E finalmente, o último capítulo! E olha o tamanho do bichinho! Eu disse que ia me redimir, não disse?
Antes de mais nada obrigada a todos que acompanharam a fic! E que não desistiram dela, mesmo com minha eterna lerdeza! ii Seus comentários sempre positivos foi o que meu deu forças pra continuar escrevendo (que coisa brega ne? mas é verdade!)
Comentando rapidamente sobre a parte da declaração: eu pensei nisso por dois anos! desde que começei a escrever eu ficava matutando em como seria essa cena... pensei em tantas coisas diferentes, tantas situações! umas ridiculas, outras lindas (mas que eu esquecia logo depois... já que eu fico pensando nisso antes de dormir e ai quando acordava... TT) . Acabei ficando com uma opção bem simples... Até pq essa fic já ta grande mais!
ah e perdão por eventuais erros de pontuação! já que sou eu mesma que reviso minhas histórias é provável que eu tenha deixado escapar algo!
então, sem mais enrolação! espero que gostem!
Capítulo 12 – Para sempre
Já se faziam três dias desde que os cinco rapazes e a deusa voltaram ao Japão. Preocupada com a saúde de seus cavaleiros, Saori havia pedido para que permanecessem ali aos seus cuidados até que estivessem curados.
Ikki não havia gostado da idéia, mas concordou em ficar por mais um tempo, não apenas por insistência do irmão, mas por razões que incluíam mantê-lo longe de um certo cavaleiro. Para sua surpresa não estava tendo trabalho algum. Hyoga parecia ter entendido o recado e trocava apenas poucas palavras com Shun, isso quando não havia outra opção.
Andrômeda já havia notado a indiferença do russo desde que retornaram, mas não comentou nada por respeito ao amigo. Sentia que o Cisne precisava de um tempo sozinho, pois era assim que ele lidava com as coisas.
É claro que não se sentia bem com a situação, ainda mais por que se sentia mais próximo de Hyoga do que nunca! Aquele desabafo de Hyoga no hospital tinha sido um grande passo e, por isso, não queria forçar uma conversa indesejada.
Bem... Isso era o que ele pensava no começo! Mas já haviam se passado três dias! E não era só a indiferença! Hyoga tratava de sair de qualquer lugar em que ele estivesse e não fazia isso com mais ninguém! Aquilo era pessoal e já estava na hora de saber do que se tratava.
Da próxima vez que o encontrasse falaria com ele!
Por sorte, essa próxima vez aconteceu mais rápido do que pensou. Enquanto lia o jornal junto com o irmão numa das salas, viu o loiro pela janela caminhando pela trilha do jardim. Pediu licença ao mais velho com a desculpa de que iria para o banho e seguiu o rapaz pouco depois. Agradeceu por Hyoga estar no jardim, afinal ali eles teriam privacidade para conversar! Andava com passos curtos, pois não queria que o loiro descobrisse que estava seguindo-o e, a alguns metros à frente, sentiu o cosmo gélido do rapaz. Seguiu em sua direção até ver pequenos flocos de neve voando com o vento. Na água do rio que passava próximo a si, boiavam placas de gelo despedaçadas.
Abriu passagem por meio de uns arbustos altos. Sua coloração quase toda mudada para branco por conta do frio. Hyoga estava parado, punhos fechados ao lado do corpo. De onde estava só podia ver suas costas. Parecia observar a água do rio congelando pouco a pouco. Por sua volta inúmeros pontos brilhantes dançavam até cair aos seus pés.
Shun sentiu um vazio crescer dentro de seu peito ao vê-lo sozinho em meio ao gelo. Seria uma cena bonita se não fosse tão triste. Mas não pôde pensar em muito mais. Hyoga havia finalmente notado que alguém o observava. Olhou para trás rapidamente e, quase no mesmo instante, os cristais de gelo evaporaram no ar e a água começava a voltar ao seu estado líquido.
Os olhos azuis se arregalaram ao ver o japonês. Estava tão perdido em seus pensamentos que nem ao menos havia notado a aproximação de alguém! E ainda por cima tinha que ser Shun!
Deu novamente as costas ao garoto e andou rápido, se distanciando.
- Espera, Hyoga! – o mais novo gritou, acompanhando seus passos largos.
- É um passatempo seu espiar os outros? – o loiro perguntou mal-humorado e sem parar de andar.
- Eu não estava te espiando, vim pra conversar! Por que está fugindo? – perguntou, atrapalhando-se num galho.
O russo parou repentinamente e virou-se surpreso. Suspirou e sentou num tronco largo que estava caído no chão.
- Eu não estou fugindo... – disse enfim, amenizando a voz.
Shun sentou-se próximo a ele. Botou uma perna em cada lado do tronco, ficando de frente para o perfil de Hyoga.
- Sabe, se eu fiz algo que te desagradou eu gostaria de saber o que foi. – pediu, deixando as costas curvarem um pouco.
- Você não fez nada.
- Então por que está me evitando?
- Ficar perto de mim não é bom pra ninguém... – falou com a voz e o olhar tristes.
- Hyoga... Se estiver falando sobre Camus e Cristal, não foi culpa sua. – Shun comentou de forma baixa e doce.
- É fácil falar.
- Todos nós perdemos pessoas importantes...
- Mas ninguém teve que matá-los com as próprias mãos. – falou olhando fixamente nos olhos grandes e esverdeados de Andrômeda.
- Hyoga... Sabe... Eu sempre te achei muito forte e ainda acho. Se fosse eu, não sei se conseguiria passar por tudo isso... – aproximou-se mais, o que causou certa inquietação no russo. – Mas não ache que ser forte é ter de agüentar tudo sozinho. Você não está sozinho... – o garoto levou a mão direita até a do Cisne, repousando-a por cima da pele morena. – E você não vai me machucar, por isso não tente ficar longe de mim.
Apertou mais os dedos sobre a mão do mais velho, deixando claro que estava falando sério.
Hyoga estava surpreso com suas palavras, mas mais ainda com aquela aproximação repentina.
Sua boca estava entreaberta, mas ele não queria falar nada, não sabia o que dizer. Não conseguia nem ao menos raciocinar direito. O toque quente da mão de Shun em sua pele e o brilho de seus olhos carinhosos parecia ter sugado toda a sua atenção.
Aquilo não era normal! Aquilo não acontecia com mais ninguém! Por que aquele garoto provocava essas sensações inexplicáveis? Um simples sorriso já tirava todos os problemas de sua cabeça e um toque o fazia perder toda a linha de raciocínio. Mas isso não era o que mais importava naquele momento.
Ele sempre esteve sozinho. Sempre. E agora Shun vinha lhe dizer o contrário?
Ele estava ali e estaria sempre que precisasse. Era isso que aqueles olhos gentis o diziam. E ele precisava acreditar... Já estava cansado de tentar ser forte. Pelo menos naquele instante estava tudo bem fraquejar.
Sentiu os olhos úmidos e os fechou abaixando o rosto, mas não para esconder as lágrimas e sim para descansar a cabeça naquele ombro pequeno. Os dedos finos de Andrômeda entrelaçaram-se aos seus, o cheiro suave que vinha dele misturado ao seu toque... Sua pele tão branca e macia... Era muito mais do que Hyoga podia esperar. O peito ardia quase insuportavelmente, mas ele não conseguia se mover. Seu choro silencioso não era apenas pela dor da perda, mas por estar se dando conta de que Shun era diferente de qualquer outro.
Deixou que palavras saíssem de sua boca, sem pensar muito nelas:
- Por que você é assim?
Andrômeda não entendeu, mas também não perguntou o que queria dizer. Fechou os olhos para sentir melhor a sensação de tê-lo tão próximo.
Não ligava para a ardência em seu rosto ou para ritmo rápido de seu coração. A única coisa que importava era que Hyoga estava ali e ele não queria que aquele momento acabasse. Mas algo estava errado... Gostar tanto de estar com alguém, querer ver essa pessoa sempre feliz, não importando o que tivesse que fazer! Sentir-se daquela forma tão estranha sempre que está perto desse alguém... Só havia uma explicação, não é? Hyoga era importante. Mais importante do que um amigo deveria ser. Mas eles eram cavaleiros, lutadores que têm sempre que estar preparados para morrer! Nenhum deles tinha o direito de ter esse tipo de emoção por quem quer que fosse!
Empurrou Hyoga de forma delicada, apenas o suficiente para se distanciarem. Aquilo estava indo longe demais... Sua voz saiu tremida e baixa:
- Tenho que voltar... Nii-san deve estar me procurando. Eu saí sem dizer nada pra ele e sabe como ele fica... – mentiu.
O loiro balançou a cabeça concordando. Os olhos estavam avermelhados por conta do choro, assim como partes de seu rosto. Observou enquanto Shun se levantava. Braços cruzados, abraçando o corpo magro. Parecia sem graça, talvez tivesse passado dos limites...
Esperou até perdê-lo de vista para esfregar o rosto com as palmas das mãos. Não devia ter feito aquilo... Mas era impossível manter-se distante dele! Com certeza Camus não aprovaria suas recaídas constantes diante de Shun. Mas não conseguia evitar... O garoto tinha algum efeito misterioso sobre ele que ele não sabia como impedir.
As palavras duras do cavaleiro de Aquário ecoaram por sua mente; sentimentos não levam a nada, apenas atrapalham na hora da batalha. Era preciso se manter impassível. Ser forte e racional em todas as situações.
Mas isso estava sendo mais difícil de conseguir a cada dia.
oOoOoOo
Não foi estranho para nenhum dos dois que quase não se falaram depois disso. Shun não sabia ainda o que pensar ou como agir estando com Hyoga e o loiro procurava manter distancia de todos, desaparecendo por quase o dia inteiro.
O dia seguinte não tinha nada para ser diferente. Shun tinha acordado um pouco mais tarde do que o normal, a mesa do café já estava quase vazia, mas tinha o suficiente para ele comer bem.
Seiya entrou na sala onde eram servidas as refeições silenciosamente e sentou na cadeira em frente a ele, inclinando como se fosse contar um segredo.
- Ficou sabendo? Jabu e os outros estão vindo pra cá agora. Parece que aconteceu alguma coisa no Santuário.
- O que? – surpreendeu-se, deixando a comida de lado. – Algum acidente?
- Eu ainda não sei, mas foi sério o suficiente para eles virem conversar pessoalmente com Saori.
- Parece que não vamos ter sossego tão cedo... – suspirou desanimado – Os outros já sabem disso?
- Já. Faz um tempo que eles entraram em contato, não devem demorar muito pra chegar.
- Tomara que estejam todos bem...
oOoOoOo
Não demorou muito para saberem que se tratava de um novo inimigo. Assim que os outros cavaleiros de bronze deram a noticia de que Aldebaran tinha sido ferido, um atentado a vida da deusa aconteceu na frente de todos. O homem chamava-se Shido e dizia ser das terras nórdicas de Asgard, lugar comandado por Hilda.
Algo estranho estava acontecendo por lá e precisavam descobrir o que era. Hyoga ofereceu-se para ir numa missão de reconhecimento e Shiryu ficou encarregado de recolher qualquer informação que seu mestre pudesse fornecer.
Partiram naquela mesma noite já que todo minuto era importante. Despediram-se de todos na porta da mansão. Hyoga recebia as últimas instruções de Saori: se ele não entrasse em contato em 24 horas, os outros estariam livres para agirem como quisessem.
Shun sentiu um mal-estar ao ouvir que existia o risco de Hyoga ser ferido ou morto estando em um lugar longe e isolado sem ninguém conhecido por perto. Na verdade sentia uma grande vontade de gritar não só com ele, mas com todos ali, que pareciam não estar ligando a mínima em mandá-lo sozinho para Asgard! Achava-os todos irresponsáveis e inconseqüentes, mas manteve-se calado, sem nem ao menos se despedir de nenhum dos dois. Seu olhar se cruzou com o de Hyoga e os dois trataram de desviar na mesma hora. Decidiu sair da sala antes que alguém notasse o quanto estava quieto e viessem lhe encher com perguntas.
oOoOoOo
Hyoga já havia se partido há um dia. Saori informou logo de manhã cedo, que o cavaleiro havia se comunicado, dizendo sua localização e dando algumas informações sobre o local e sobre Hilda, mas desde então não se ouviu mais falar dele.
Seiya e Shun esperavam por notícias numa sala próxima ao escritório da garota, Andrômeda estava sentado no sofá, braços e pernas cruzadas e expressão apreensiva. Seiya apoiava-se no parapeito de uma janela e, percebendo o nervosismo do amigo, tentava acalmá-lo.
- Ele está bem, Hyoga sabe se cuidar.
Mas só conseguiu arrancar um sorriso forçado do rapaz.
- É sempre bom mandar alguém antes – continuou – Como nós fizemos quando fomos ao Santuário pela primeira vez, lembra?
- Pelo menos não estávamos sozinhos...
- Espera só mais um pouco, se ele não entrar em contato nós vamos, não foi esse o combinado?
- Mas e se chegarmos tarde demais? – Shun perguntou com olhar penoso, que foi retribuído por Pégaso.
- Vou falar com Saori...
oOoOoOo
Batalhas mortais começaram a ser disputadas entre os cavaleiros de Atena e os Guerreiros deuses de Hilda, que estava sendo controlada por um anel misterioso. Ao final, a garota voltou a si, mas isso não foi o fim dos problemas. Sorento de Sirene, que se dizia um general marina a serviço do deus Poseidon apareceu. Pouco depois Saori foi levada para o fundo do mar por conta do capricho do deus.
Os cavaleiros, cansados e feridos, foram acompanhados por Hilda e sua irmã até o castelo para que pudessem descansar, mesmo que por pouco tempo, e pensarem em suas próximas ações.
Ikki não os acompanhou e seguiu seu próprio rumo, dizendo que apareceria caso precisassem.
Hyoga era o que parecia mais debilitado e isso era notado por todos. Shun estava sentado ao seu lado na sala onde todos estavam reunidos. Não sabia pelo que o Cisne havia passado, mas lembrou-se das palavras de Shido, com quem lutara mais uma vez naquele mesmo palácio. Ele havia dito que o russo estava fraco demais para continuar, mesmo sendo o mais apto ao clima, ele já estava com forças esgotadas depois de tudo. Saber disso deu forças para que Shun o vencesse, afinal Hyoga e Seiya precisavam de ajuda! Quando ele e Ikki encontraram o loiro caído no corredor, soube que o guerreiro deus não havia exagerado. Hyoga nem ao menos conseguia ficar de pé por si só. Shun o carregou durante quase todo o tempo e ficou surpreso por Hyoga não ter sido contra, afinal o russo sempre fora orgulhoso demais para pedir ajuda. Ele gostava de resolver tudo sozinho, sempre.
Seu orgulho parecia ter voltado agora que todos estavam naquele salão. Ele nunca iria admitir que não estava bem... Mas Hyoga estava mudado, pensou. Começava a se abrir mais e estava mais gentil. Pelo menos com ele era assim. E até que gostava de saber que o loiro agia de forma mais natural apenas com ele. De alguma forma pensar que o russo poderia se abrir com outras pessoas o incomodava mais do que devia.
Seus pensamentos foram interrompidos por Seiya, que era o mais exaltado dos quatro. Ele estava nervoso com o sumiço de Saori e Shiryu tentava acalmá-lo dizendo que voltaria aos Cinco Picos, pois Dohko com certeza saberia de alguma coisa sobre o reino submarino.
Hyoga se pronunciou, não demonstrando o cansaço de seu corpo na voz:
- Talvez seja melhor nos separamos, assim vamos ganhar mais tempo.
- Você acha que está bem o suficiente para isso? – Shun perguntou, preocupado.
- Não é uma questão de estar bem ou não... Saori foi levada e nem ao menos sabemos onde encontra-la!
- Eu sei... – disse, desapontado e certo de que o russo não ia desistir da idéia.
Seiya concordou e os quatro seguiram por caminhos diferentes mais uma vez.
oOoOoOo
Uma nevasca brusca começou a cair naquela tarde, mas isso não desanimou os cavaleiros que continuavam com sua busca.
Hyoga já estava andando por horas, nem mesmo sabia para onde estava indo. Tudo o que via era o branco de Asgard, tão igual ao de sua terra natal.
Sentiu as pernas fraquejarem. Shun estava certo, ele não estava em seu melhor estado para sair daquele jeito em meio aquele tempo.
E mais uma vez seus pensamentos se voltaram para Andrômeda. Há poucos dias havia prometido a si mesmo mantê-lo longe, mas por que isso era tão difícil? Por que lidar com Shun era tão diferente de lidar com os outros? Ele não tinha a menor dificuldade em ser grosso com Seiya ou ignorar Shiryu ou Ikki, mas mesmo que tentasse ser assim com Shun, se arrependeria logo em seguida.
Quando isso começou? Na volta do santuário... Ou antes disso?
O frio penetrava por sua armadura, seu corpo pesava e ele sabia que precisava parar.
Encontrou uma rocha grande no meio do caminho e recostou nela para se proteger do vento. Riu.
Ele, o cavaleiro do gelo, se protegendo do frio?
Não podia negar que antes era mais fácil se acomodar as baixas temperaturas. Talvez ele estivesse passando muito tempo no Japão e assim se acostumando com o sol ou talvez fosse por causa dele...
Afinal, desde que foi salvo por ele, parte de seu cosmo passou a fazer parte de seu próprio corpo. Mesmo sendo uma parte pequena, o loiro conseguia sentir claramente algo cálido dentro de si. Algo que não sentia antes de Shun ter feito aquilo... Era quase como se alguém tivesse acendido uma pequena centelha em meio a um deserto congelante. E por mais que o vento soprasse aquele pequeno fogo não apagava... Na verdade parecia se espalhar!
Sentiu a ardência no peito aumentar e passou a mão no rosto. Aquilo estava passando dos limites! Shun não era diferente de ninguém e já estava na hora daquela besteira acabar! Ele não iria mais fraquejar!
oOoOoOo
Japão – Poucos dias depois.
Ouviu o som da própria respiração lenta. As pálpebras pesavam e ele não queria abri-las ainda. Sua mente voltava a funcionar aos poucos. Poseidon, a armadura de Aquário, Isaac.
A cabeça doeu ao lembrar do antigo amigo. Nunca imaginou que aquele tinha sido seu destino, e tudo por sua causa! Mas era tudo passado agora...
Sentia o cheiro inconfundível de hospital e o som de páginas sendo viradas. A curiosidade foi maior que o cansaço e tentou abrir os olhos, mas algo cobria sua vista esquerda.
- Ah, você acordou!
Ouviu a voz tão familiar exclamar. Era Shun que estava sentado numa cadeira ao lado da cama e tinha uma revista aberta em cima das coxas.
- Vou chamar o médico. – ele disse sorrindo.
- Espera... – Hyoga pediu, forçando a voz a sair – Como você está... Hum... Todos... – se corrigiu.
- Estamos todos bem. Nii-san pra variar sumiu e Shiryu teve que ir pra cirurgia, como você. Mas no caso dele não deu pra salvar nada... Ele não vai enxergar mais... De novo... – o japonês contava com calma – Ele vai voltar pra China logo. Shunrey-san vai cuidar dele. – respirou, dando uma breve pausa – Deve ser bom, ne?
- O que?
- Ter alguém pra cuidar de você... Shiryu é uma pessoa de muita sorte! – e sorriu ainda mais, quase fechando os olhos da maneira mais inocente. Hyoga sentiu o rosto corar, mas não conseguia desviar dele... Por que era tão adorável?
- Ora, olha só quem acordou! – Era Seiya que entrava no quarto. Apoiou-se nas costas da cadeira em que Shun estava e olhava Hyoga com um sorriso – Até que enfim! Shun não ia sair daqui até você acordar. Acredita que ele não dormiu até agora?
O rosto de Andrômeda adquiriu uma tonalidade escarlate e sua voz saiu mais fina do que de costume:
- Eu cochilei! Um pouco...
Hyoga não pôde deixar de sorrir quando Seiya passou a mão pelo cabelo de Shun, desarrumando-o. A expressão em seu rosto tímido o fez de alguma forma, sentir-se melhor.
- Você não precisava ter feito isso... Por quantas horas eu dormi?
- Umas oito. – Seiya respondeu.
- Você deve estar cansado – dizia olhando para Shun – Por que não volta pra casa e descansa? Eu vou receber alta daqui a pouco mesmo...
- É que eu... Conversei um pouco com o médico e ele disse que não é bom te deixar andar sozinho até você se acostumar... Porque a distância e a perspectiva da visão mudam quando você não pode usar um dos olhos... – explicava-se com a voz baixa e olhando para as próprias mãos.
Hyoga surpreendeu-se. Ele havia realmente se preocupado bastante!
- Pode deixar que eu levo ele em segurança. – Pégaso brincou, piscando um dos olhos.
Shun concordou em voltar e, depois de um banho rápido, vestiu pijamas e deitou em sua cama.
O céu já estava escuro, o que era bom, pois ele não gostava de dormir com claridade nos olhos. Deixou a janela aberta para deixar a brisa entrar. Estava uma noite bonita, quase sem nuvens e podia ver algumas estrelas. Fechou os olhos... Estava mais cansado do que pensava...
oOoOoOo
Estava sozinho num lugar desconhecido, tentava chamar por alguém, mas sua voz não saia. Ao olhar para trás via apenas escuridão e sabia que ela o engoliria por completo se não saísse dali. Um par de olhos vermelhos o encarava, não tinha pra onde fugir. Não conseguiria nunca sair daquela escuridão nem se esconder daqueles olhos malignos... Metade de seu corpo estava coberto por aquelas trevas e ele tentou gritar mais uma vez. Sua garganta doía... Uma risada sinistra ecoava...
"Você é meu."
Abriu os olhos rapidamente. Um pesadelo. Shun ofegava e sentia o rosto molhado de suor e lágrimas. Hyoga estava debruçado por cima de si, segurando-o pelos ombros, parecia assustado com o estado do amigo.
- O que... – Andrômeda tentou entender o que estava acontecendo.
- Eu... Estava no meu quarto e ouvi você... Você estava tremendo. – o russo tentou explicar e tinha os olhos arregalados.
- Foi só um pesadelo – sorriu, tentando acalmar a si mesmo e a Hyoga.
- Vou pegar um copo de água. – o loiro falou enquanto se levantava com pressa.
- Não precisa, eu já estou bem! – o mais novo sentou no colchão enxugando o rosto com as mangas da blusa.
- Não está não.
Hyoga não demorou nem três minutos para voltar. Parecia tão abalado quando Shun, e o mais novo não pôde deixar de ficar curioso pensando no que tinha feito para assustá-lo tanto assim. Bebia em goles pequenos e se surpreendeu ao sentir a mão de Hyoga em sua testa, retirando os fios de cabelo que grudavam em sua pele.
- Você está gelado... Foi tão ruim assim? O sonho...
- Pesadelos são sempre ruins. – o japonês concluiu ainda sorrindo, tentando evitar ter de responder.
- Não me conte se não quiser, mas não fique rindo como se não fosse nada. – o russo estava sério e levou as mãos até os botões do pijama de Shun, abrindo os dois primeiros.
Shun sentiu até as orelhas ferverem e quase derrubou o copo que segurava. Ao olhar para Hyoga pensou ter visto um tom avermelhado em sua face, mas não tinha como ter certeza já que a única luz acesa no quarto era a do abajur ao lado da cama.
Deixou o copo vazio no criado-mudo e puxou as cobertas pra cima das pernas. O vento estava mais frio agora. Hyoga percebeu e levantou para fechar o vidro e as cortinas.
Shun o observou enquanto caminhava. Estava feliz com a preocupação do amigo... Só ganhava aquele tipo de atenção do irmão, mas aquilo era diferente... Era importante para ele saber que Hyoga se preocupava!
- Desde criança eu tenho esses sonhos... – decidiu contar, fazendo o russo se virar ao terminar de trancar a janela. -... Em que eu estou sozinho e uma sombra me persegue. Eles pararam por um tempo, mas... Parece que agora voltou... Mas é apenas um sonho bobo... Talvez eu tenha algum trauma de escuro. – brincou.
Hyoga voltou a sentar no colchão. Pegou a mão branca que repousava por cima do cobertor e a deixou por cima da sua.
- Não é bobo se te deixou desse jeito.
Shun sentiu o coração apertar e disparar com aquele outro toque inesperado. Estranhava toda aquela atenção que estava recebendo e mais ainda os toques. Desde quando Hyoga tinha ficado tão físico?
Levantou o olhar para o russo. Metade de seu rosto estava coberto com ataduras, mas isso não diminuía em nada sua beleza. Tocou o local coberto com a mão livre, numa carícia tímida.
- Não vai perguntar como aconteceu? – o loiro perguntou sorrindo discretamente.
- Não... – o japonês balançou a cabeça – Não vou te perguntar por que quero que você me conte por vontade própria. Quero que me diga apenas o que quiser.
Hyoga olhava para baixo e sua expressão pareceu entristecer. Sentia-se angustiado e bem ao mesmo tempo. Só não sabia como isso era possível.
Queria poder fazer mais para Shun... Ele sempre esteve lá quando precisou, não foi? E o que ele podia fazer? Levar um copo de água? Sentia-se inútil por não conseguir faze-lo sentir-se melhor... Mas o que mais o incomodava era a dúvida: Desde quando aquele garoto passou a significar tanto? Quando nasceu aquela vontade de querer estar sempre perto?
Notou que ainda segurava a mão de Shun e a soltou, sem graça.
- O médico pediu pra eu voltar em três dias pra ver como vai estar.
- Eu posso ver?
- Está bem feio... – disse encabulado.
- Não tem problema.
Hyoga pensou alguns segundos. Ajeitou o corpo e começou a desfazer o curativo. Manteve o rosto baixo ao terminar, não se sentia muito a vontade em ser visto daquele jeito.
Fechou as pálpebras por um momento ao sentir as mãos pequenas e quentes em sua pele. Um calor leve se espalhou pelo resto de seu corpo.
Quando voltou a abri-las encontrou o rosto de Shun a poucos centímetros do seu e ele olhava despreocupado para a vista ferida.
- Que exagero Hyoga. Não tem nada de mais, só está vermelho.
- E inchado.
- Isso logo sai. – concluiu estalando a língua, o que o Cisne achou bem engraçado.
- Você está morrendo de curiosidade, não está? – o loiro perguntou em tom de brincadeira, fazendo Shun sorrir em resposta e olhar para o lado. – O nome dele era Isaac... – continuou – Ele treinou comigo pela armadura de Cisne, na Sibéria. Ele estava lá há mais tempo que eu e sempre foi mais forte que eu... E era o mais apto a vestir a armadura.
- E o que aconteceu? – Shun estava curioso para saber como o antigo amigo de Hyoga havia virado um marina.
- Quando eu achei estar preparado para nadar até o barco de minha mãe, uma correnteza me pegou desprevenido e Isaac me salvou, mas por causa disso ele acabou sendo levado em meu lugar... Eu achei que ele tivesse morrido e meu mestre também. – suspirou – Mas ele chegou ao palácio de Poseidon de alguma forma e acabou se tornando um marina. Ele queria se vingar de mim por ter tomado sua vida e sua visão. – disse isso levando a mão até o olho ferido – Ele perdeu o olho tentando me salvar... E eu disse então para que ele tirasse a minha visão, mas ele não fez isso... Ele não atingiu fundo o suficiente.
- Ele não queria te machucar de verdade...
- Acho que não... Não sei direito os motivos dele, mas Isaac era meu inimigo naquela hora e eu não podia perder aquela luta. Não depois de já ter sido enganado por aquele desgraçado que se passou por Camus. E então eu o matei... Pela segunda vez.
Shun abraçou os joelhos, sem saber o que dizer.
- Obrigado... Por me contar.
- Acho que você virou meu confidente... – comentou sorrindo.
- Isso é bom. Quer dizer que você confia em mim. – Shun deixou o corpo de aproximar de Hyoga, cruzando as pernas na frente do corpo. – Vocês eram amigos?
- Sim. E ele me ajudou muito durante o treinamento... Mas eu não te contei isso pra você ficar com pena de mim, ouviu? Eu não posso mais me abalar sempre que isso acontece... Ou eu...
"Eu enlouqueço se pensar que o mesmo pode acontecer com você..."
- Esquece... – concluiu estalando a língua.
Os dois estavam virados um para o outro, repousando as cabeças no encosto da cama. Shun não sabia o que dizer, apenas olhava para o colchão. Hyoga o observava silenciosamente. Sentia-se melhor por ter desabafado, ou estava melhor pelo simples fato de estar com ele?
Idéias assim não paravam de lhe ocorrer, mesmo sem entender direito seu significado.
Seguiu os olhos verdes quando eles se moveram de encontro aos seus e novamente aquela sensação de formigamento começou, fazendo seu coração dar um pequeno disparo. Se fosse possível podia ficar naquela posição por toda a noite, apenas vendo os tantos detalhes daqueles olhos brilhantes.
- Você acha que um dia isso vai acabar? – Shun perguntou, de forma doce.
- É claro que sim... Não vamos lutar pra sempre.
- Certo... Afinal, vamos morrer um dia... – disse irônico.
- Falando assim nem parece você. – o russo comentou com um sorriso triste.
- É só que... – suspirou – A cada dia que passa eu acho mais e mais difícil viver uma vida normal, sem ter que me preocupar se vou ter que matar alguém ou... – parou de repente ao sentir um puxão em seu braço, que fez seu corpo encostar-se ao de Hyoga.
O rosto branco virou escarlate em menos de um segundo, mas ele não se moveu e deixou a cabeça cair por cima do ombro do Cisne. Gostava daquela proximidade, mas aquilo o deixava nervoso a ponto de respirar com dificuldade. Fechou os olhos e tentou se acalmar. Conseguia ouvir a respiração descompassada de Hyoga e sentia os fios de cabelo dourados roçando em sua pele. Seu sangue parecia borbulhar.
- Não quero que pense assim. – a voz rouca do mais velho em seu ouvido fez seu corpo tremer. Encolheu-se para tentar disfarçar. – Eu ainda vou ao cinema com você, esqueceu? – o loiro continuou.
Shun teve que pensar antes de lembrar da conversa de tempos atrás.(1)
- Você ainda lembra disso?
- É claro! Eu gosto de cumprir minhas promessas. Mas você vai ter que esperar até eu sarar disso aqui. – avisou, apontando para o próprio rosto e fazendo Andrômeda rir.
Passaram horas conversando sobre os mais variados assuntos até não agüentarem mais manter os olhos abertos. Ao acordarem na manhã seguinte, sentiram-se tão bem que ninguém dizia que haviam passado por experiências quase mortais no dia anterior.
Hyoga, que era sempre disciplinado na hora de acordar, levantou no fim da manhã e o cheiro do almoço sendo preparado já podia ser sentido pela casa.
Desceu, já de banho tomado, e encontrou Shun na sala de televisão tentando encontrar a saída de um labirinto num jogo e vídeo-game.
- Bom dia... – disse, ainda rouco de sono.
- Bom dia! – o japonês exclamou seguindo o loiro com o olhar quando ele se sentava de qualquer jeito no lugar vazio ao seu lado.
- Não sabia que você jogava.
- É a primeira vez! Quer jogar também?
- Não, eu fico na torcida... – bocejou – Acordou faz muito tempo?
- Eu não... Faz menos de uma hora acho.
Uma música tocou na TV, anunciando que o garoto havia perdido o jogo.
- Desisto... Isso é muito complicado...
- Deixa eu tentar.
- Você não ia ficar só na torcida? – Shun perguntou brincando e entregou o controle para Hyoga.
O russo prestava atenção na TV, mas Shun estava mais interessado nele. Perdera o jogo de propósito porque não conseguiria se concentrar com Hyoga estando ali. Agradeceu aos deuses pelo Cisne estar sentado à sua direita, pois assim não corria o risco dele perceber seus olhares, já que aquele lado de seu rosto estava coberto.
Pensava em como o loiro estava carinhoso na noite passada e em como gostaria que isso se repetisse, mas ao mesmo tempo se culpava por pensar daquele jeito.
Estar perto de Hyoga sempre trazia a tona essas emoções contraditórias: Sentia-se ansioso e tranqüilo, triste e feliz, calmo e com medo... Seriam esses sentimentos que se nutrem por um amigo? Ou era algo maior? Não ficava daquele jeito com mais ninguém... Hyoga era especial, mas só de chegar a essa conclusão seu coração doía e uma voz em sua cabeça mandava-o parar de ter essas idéias sem sentido.
"Mas... Eu não posso controlar o que você me faz sentir, Hyoga..."
Deixou que a cabeça repousasse em seu ombro, como tinha feito na noite passada. O mais velho se surpreendeu com a ação repentina.
- Tudo bem com você? – perguntou, preocupado.
- Está... Só me deixa ficar assim, só um pouco...
O loiro sentiu o sangue subir até a cabeça e correr rápido por toda a extensão de seu corpo. Não sabia o que fazer! Seu corpo recusava-se a mexer qualquer músculo! Mas nem de longe aquilo era ruim... Na verdade, era muito bom sentir o peso de Andrômeda... Sentir seu perfume tão de perto...
oOoOoOo
- Você tem nervoso? – Shun não segurava o riso ao perguntar.
- Vai fazer ou não? – Hyoga evitou a pergunta, numa mistura de mau-humor e timidez.
- Senta ai.
Já era o terceiro dia desde que haviam retornado e Hyoga tinha acabado de voltar de uma consulta médica. O doutor receitara um colírio para ajudar na cicatrização do olho, mas por mais que tentasse, não conseguia colocar o remédio! Pediu ajuda a Shun e, por isso, estava agora sentado na cama do garoto e tentava em vão não olhar para o corpo esguio parado em frente a si.
Seu rosto foi levantado alguns centímetros pelo japonês, que deixou a mão escorregar até o pescoço do russo, numa carícia disfarçada. Pegou o tubo com uma mão e levou a outra até o olho ferido do rapaz, mantendo-o aberto, para então pingar o líquido duas vezes.
- Pronto, nem doeu ne? – perguntou ainda sorrindo e se inclinou para secar o canto do olho de Hyoga, que lacrimejava um pouco.
- Isso é horrível! – reclamou, levantando a mão, mas foi impedido pelo menor.
- Nada de coçar.
- Mas ta ardendo!
- Você ta parecendo uma criança! – Shun se divertia com a reação do outro.
Aproximou bem os lábios do local machucado e soprou gentilmente algumas vezes. Hyoga prendeu a respiração, assustado com a falta de espaço entre os dois, não piscava em momento algum.
- Ta melhor agora?
Não respondeu. Abaixou o rosto e fingiu coçar as bochechas, mas verdade escondia a vermelhidão de sua face. Levantou-se apanhando o frasco da mão de Shun e caminhou até a porta, mas parou antes de chegar ao corredor.
- Ei... Amanhã eu vou voltar pra Sibéria.
O sorriso que parecia estar grudado no rosto do japonês durante todos aqueles dias desapareceu no mesmo instante. Balançou a cabeça em sinal de entendimento e observou Hyoga sair.
O Cisne voltou para o próprio quarto. Não precisava se preocupar em fazer malas, pois já tinha tudo lá. Abriu a porta de seu armário, onde havia um espelho que mostrava o corpo inteiro. Pegou um pacote fechado de ataduras e começou a passá-las pelo contorno da cabeça.
Enrubesceu ao lembrar do hálito quente de Shun contra sua pele e deixou a testa tocar no espelho para olhar-se bem de perto.
Estava confuso, pensando e sentindo coisas estranhas. Não dava mais para continuar naquela casa... Ficar ali era sufocante! Precisava pensar e entender pelo que estava passando e, para isso precisava ficar sozinho.
oOoOoOo
- Ei, não vai esquecer o remédio.
- Eu sei.
- E não vai deixar de usar porque tem nervoso!
- Shun... – suspirou, revirando os olhos.
- Se cuida ta...
- Até mais. – disse, passando os dedos pelo topo da cabeça do japonês e piscando.
Despediram-se na porta da casa, quando a noite começava a surgir no céu. Shun sentia-se só agora, mas talvez aquilo fosse melhor... Afinal, seus sentimentos por Hyoga já haviam ultrapassado os limites e ele sabia. Talvez Camus, por quem Hyoga nutria tanta admiração, estivesse certo afinal. Sentimentos podem sim atrapalhar uma batalha... E além do mais, Hyoga não pensava nele daquela forma... Aquilo só iria machucá-lo...
oOoOoOo
Grécia – 4 dias depois
Hyoga acordou assustado. Olhou em volta e se encontrou num leito de hospital. Já estivera ali antes.
Seu coração palpitava. Estava preocupado e precisava falar com alguém! Precisava saber de todos: Atena, Seiya, Shun...
Respirou fundo quando o nome de Andrômeda veio a cabeça. Será que estava lá fora, esperando, assim como das outras vezes? Tinha tantas coisas pra perguntar... Qual a relação entre Shun e Hades? E Seiya, como estaria? Da última vez que o viu tinha uma espada ultrapassada pelo peito!
Tocou o alarme na parede para chamar alguém, não podia perder tempo naquela cama!
Pouco depois um médico entrou no quarto, deixando a porta aberta.
Examinava Hyoga e percebeu que o rapaz não parava de olhar para o corredor.
- Não tem ninguém lá, mas se quiser eu posso chamar os dois que já acordaram. – avisou, enquanto ouvia seu coração com um aparelho.
- Que dois?
- Um de cabelos longos e outro com uma cicatriz – e apontou para o próprio rosto.
- Peça, por favor, para Shiryu... O de cabelo grande... Vir aqui.
O Dragão apareceu poucos minutos depois, trazendo roupas limpas que Saori havia pedido especialmente para os cavaleiros. Deixou o monte de roupas na mesa e se virou para o Cisne.
- Fico feliz que tenha acordado. – o chinês sorriu. Seus olhos, assim como da vez passada, estavam recuperados.
- Como estão todos? – Hyoga perguntou preocupado enquanto saía da cama para pegar o embrulho deixado por Shiryu.
- Eu estou bem, como pode ver. Ikki também... Está com Shun.
Hyoga encarou o amigo com olhos tristes e moveu os lábios para perguntar algo, mas o Dragão respondeu antes:
- Shun ainda está dormindo, assim como Seiya. Nenhum dos dois corre perigo. E Saori está descansando no templo de Atena.
- Faz quanto tempo que estamos aqui?
- Dois dias.
- Fiquei dormindo por dois dias? – espantou-se. – Droga, preciso de um banho... – comentou passando os dedos pelo cabelo emaranhado.
- Fique a vontade... Ah, antes disso... Estamos hospedados na mesma casa da outra vez. Se quiser companhia para voltar eu posso te esperar.
O loiro aceitou o pedido com a cabeça.
- Vou estar aqui fora. – o Dragão dirigiu-se até a porta.
oOoOoOo
Como os cavaleiros estavam em quartos particulares Hyoga pode banhar-se ali mesmo.
Andaram um pouco até chegarem ao santuário propriamente dito e o Cisne chocou-se com o estado em que estava o local. As doze casas não passavam de meras ruínas e uma atmosfera triste cobria a tudo e a todos que passavam por lá. Alguns homens já trabalhavam, retirando escombros e tentando reconstruir o que já tinha sido a moradia dos cavaleiros de ouro.
Mais tarde ele, Shiryu e Ikki se encontraram com Saori para conversar sobre os acontecimentos recentes. A deusa explicou o que havia acontecido em Giudecca enquanto o Cisne e o Dragão não estavam presentes. Contou sobre o plano de Hades de esconder para sempre o sol e como ele volta a cada 200 anos, escolhendo um corpo puro para ser seu hospedeiro. E o escolhido daquela Era fora Shun.
A sala onde estavam era pequena e acolhedora. Hyoga ocupava sozinho o único sofá do lugar. Seu rosto estava apoiado nas mãos e ele olhava para o vazio, perdido em pensamentos.
Saori estava sentada numa cadeira alta, na frente do sofá e Shiryu estava parado ao seu lado. Ikki apoiava-se na janela, olhando para a paisagem morta do lado de fora.
- É possível que ele... Soubesse? – Shiryu perguntou.
- É claro que sabia, por isso foi até o inferno... Tentar impedir Hades. – Fênix respondeu sem olhar para trás.
- Você fala com tanta certeza... – Hyoga riu, zombeteiro. – Ele não sabia... Você só diz isso porque não passa tempo suficiente com ele. Não sabe o que ele pensa ou o que sente. Você não o conhece...
- E você conhece? – e só então Ikki se virou, encarando Hyoga que havia levantado do sofá.
- O conheço o suficiente para saber que ele não esconderia uma coisa dessas!
- Acalmem-se, por favor – Saori pediu, sem se alterar. – Shun é o único que pode responder isso, não adianta discutir a toa.
- Por que ele ainda não acordou se seus ferimentos não são graves? – Hyoga perguntou quase na mesma hora.
- Entenda... Não é o corpo dele que precisa de descanso. O espírito de Shun foi arrancado de seu corpo contra sua vontade e voltou, graças ao meu sangue. Não posso dizer que tipo de efeito isso vai ter nele, ou se vai ter algum. Mas sei que ele precisa de bastante descanso. Ele gastou muita energia... Vai acordar quando estiver preparado.
- E Seiya? – Shiryu voltou a perguntar.
- O caso dele já é um pouco mais grave... – a garota contava com o rosto baixo – Mas ele está sendo bem cuidado e eu vou estar com ele até que se sinta melhor... – sorriu discretamente e olhou para Shiryu – Por isso, você não precisa se preocupar, vá fazer o que deseja. Existe alguém que precisa mais de você do que Seiya. E Shun já está bem acompanhado.
- Atena... – Shiryu escondeu o rosto que parecia um pouco avermelhado. – Tem certeza que posso ir para a China?
- É claro! Shunrey está te esperando, não está?
O chinês concordou e Saori se voltou para Hyoga.
- E você? O que pretende fazer?
- Como assim?
- Vai voltar para a Sibéria?
- Não... Vou ficar por enquanto... – respondeu, agora já mais calmo.
- Que bom! Tenho certeza de que Shun irá apreciar sua companhia quando acordar! - a deusa comentou, deixando o cavaleiro sem graça.
oOoOoOo
Shiryu partiu na manhã seguinte e Hyoga passou novamente no hospital. Teve o olho esquerdo examinado e recebeu a noticia de que já estava 100 curado. Ao sair, não foi direto para casa, passou pelo corredor onde Shun estava internado, mas não entrou em seu quarto. Nem ao menos olhou pela pequena janela que tinha na porta.
Apenas sentou em uma das cadeiras de espera que ficava no corredor. Curvou as costas para apoiar os cotovelos nos joelhos e juntou as mãos na frente do rosto.
- Você pode entrar, sabe? – A voz rouca de Ikki avisou, mas o loiro não se moveu e nem olhou quando o mais velho ocupou o lugar vazio ao seu lado. – Você está certo... Eu não o conheço mais.
Hyoga moveu-se um pouco, mas não mudou sua posição.
- Meu irmão está sempre sorrindo quando o vejo, mas sei que ele só faz isso pra que eu não me preocupe. Ele está sempre pensando no que é melhor para os outros, nunca nele mesmo. Mas mesmo sabendo disso, eu nunca perguntei se ele queria me contar alguma coisa... Eu pensei que apenas estando presente vez ou outra já era suficiente... E por isso deixei que coisas importantes me passassem despercebidas...
- Ele sente sua falta.
- Ele te disse isso?
- Não, mas... Shun é o tipo de pessoa que não gosta de ficar sozinho.
- E mesmo assim ele estava... – Fênix suspirou – E você está tão errado quanto eu.
- O que eu tenho a ver com isso?
- Você também o deixou sozinho... Ou vai dizer que não sabe o quanto ele... Como ela disse? "Aprecia sua companhia"? – comentou com um sorriso irônico.
Hyoga deixou escapar uma lágrima que escondeu na mesma hora com as mãos. Ele realmente havia deixado Shun sozinho, e justo quando o garoto mais precisava de alguém. Shun havia contado sobre seus pesadelos, devia ter notado que ele precisava de ajuda, de alguém para confortá-lo... Mas pensou apenas em si mesmo, em como precisava sair daquela casa... E pra que? Para pensar mais em Shun! Como foi tolo... Devia ter notado antes que queria estar com ele. Que o amava a tal ponto que era sufocante estar sem sua presença!
Não conseguiu mais conter as lágrimas, o que deixou Ikki sem saber como agir.
Chorava por que agora tinha certeza de que amava Shun mais do que qualquer outro. Porque queria vê-lo e falar com ele... Ouvir sua voz, olhar em seus olhos... Mas não tinha coragem nem de se aproximar do quarto! Não queria vê-lo fragilizado daquele jeito... Queria sim vê-lo, mas sorrindo como sempre, tão gentilmente.
oOoOoOo
Hyoga ficava no hospital quase o dia inteiro, quase sempre acompanhado de Ikki, mas os dois não trocavam mais do que raras palavras. Voltava para a casa apenas para dormir e tomar banho, queria estar lá caso Shun tivesse alguma mudança. Até que, depois de quase uma semana, acordou de manhã cedo com alguém batendo na porta de madeira. Um menino que não devia ter 10 anos deixou um bilhete em suas mãos e foi embora sem dizer uma palavra.
"Ele acordou."
Era só o que estava escrito. Não precisava de mais nenhuma explicação, só podia ser um bilhete de Ikki! Vestiu-se o mais rápido possível e no caminho passou em uma barraca de flores e escolheu algumas aleatoriamente.
Andou rápido até o local indicado pela recepcionista, já que Shun estava agora em um outro quarto. A porta estava aberta e não se ouviam vozes. Lá dentro Ikki velava o sono do caçula e ele próprio estava quase dormindo. Hyoga bateu na porta chamando a atenção de Fênix, que se ajeitou na cadeira no mesmo instante.
- Ele está bem? – perguntou adentrando o quarto.
- Está... Ele acordou de madrugada, mas pediu pra não avisar ninguém até de manhã... Como não tem telefone no santuário eu não sabia se você ia receber a mensagem, mas acho que as moedas que dei pro moleque foram suficientes... – admitiu com um sorriso discreto, coçando os olhos.
- Por que não vai dormir então? Eu fico aqui com ele.
Ikki levantou concordando com a cabeça, mas antes de sair deu um último aviso:
- Não o force a falar sobre nada. Ele ainda está cansado e não teve tempo de pensar no que aconteceu.
- Eu sei... – Hyoga disse, se encaminhando até a cadeira antes ocupada pelo outro.
Esperou até a porta se fechar para puxar a cadeira para mais perto da cama. Sem levantar, deixou as flores em cima da mesinha simples, que ficava encostada na parede, e parou para observar o garoto. Suas mãos pequenas e tão brancas descansavam por cima de seu abdômen. Alguns arranhões e hematomas estavam aparentes, assim como em seus braços e rosto; alguns cobertos por pequenos curativos, mas nada grave. Ele mesmo também estava com machucados pelo corpo todo. Era impossível não tê-los levando aquele tipo de vida... Tocou uma das mãos gentilmente, acariciando a pele quente de Andrômeda com a ponta dos dedos trêmulos.
Levantou o olhar até seu rosto e não pode deixar de sorrir ao vê-lo. Há quantos dias estava esperando para poder finalmente rever aqueles traços delicados? Parecia uma eternidade... Mas agora ele estava ali... Se ao menos tivesse coragem para dizer a Shun o que queria... Se tivesse coragem de abraçá-lo...
Um movimento inesperado fez o Cisne voltar a atenção para as mãos do garoto. Sentiu a mão se mexer por debaixo da sua e logo depois um suspiro... E a voz baixa perguntou com dificuldade:
- São pra mim?
Inclinou o corpo para mais perto do rosto de Shun. Seus olhos verdes estavam abertos, mas ainda pesados. Olhou das flores para Hyoga e sorriu.
O russo sentiu o coração prender na garganta. Que saudades daquela voz! Por todos os deuses, podia beijá-lo agora mesmo! Riu de si mesmo e escondeu o rosto, envergonhado de seus pensamentos.
- São. Achei que fosse achar o quarto sem graça.
- Nii-san disse que você veio todos os dias...
O loiro sorriu encabulado e segurou a mão de Shun com mais força.
- Senti sua falta... Você sabe que seu irmão não é das companhias mais divertidas...
- Nem um pouco... – riu balançando a cabeça. Desprendeu a mão da de Hyoga e a levou até o rosto do rapaz, tocando sua pele próximo ao olho esquerdo. – Você sarou...
Por um instante o sorriso do Cisne se desfez e ele encostou novamente na mão de Shun, levando a palma macia de encontro aos seus lábios. Beijou-a discretamente, deixando Andrômeda sem reação e sem palavras.
- Eu tenho tantas coisas pra te contar... – o russo falou finalmente.
- Será que podem esperar? – perguntou sorrindo e deixando as pálpebras fecharem contra sua vontade.
- É claro. É melhor você dormir mais um pouco...
- Você vai estar aqui quando eu acordar, não vai?
- Vou.
oOoOoOo
Shun saiu do hospital naquele mesmo dia, mas mesmo ao chegar na casa dormia mais do que qualquer coisa. Acordava eventualmente para comer ou ir ao banheiro, mas o garoto estava mesmo cansado. Ficaria daquele jeito até o efeito do soro desaparecer de seu corpo e isso podia levar alguns dias. Durante todo o tempo era vigiado de perto por Ikki e Hyoga, que volta e meia iam até o quarto saber se o rapaz estava bem ou precisava de alguma coisa.
No dia seguinte Shun já se sentia melhor, ficou mais tempo acordado e conseguiu até conversar um pouco, mas Hyoga ainda não achava apropriado dizer o que queria... Perto do fim do dia Saori visitou os rapazes para levar notícias sobre Seiya, a "reforma" do santuário e para saber como estava Shun.
- E então, acha que está bem o suficiente para voltar pra casa? – a deusa perguntou ao cavaleiro mais novo.
- E você Saori-san? Vai ficar aqui sozinha? – o japonês preocupou-se.
- Eu não vou estar sozinha. Ainda restaram alguns cavaleiros no santuário e eu quero estar presente por agora. Eles perderam muito aqui e precisam de mim... Além do mais, seus serviços como cavaleiros de Atena estão revogados indefinidamente.
- Como?? – O Cisne perguntou. Estava tão surpreso quanto os outros dois.
- Vocês já fizeram o suficiente por mim. O que eu quero agora é que vivam sua vida sem se preocupar com o santuário. – a garota dizia com um sorriso gentil. – A Guerra Santa acabou e Hades só voltará daqui há mais de 200 anos. As batalhas acabaram. – concluiu.
oOoOoOo
Hyoga acordou de madrugada, sua garganta estava seca e ele precisava beber algo. O relógio de ponteiro preso à parede marcava que estava perto das duas e meia da manhã. Antes de voltar para a cama notou que a porta do quarto onde Shun dormia estava aberta, mas lembrava-se de tê-la fechado antes de dormir porque sabia que o garoto era sensível ao frio.
Aproximou-se e olhou dentro do quarto. Ele não estava lá.
Ikki ainda dormia no sofá da sala, com certeza não tinha notado a saída do irmão. O russo fechou a porta o mais silenciosamente possível para não acorda-lo. Seria melhor se Ikki não ficasse sabendo.
Andou pelos arredores da casa, prestando atenção a qualquer som ou movimento. Por sorte, Shun não estava longe. Estava sentado, encostado ao tronco de uma árvore sem folhas e olhava para o céu estrelado. Seus ombros estavam cobertos por uma manta branca.
Hyoga aproximou-se, sentando-se bem próximo a ele e olhou para o mesmo ponto.
- Não consegue mais dormir? – perguntou ao menor.
- Acho que já dormi bastante.
- E precisava vir pra cá? Está frio...
- Não quis acordar vocês.
- Você quer conversar? – Hyoga virou o rosto para o outro depois de alguns minutos de silêncio.
- Não... – Shun abraçou os joelhos e deitou a cabeça por cima deles.
- Bem, se você quiser... Eu vou ouvir.
- E sobre o que eu falaria?
- Não sei. Qualquer coisa.
- Era você quem queria me dizer algo... No hospital.
- Ah, não tente mudar o foco do assunto pra mim! – brincou, mas voltou a ficar sério logo depois – Você sempre me disse que eu não tinha que agüentar as coisas sozinho. E eu te digo o mesmo.
- Hyoga, não precisa fazer essas coisas por pena, ta bom... – o japonês virou o rosto triste para o lado oposto.
- Pena? E de onde você tirou essa idéia?
- Você queria tanto voltar pra Sibéria antes, por que ainda está aqui? Por que está agindo dessa forma? Perguntando se eu quero conversar? Eu sei que meu irmão e Saori-san te contaram o que aconteceu, mas eu estou bem. Não preciso de nenhum cuidado especial.
O russo se levantou, sentando de frente para Shun. Pegou seu rosto entre as mãos e o fez olhar diretamente para si.
- Você acha que eu estaria fazendo isso por pena?
- E por que mais seria?
- Porque eu quero!
- Me solta... – pediu quase sussurrando, e abaixou o rosto.
- Escuta... – o russo soltou o rosto frágil e deslizou as mãos até as de Shun, pegando as duas entre as suas. – Eu não quero mais voltar porque eu não preciso mais... E nem quero viver mais no passado. Eu nunca vou esquecê-los e nunca vou esquecer aquele lugar, mas não quero mais ficar preso a ele. Saori nos deu uma chance de viver como pessoas normais e eu quero aproveitar isso. Quero ficar junto de quem é importante pra mim a partir de agora, para que eu não me arrependa de mais nada no futuro.
Shun olhou das mãos entrelaçadas até o rosto de Hyoga. Tudo o que ele dizia era bonito, mas ele ainda não entendia direito suas palavras. Ou estava com medo de entendê-las errado...
- Isso não explica o que você ainda está fazendo aqui... – falou, com o rosto meio corado.
O Cisne suspirou mais uma vez e sorriu. Então ele teria que contar a história completa? Mas era agora ou nunca... Que outra chance seria melhor do que esta?
Levou os dedos de Shun até os lábios e beijou-os uma vez, adorando ver a reação de Andrômeda: seus olhos verdes se arregalaram e sua boca se entreabriu.
- Sabe, quando mama morreu a dor foi tão grande que eu decidi que nunca ninguém seria importante pra mim. Foi como se metade do meu coração tivesse ido com ela... E se eu deixasse alguém entrar na metade restante e essa pessoa também se fosse, o que sobraria pra mim? – riu de seu próprio comentário – Sei que é algo idiota de se dizer, mas era assim que eu pensava. – ficou em silêncio por alguns segundos, pensando em como iria continuar. - Mas as coisas não são tão fáceis quanto eu pensava... E antes que eu pudesse evitar alguém já tinha conseguido entrar no meu coração. E não só isso, essa pessoa também devolveu a metade que eu achei ter perdido... E esse é o resultado...
Levou a mão de Shun até o próprio peito, fazendo-o tocar no centro, onde seu coração batia acelerado.
- Entende agora por que eu estou aqui? – perguntou, deixando que a testa encostasse-se à do japonês.
Sentiu os dedos de Shun se agarrem ao tecido de sua roupa e o som baixo de seu choro. O garoto escondeu o rosto com a mão livre. Lágrimas não paravam de cair de seus olhos.
- Você acha... Que eu fiz isso? – perguntou engasgando um pouco no choro. – Você ao menos sabe o que está dizendo?
- É claro que eu sei! – disse voltando a segurar o rosto pálido – Eu quero ficar com você Shun.
- Não vai mais me deixar? – a expressão do garoto era quase como alguém implorando por algo.
Hyoga balançou a cabeça sorrindo, limpou um pouco das lágrimas do mais novo e aproximou o rosto dos dele. Beijou sua face nos dois lados, sentindo o puxão em sua roupa aumentar de intensidade. Deixou os lábios se tocarem apenas por um instante para logo depois tocarem-se novo, dessa vez por mais tempo. E a cada vez as bocas inexperientes demoravam mais para se distanciar.
Um sussurro... Eu amo você... E outro beijo...
E assim a noite se seguiu...
oOoOoOo
Japão – 5 dias depois
Era fim de ano e isso trouxe as baixas temperaturas de volta ai país. Os moradores andavam pelas ruas muito agasalhados e o ar podia ser visto saindo de suas narinas e bocas.
- Quantos graus você acha que está fazendo? – Shun perguntou, ajeitando uma touca vinho na cabeça. Andava na frente de Hyoga, dando passos para trás.
- Você vai tropeçar andando assim. – avisou com um sorriso.
Shun passou para o seu lado, segurando a mão gelada do russo, mas sem ligar, pois estava usando luvas. Os dois caminhavam despreocupadamente pela área da mansão, quase tão vasta (ou até maior!) que qualquer bosque público, mas ao menos tinham privacidade!
- Podia nevar logo ne? – o menor perguntou olhando para o céu cinzento – Mas você já deve estar mais que acostumado.
- Não é por que estou acostumado a ver algo que vou deixar de achar bonito... – inclinou o corpo, de modo que falou bem próximo a orelha de Shun.
As bochechas do japonês tomaram imediatamente um tom rosado e ele abaixou o rosto, sem graça.
- Você diz cada coisa... – comentou e virou para o lado oposto para esconder um sorriso.
- Espera, pára aqui. – pediu e se posicionou na frente do menor, segurando suas mãos. – Fecha os olhos.
O japonês obedeceu curioso. Sentiu as luvas sendo retiradas e depois suas mãos sendo deixadas por cima das de Hyoga.
- Isso vai ser um pouco gelado. – o loiro avisou.
Seus dedos se retraíram por um instante quando o ar frio tocou em sua pele. Não sabia o que Hyoga estava fazendo, mas confiava nele e por isso manteve os olhos fechados.
- Pode olhar.
O que viu fez o sorriso em seu rosto aumentar ainda mais: Pequenos cristais de gelo voavam, parecendo sair das palmas de suas mãos. Usou seu próprio cosmo para criar uma leve brisa que fez os cristais voarem ainda mais alto.
Hyoga retirou as mãos, aproveitando para observar o olhar encantador de Shun para os pequenos flocos. Aproximou-se e abraçou o pequeno corpo pela cintura.
- Isso é lindo Hyoga...
- Não mais do que você.
O mais novo riu envergonhado e escondeu o rosto nas vestes do namorado. Sua voz saiu abafada quando perguntou:
- É estranho pensar que... Quero ficar com você pra sempre?
- Nem um pouco. Eu penso a mesma coisa sobre você.
- Mas "sempre" é bastante tempo... Não vai se cansar de mim vai? – olhou para cima, apoiando o queixo no corpo de Hyoga.
- Shun... "Sempre" não é suficiente! – concluiu com um sorriso. Abaixou a cabeça para alcançar os lábios avermelhados do garoto e o beijou carinhosamente.
oOoOoOo
(1) Eu escrevi sobre isso em algum outro capítulo...
