxo do tempo para medir palavras. Ainda assim, cru como era, Draco leu devagar e lágrimas começaram a encher seus olhos. Snape o observava, mas não importava. Quando chegou ao fim, recobrou sua compostura e então ergueu o olhar. "Preciso encontrá-lo."
"Mesmo com essa capa, vai ser difícil se infiltrar na torre da Grifinória."
"Não acho que ele esteja lá... espera, tive uma idéia."
"Teve? Que novidade."
Draco encarou-o. "Eu encontrei um esconderijo dele ano passado... ele usava para aquele clube do Dumbledore. Acho que ele pode estar lá."
Snape respondeu com um aceno de cabeça. "Então se sabe aonde o garoto foi e não tem nenhum assunto de angústia adolescente para discutir comigo, eu gostaria de uma hora de sono antes de encarar lufa-lufas e corvinais do terceiro ano para a aula desta manhã. Não estão esperando meu retorno. Embora cansativo, o resultado deve ser... um entretenimento."
"Sim, senhor. Obrigado por escutar."
"De nada. E Draco..."
"Sim?"
"Está a ponto de embarcar num caminho muito difícil, um que provavelmente vai fazer o caminho pela floresta do norte parecer um piquenique. Mas você deve saber... que não estará sozinho."
Draco apertou o pergaminho contra o peito. "Eu sei." Sem mais uma palavra, atirou a capa de invisibilidade por cima da cabeça e saiu. Ao fazer isso, percebeu que Snape não dissera diretamente a quem devia sua lealdade. Maldito esperto.
Quando Harry chegou à Sala Precisa, lembrou a ele muito de como ela estava no dia anterior para ele, Ron e Hermione, exceto que desta vez havia apenas um sofá macio, comprido o bastante para que ele se esticasse confortavelmente. Entretanto, em vez de se esticar, Harry encolheu-se contra um dos braços e pensou em como parecia vazio o outro lado.
Estou sendo ridículo. É caro que Draco precisa estar em um lugar seguro. Se ficar aqui, está arriscando sua vida e não posso deixá-lo fazer isso. Essa é a última coisa que o deixaria fazer! Mas por que então estou tão chateado com isso?
Harry saiu do sofá e começou a caminhar. Seus tênis afundavam no tapete a cada passo.
Claro, passei as últimas semanas com ele, mas como fiquei tão apegado que não quero que ele vá? Em só algumas semanas? E por que precisei perdê-lo pra entender? E se eu não o tivesse salvado? Não, não vou pensar nisso... mas estou perdendo-o mesmo assim!
Ele está partindo. E, porra, ele sabe o quanto vou sentir sua falta. Ao menos, eu acho que sabe. Como poderia não saber? E como pode partir tão fácil assim?
Nem pareceu se incomodar! Ele só disse que ia... desse jeito. Não se lembra do que aconteceu ontem à noite? Ele está apaixonado por mim... ele está...
Harry agarrou uma almofada do sofá e apertou-a entre suas mãos e continuou a caminhas. Estava com raiva, estava chateado. Estava tudo bem, mas tudo estava mais bagunçado do que podia imaginar. Estavam ambos a salvo e vivos, mas nada fazia sentido. E agora que estava de volta à familiaridade de Hogwarts, não mais num lugar distante com Draco, bom senso parecia crescer dentro dele.
Talvez ele esteja repensando. Talvez, agora que tudo acabou, ele pense que seja uma idéia idiota. Agora que estamos de volta e tudo é diferente e ele tem de lidar – nós temos de lidar com tudo... talvez ele tenha mudado de idéia. E talvez esteja certo. Quanta merda a gente vai enfrentar por causa disso? Droga, droga, droga... por que eu? Por que ele? E por que demorou tanto?
Ele é um garoto. Ele é Draco Mal – ele é Draco e é m garoto. É claro que eu não pensaria nisso. É inacreditável demais... certo? Não havia razão pra eu perceber...
Todas as conversas estranhas que ele havia tido com Draco sobre namoradas e interesses afetivos voltaram a ele e Harry atirou sua almofada contra a parede algumas vezes com angústia ao perceber como tinha sido tapado com a coisa toda.
Sim, ele é Draco. Sim, ele é um garoto. E ele tem olhos cinzentos.
Era tudo que Harry podia fazer para não bater a cabeça na parede como havia batido a almofada.
É claro que eu sabia o que estava acontecendo... entre nós. Sabia há dias. E agora ele está indo embora.
Com um grunhido, Harry atirou a almofada sobre o sofá, onde ela quicou e caiu no chão. Por alguma razão, isso o fez se sentir pior. Ele a apanhou de novo e voltou a retorcê-la.
Por que eu fui tão idiota hoje de manhã? Por que fugi daquele jeito? Vou sentir falta dele, mas essa é uma desculpa patética. Estamos tentando protege-lo, mas eu queria que ele se sentisse culpado de ir embora. Que tipo de amigo eu sou?
Ele voltou a andar, arrastando os pés no tapete com seus passos.
Um amigo que quer ser mais que um amigo.
Por vários minutos, Harry se deu pontapés mentais por sua burrice. Precisava falar com Draco, mas, em vez de apoiá-lo, ou ao menos esperar no fim da escadaria do escritório de Dumbledore, ele havia corrido feito um idiota e agora estava se lamentando. Além do mais, ele não fazia idéia do que dizer. Tchau? Até mais? Lembra daquele beijo que a gente deu à beira da morte? Foi bom pra mim – foi bom pra você? Nada parecia muito certo e, agora, tudo que Harry queria dizer era "Não vá!"
Tinha de dizer a Draco como se sentira. Nunca havia precisado falar de coisas assim com ninguém. No sonho, visão, ou o que quer que fosse que ele e Draco haviam experimentado nos portais da morte, não havia sido real, no mundo físico. No desespero para salvar a vida de Draco, ele pudera dizer qualquer coisa sem hesitar. E estava falando sério cada palavra. Mas agora...
Eu já falei como me sinto, mas não foi de carne e osso. Era tanto desespero, que eu teria dito qualquer coisa. Eu estava falando sério! Mas e agora? Eu conseguiria dizer essas coisas na cara dele? Eu tenho que falar antes que ele se vá. Não quero que ele vá. Por que tão cedo? Por quê? Por que comigo? Por que com a gente?
Harry pensou nas duas últimas semanas. Se pensasse bastante, ainda podia sentir as costas quentes de Draco contra a sua conforme se deitavam para dormir todas as noites e a mão de Draco levemente entrelaçada na sua conforme eles se ajudavam a passar pelas pedras e árvores caídas. Podia ouvir Draco rindo – quase sempre dele – e o jeito que sua voz ficava quando fala sobre coisas pelas quais era apaixonado. Podia ver o sorriso malicioso e o brilho suave nos olhos de Draco ao puxar Harry da pilha de folhas. Podia sentir e tocar os pelos arrepiados dos braços e torso de Draco conforme ele entrava no rio. Podia sentir o corpo morno de Draco contra o seu conforme seguravam-se um no outro e o corpo inerte de Draco seguro em seus braços conforme ele andava e tropeçava ao voltar para Hogwarts.
Não queria ter de soltar de novo.
Mas era obrigado.
Harry parou como se fosse um brinquedo de corda cuja volta tinha terminado e caiu no sofá. Enterrou o rosto na almofada que ainda segurava, sem chorar, mas tremendo às vezes. Não ouviu realmente a porta se abrindo, mas deu um salto de susto quando sentiu alguém se sentar ao lado dele.
"Tudo bem, Harry, sou eu", disse o próprio ar.
A capa de invisibilidade caiu e Draco estava sentado ali, parecendo muito sóbrio.
Harry rapidamente ajustou os óculos sobre o nariz, incapaz de esconder seu choque diante da chegada surpresa de Draco. "Er... oi, Draco. Dumbledore tinha... algo interessante pra dizer?", ele perguntou, tentando soar casual.
Draco não respondeu imediatamente; estava olhando Harry com tanta intensidade, sincero, embora gentil, que Harry começou a se perguntar se Draco podia ver através dele.
"Draco?"
"Por que fugiu assim, Harry?"
Sentindo-se infantil, Harry se encolheu. "Eu... er... acho que eu fiquei meio surpreso com a idéia de você ir embora tão cedo."
"Eu também. Mas você estava agindo estranho desde que acordou."
Harry teve de desviar o olhar. "Eu estava com sono. Sem muito humor pra conversar."
"Você não tinha jeito de quem estava com sono." Draco insistiu. "Estava me evitando."
"Não!" Harry protestou, mas Draco olhou-o, penetrante, e Harry se encolheu de novo. "Tudo bem, eu fiquei acordado boa parte da noite, pensando demais."
"Pensei que Madame Pomfrey tinha te dado uma poção de dormir sem sonhos!"
Harry deu de ombros. "Não bebi toda. Só o suficiente pra adormecer e joguei fora o resto. Então acordei no meio da noite e não conseguia parar de pensar. Não querida para de pensar."
Draco pareceu tão surpreso quanto Harry achou que fosse ficar. "Espera... então me ouviu conversar com Dumbledore?"
Envergonhado, Harry assentiu. Estava meio que esperando Draco ficar com raiva, mas Draco parecia apenas triste.
"Então já sabia que eu estava indo embora quando eu 'te acordei', não foi?"
Harry assentiu de novo, se sentindo muito acuado.
Draco suspirou e recostou-se no sofá. "Minha mãe ainda está viva."
Agora foi a vez de Harry ficar surpreso. "Está?"
"É. E meu pai também. Você estava certo. Você-Sabe-Quem estava brincando com minha cabeça. Você está sempre certo a respeito dele, pelo que eu notei."
"Nem sempre", Harry disse hesitantemente. "Então seus pais estão vivos. É uma coisa boa, não é?"
O rosto de Draco assumiu uma expressão ilegível. "Bem, é claro, mas isso complica as coisas."
"Complica as coisas?"
Draco retorceu um sorriso. "Estou ouvindo ecos. Sim, complica. Eu te disse antes... ainda amo meus pais. Podemos não ter um lar quentinho e agradável, mas eu ainda os amo. Antes... eu achei que estavam mortos... e podia começar uma vida nova. Nada me prendendo."
O coração de Harry deu um salto desconfortável. "Você não está pensando em voltar, está?"
Draco pareceu mortificado. "Contrário a tudo que eu fiz recentemente, acredite ou não, eu não tenho um desejo de morte. Se eu voltar... digamos que minha expectativa de vida seria melhor nas masmorras da Sonserina do que nas masmorras Malfoy."
"Então... o que é?"
O sorriso pequeno e estranho voltou aos lábios de Draco. "É só que... vou ficar preocupado com eles, sabe. Além do mais, vou me perguntar o resto da vida o que eles pensam de mim, se sentem minha falta e o que teria acontecido se eu tivesse ficado. Eu já escolhi meu caminho, Harry. Até quando não sabia s voltaríamos juntos, eu estava disposto a me manter no meu caminho. Eu fiz minha escolha... a escolha que você queria que eu fizesse... e agora olha pra gente. A gente conseguiu. A gente está vivo. É mais do que poderíamos ter esperado quando tudo começou – mas do que eu tinha esperança de conseguir em vários momentos. E agora que estamos de volta, não tem jeito de eu mudar de plano agora."
"Então... cadê a complicação?", Harry perguntou, completamente confuso.
"É... uma complicação emocional. Mesmo que a escolha tenha sido feita e mesmo que você fique feliz com essa escolha, não é fácil abrir mão de uma coisa que você ama por outra. Ou, melhor dizendo, desistir de uma pessoa que você ama por outra."
O coração de Harry saltou de novo, mas não foi dolorido dessa vez. "O que quer dizer?", ele perguntou com cautela.
Draco sacudiu a cabeça e se evadiu da pergunta. "No que estava pensando ontem à noite, quando deveria estar dormindo?"
"Eu... estava pensando em você", Harry disse, escutando sua voz tremer. Subitamente sentindo-se nervoso demais pra ficar sentado, Harry começou a caminhar de novo. "Eu estava pensando no tempo que passamos juntos e como estava tudo acabando. Eu sabia que Dumbledore tentaria te mandar pra longe. Mesmo antes de ele aparecer esta manhã, eu sabia que isso ia acontecer. Ele está certo, claro, eu não deveria querer te manter aqui... mas parece a gente acabou de começar alguma coisa e você já vai embora! Eu não consigo nada normal! Tudo que é importante pra mim parece fora de alcance e não tem nada que eu possa fazer a respeito. Eu vivo perdendo coisas e pessoas e agora estou te perdendo."
Draco pegou-o pelo braço e virou-o de modo que estavam em pé no meio da sala, encarando um ao outro. "Não está me perdendo, Harry."
"Então do que você chama isso?"
"Eu chamaria de arranjo temporário. Não está me perdendo. Você me tem, Harry. Gostando eu ou não... sou parte dessa luta agora. E estou pronto pra ela. Só vou conseguir me esconder por algum tempo, e aí eu vou voltar." Draco respirou fundo, observou Harry por um bom momento, e então se aproximou um pouco. "Você nunca me deixou. E eu prometo nunca te deixar."
Harry conhecia essas palavras. Ele as tinha escrito.
Draco pegou no bolso da camisa um pequeno pedaço de pergaminho. "Eu acabei de recuperar isso", ele disse ao desenrolar.
Harry reconheceu imediatamente e mordeu a língua num esforço vão de tentar impedir as lágrimas de virem a seus olhos ao aceitar o pergaminho de Draco. Levou apenas alguns momentos para ler as palavras que havia escrito antes de coloca-lo de lado. "Eu pensei... que se nós dois voltássemos, eu simplesmente podia pegar o pergaminho de volta... sem que você o lesse. Eu quis que ele fosse uma última mensagem... oh, Merlin."
Uma das mãos de Draco envolveu sua bochecha e o forçou a encarar um par de olhos brilhando de sinceridade. "'Oh, Merlin' o quê? Não queria que eu lesse? Está com vergonha do que escreveu?"
Harry sacudiu a cabeça, embora se sentisse, sim, um pouco envergonhado. Era tão estranho agora.
Draco deve ter sentido seu desconforto, porque franziu o cenho levemente. "Era sério o que escreveu?"
"É claro!" Harry disse antes de poder pensar. "Er... quero dizer... claro, er, é claro."
"E era pra valer o que você disse?"
"Disse... quando?"
Draco olhou para ele incredulamente. "Não se lembra de nada de ontem à noite?"
"Bem... eu não tinha certeza se você se lembrava do mesmo jeito que eu, ou se tinha mudado de idéia e..."
A outra mão de Draco veio segurar o rosto de Harry e ele se inclinou, a apenas centímetros de Harry. "Bom, então deixa eu tentar esclarecer as coisa. Acho que, em algum momento á beira da morte, você conseguiu se lembrar do que aconteceu na noite do eclipse. E do que disse na outra noite quando estava meio dormindo. E você gritou pra que eu escutasse e me puxou da beira da morte...e aí, no meio do inferno, você fez isso."
Draco beijou-o. Não o beijo nervoso e hesitante que uma parte do cérebro de Harry estava esperando, mas um beijo ousado, forçoso que teria derrubado Harry se Draco não estivesse segurando-o tão firmemente. Harry estava petrificado. Seu coração batia tão rápido de repente em seu peito, sua mente disparando, mas seus lábios correspondiam. E, tão de repente quanto, Draco parou.
Harry abriu os olhos – quando tinha fechado? – para ver Draco olhando timidamente para ele, um contraste cômico de suas ações segundos antes. Harry lambeu os lábios, surpreso de reconhecer o gosto de Draco neles. "Draco?"
Draco sorriu. Devagar, tirou os óculos de Harry e dobrou-os, colocando-os em um bolso. Estavam tão próximos que Harry conseguia vê-lo bem o bastante e o embaçado suave só deixava tudo mais surreal. "Você disse que seu maior medo era estar sozinho. Você encarou a morte sem medo... por mim..." Ele inclinou sua testa contra a de Harry, um gesto que parecia incrivelmente reconfortante e familiar para Harry, antes de continuar. "Depois de tudo que fez por mim... como eu poderia de deixar sozinho de novo?"
Draco moveu-se para beijar Harry de novo, mas Harry se esquivou. "Mas você ainda está indo embora, não é?"
O sorriso de Draco falhou. "Tenho que ir, Harry. Mas você sabe que eu volto assim que possível."
Deveria servir para assegurá-lo, mas não fez Harry se sentir muito melhor. Olhou para Draco por vários segundos, tentando decidir o que dizer a seguir. "Eu preciso saber, Draco... o que é isso? Entre a gente?"
O rosto de Draco tornou-se pensativo. "Não sei direito. Nunca senti nada assim... mas acho que é algo bom."
"Mesmo eu sendo um garoto?", Harry perguntou antes de poder se impedir.
Draco apenas sorriu. "Lembra quando eu disse que não tinha garotas em Hogwarts que me interessavam?"
"É... ah." Harry sentiu-se corar.
"É impressionante como você consegue ser ingênuo quando quer evitar as respostas óbvias." Draco provocou.
"Nem me lembre", Harry grunhiu. "Eu quase precisei bater minha cabeça na parede quando percebi quantas pistas eu tinha deixado passar."
Draco riu levemente. "E você não fazia idéia de que gostava de garotos?"
"Não gosto", Harry disse rapidamente.
Quando Draco fez um carranca para ele, Harry se corrigiu.
"Certo, existe alguma evidência. Mas eu não gosto de garotos. Eu só gosto de você. Isso soou bem idiota, não é?"
Draco sorriu, seus olhos cinza encarando os de Harry. "Você diz besteira o tempo inteiro. Mas não vou jogar isso na sua cara. Você diz coisas incríveis também. E disse que me amava..."
E então Draco se inclinava na direção dele e Harry fechava seus olhos e o mundo inteiro existia no toque experimental dos lábios de Draco e a respiração dele na bochecha de Harry, que envolveu suas mãos na nuca de Draco, cujos braços envolviam os ombros de Harry. Não fazia sentido, mas Harry sabia que não era para fazer. Depois de um bom tempo, Draco se afastou, mas, dessa vez, ele parou antes de se separar e lambeu devagar o lábio de Harry. Em toda sua vida, Harry nunca havia percebido que beijos podiam ser assim. Deixou seu lábio deslizar contra os de Draco e então, hesitantemente, desenhou o lábio superior de Draco com sua língua. Draco fez um som na garganta e prendeu a boca de Harry com a sua novamente.
Quando finalmente se separaram, Harry estava sem fôlego, confuso, feliz e nervoso de uma só fez. Era algo que nunca havia imaginado, e nunca teria desejado, mas, agora que era seu, era perfeito. Mesmo Draco indo embora, ele tinha essa coisa, aqui e agora. "Draco... o que significa isso tudo?", ele perguntou, sem nem saber direito o que "isso" era, mas, de alguma forma, sabia que Draco entenderia.
"Significa", Draco disse devagar, "que a vida vai ser um inferno pra gente e eu não trocaria isso por nada."
"Se isso é o inferno", Harry sussurrou, puxando Draco para mais perto, "nem imagino como é o céu."
"Ora, ora... astro de quadribol, auror recruta, filósofo júnior e poeta meia-boca."
"Desculpa?"
Draco sorriu. "Não se desculpa. Eu acho que eu gosto."
Harry tentou sorrir e os braços de Draco se apertarem em torno dele. Dessa vez, quando Draco o beijou, Harry correspondeu ansiosamente. Parecia durar para sempre e, ainda assim, não o bastante, quando Draco subitamente se afastou ofegando. "Harry... abre os olhos e olha."
O espanto na voz de Draco fez sentido no instante em que Harry olhou a seu redor. A Sala Precisa havia mudado. Não estavam mais em pé no meio de uma salinha aconchegante com um sofá e almofadas demais. Em vez disso, pareciam estar em meio a um descampado. Era noite e, acima deles, as estrelas brilhavam como diamantes. Mas o céu parecia pequeno diante da dança maravilhosa de centenas de fadas brilhando flutuando ao redor deles como um anel de luz. Harry ofegou e puxou Draco mais apertado para junto de si, como se para ancorar-se nesse lugar tão surreal. Um segundo depois, a melodia alcançando seus ouvidos e um calor familiar preenchendo seu peito.
"É tudo pra gente, não é?", Harry perguntou.
"É."
"Eu fiquei pensando... uma noite, quando estávamos lá fora... que era tudo pra nós também. O anel de fada de verdade, as montanhas, as estrelas. Era como nosso próprio mundo, onde ninguém podia nos tocar. Só a gente. Eu me lembro de pensar que seria quase triste voltar a Hogwarts. Isso faz algum sentido?"
"Faz", Draco respondeu e Harry notou uma ponta de tristeza em sua voz.
"Acabou mesmo, não foi?"
"Essa parte acabou", Draco disse, dando de ombros, "mas essa..." Ele apertou Harry. "...está só começando."
Sentindo-se um pouco estranho, mas não a ponto de querer se afastar, Harry apertou de volta. "Acho... que vai ficar tudo bem." Ele olhou de volta para Draco, cujo rosto agora estava emoldurado pelas luzes borradas das fadas atrás dele, fazendo seu cabelo parecer uma auréola bizarra. Harry riu e sentiu alguma tensão ir embora. "Vamos ficar bem."
"Vamos", Draco respondeu e inclinou-se para beija-lo suavemente. "E quem precisa do céu? Isso aqui é melhor."
Por um longo tempo, eles se abraçaram, observando as fadas, sem querer deixar sua ilusão e voltar ao mundo mundano. Finalmente, contudo, sabiam que era hora. A porta da sala estava escondida no lado do tronco de uma árvore ao longe no descampado. Draco pegou a capa de invisibilidade na mochila e jogou-a por cima de Harry e ele mesmo antes de abrir a porta. As luzes do corredor pareceram estranhamente claras depois do brilho da noite artificial. A luz do sol entrava pelas janelas, anunciando o fim da tempestade do dia anterior.
Quando a porta se fechou atrás deles, um pedaço de pergaminho flutuou para o chão, coberto de escrita rabiscada.
A quem interessar possa,
Se estão lendo isso, é porque Draco voltou a Hogwarts sem mim. Por favor, considerem este meu pedido final. Recebam Draco como se fosse eu. Minha morte não é culpa dele. Ele fez tudo que pôde para me salvar. Eu o perdoei e peço-lhe que façam a mesma coisa.
Draco é tão culpado da minha morte quando da morte dos meus pais, Cedric, Sirius e de incontáveis outros que morreram por conta de Voldemort – o real vilão nisso tudo. Draco finalmente percebeu que estava no controle de seu próprio futuro. Escolheu deixar tudo para trás, arriscando sua própria vida para fugir comigo e salvou minha vida mais de uma vez aqui. Eu sei – eu simplesmente sei – que, se ele pudesse, trocaria de lugar comigo.
Mas eu não gostaria que ele fizesse isso. Se este é meu destino, eu posso aceitar. Não tenho medo da morte, mas tenho medo de estar sozinho. Se lerem isto aqui, devem saber que eu não estava sozinho quando morri e, por isso, sou grato. Morri na companhia de um amigo, de alguém que amo. E não poderia ter pedido a ele por mais.
Draco, por favor, fique com minha capa de invisibilidade. Depois do que passamos com ela, não consigo imaginar ninguém mais ficando com ela agora. É uma parte de mim que você nunca vai ter de deixar para trás. Você nunca me deixou e eu prometo nunca te deixar.
Harry
I walked across an empty land.
I knew the pathway like the back of my hand.
I felt the earth beneath my feet.
Sat by the river and it made me complete.
I came across a fallen tree
I felt the branches of it looking at me.
Is this the place we used to love?
Is this the place that I've been dreaming of?
And if you have a minute why don't we go
Talk about it somewhere only we know?
This could be the end of everything,
So why don't we go
Somewhere only we know?
Andei por uma terra vazia
Sabia o caminho como a palma da minha mão
Senti a terra sob meus pés
Sentei à beira do rio e isso me tornou completo
Passei por uma árvore caída
Senti seus galhos olhando para mim
Esse é o lugar que costumávamos amar?
É o lugar com o qual eu sonhava?
E, se tiver um minuto, por que não vamos
Falar sobre isso em lugar que só nós conheçamos?
Isso poderia ser o fim de tudo,
Então por que não vamos
A um lugar que só nós conheçamos?
-Keane
N/T: Oi, pessoal. Aqui termina Eclipse.
A autora, Mijan, havia escrito um epílogo separadamente e uma continuação. Entretanto, afirmando que o epílogo não tinha a ver com o enredo original da seqüência, ela o deletou. E a "seqüência" só tem um capítulo e o título da história, no perfil dela aqui no site, diz assim "História abandonada, desculpem".
De qualquer forma, acho que podemos ficar felizes de ver essa fic enorme concluída.
Traduzir esses seis capítulos restantes foi importantíssimo pra mim e ver a forma como vocês me deram apoio e agradeceram por eu ter continuado foi inspirador e maravilhoso. Meu coração ficava morno e feliz toda vez que eu vinha aqui e lia os comentários de vocês.
Sobre o grupo, eu sou a única integrante ainda "ativa", por assim dizer. Semana que vem eu vou entrar em um mês importantíssimo para minha faculdade e, durante o mês de fevereiro, eu vou me ausentar do fandom. Mas, assim que essa correria passar, eu vou voltar a traduzir.
Existem duas fanfictions do grupo inacabadas, "Mundos Diferentes" e "The Veela Enigma". MD falta menos pra acabar. São mais capítulos, porém capítulos curtos, acho que os seis últimos capítulos somados de Eclipse não dá, em número de páginas, os 20 capítulos restantes de Mundos Diferentes.
Eu vou fazer como fiz com Eclipse. Vou traduzir tudo o que falta e depois que eu tiver terminado tudo, vou postando os capítulos pra não correr o risco de atrasar e abandonar de novo como aconteceu.
Depois da conclusão de Mundos Diferentes, eu pretendo tomar a tradução de The Veela Enigma.
Enquanto isso e depois disso, eu devo me voltar para minhas próprias criações, dar mais prioridade a elas. Tenho fanfictions em progresso de variados fandoms em processo de criação e por volta de seis fanfictions completas de Harry Potter que eu preciso reescrever.
Obrigada por terem perguntado da minha saúde. Eu tive cálculo renal e sofri muito por causa disso, mas agora está tudo ok. :)
Obrigada por terem acompanhado a autora, a mim e as outras duas tradutoras nessa jornada.
E obriga também a DW03, que me fez uma correçãozinha, meu corretor do Word às vezes troca minhas palavras pra coisas totalmente sem sentido. :P
Qualquer dúvida, comentário, sugestão, reclamação que quiserem me fazer, vocês podem mandar um email para rebeccamae1987 (arroba) gmail . com
Espero que tenham gostado do meu trabalho.
Rebecca.
